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audiovisual
CINEMA

A liberdade de filmar
Por Carlos Adriano


Ator durante as filmagens de "Síndromes e um Século", filme de Apichatpong Weerasethakul
Divulgação

Um dos principais cineastas da atualidade, Apichatpong Weerasethakul fala sobre a proibição de seu último filme na Tailândia

Seu nome pode ser até impronunciável para o espectador ocidental acostumado à dieta esquemática das mercadorias superficiais do cinema convencional. O estranhamento é proporcional ao impacto de originalidade e ao deslumbramento sonoro-visual que seus enigmáticos filmes provocam. Não há sombra de dúvida de que, com seus objetos fílmicos misteriosos radiando à luz do dia, Apichatpong Weerasethakul é um dos cineastas mais instigantes e inventivos atualmente em atividade.

Seus projetos de arte e seus filmes alcançaram amplo reconhecimento internacional e prêmios, incluindo dois em Cannes -Prêmio do Júri em 2004 por “Tropical Malady" (Moléstia Tropical) e o Prêmio Un Certain Regard em 2002 por “Blissfully Yours" (Ditosamente Seu). Em 2005, foi agraciado com o Silpatorn, um dos prêmios mais prestigiosos para artistas visuais na Tailândia, dado pelo Ministério da Cultura. Ele ainda está às voltas com a censura do país contra seu longa mais recente, “Syndromes and a Century" (Síndromes e um Século, 2006).

Nascido em Bangkok, em 1970, e criado em Khon Kaen (noroeste da Tailândia), onde se graduou em arquitetura na universidade local, Apichatpong fez mestrado em cinema no Instituto de Artes de Chicago.

Começou fazendo filmes em 1994 (“0116643225059”, em 16 mm), depois vídeos, e seu primeiro longa-metragem data exatamente do ano 2000 -"Mysterious Object at Noon" (Objeto Misterioso ao Meio-dia, em 35 mm). Desde 1998, monta instalações pelo mundo. Para 2009, Bernardo Vorobow e este articulista preparam, com a cumplicidade de Apichatpong, uma mostra completa de toda sua obra audiovisual no Brasil.

O cineasta tailandês anseia pelo dia em que “fazer filmes seja um ato mais livre, e fazer arte seja um gesto livre de intelectualizações”. Em 2007, ele produziu como encomenda especial para a Dior o curta-metragem "My Mother's Garden (O Jardim de Minha Mãe), em HD (vídeo digital de alta definição). Apichatpong opera independentemente da indústria cinematográfica e gera uma arte que instaura a estranheza, interroga o conhecimento e arrebata os sentidos sensoriais. Para ele, “as obras são as respostas para diferentes impulsos e aspectos da vida”.

Em sua obra, o cinema e a vida participam do mesmo rit(m)o de reciclagem. Para ele, seus filmes estimulam a auto-consciência: o espectador consciente de estar assistindo a um filme seu é a pessoa consciente de viver sua própria existência; a meditação budista em fase com a revelação do cinema. Ele cita como exemplo a segunda parte de “Moléstia Tropical”, em que a mudança brusca desperta no espectador a constatação de que aquilo é um filme, um objeto audiovisual artificialmente construído, e que é desejável se livrar da corrente narrativa e se deixar levar por uma imersão sensorial.

Na entrevista a seguir, ele fala de seu processo criativo, sobre a censura ao seu filme “Síndromes e um Século”, a influência das tradições religiosas e folclóricas em sua obra e anuncia o seu novo filme -uma obra que gerará ainda uma instalação e o ocupará durante todo ano de 2008. Suas respostas quase sempre têm uma reticente desconfiança contra a certeza absoluta. “Às vezes, tenho dor de cabeça ao pensar logicamente”, revela.

E quem não consegue pronunciar o nome de Apichatpong Weerasethakul pode chamá-lo de “Joe” -que soa parecido com seu apelido tailandês: aproximadamente “Joey”. É como "2008 from Joe" que ele assina "Prosperity", o pequeno vídeo (seu primeiro no ano) postado por email aos amigos em 1º de janeiro. Filmado em Chiang Mai (norte da Tailândia), e embalado em singela melodia de viola, um ponto brilhante pulsa no escuro, até que se percebe sua crescente ascensão e, a seguir, sua fulgurante expansão em chamas, venturosa projeção de clarões luminosos, até o retorno pontual.

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Seu mais recente longa-metragem está sob censura em seu país. O que aconteceu?

Apichatpong Weerasethakul: Não sei ao certo por que o Conselho Tailandês de Censores tomou como alvo meu filme “Síndromes e um Século”. O conselho exigiu que eu cortasse quatro cenas antes que o filme pudesse ser lançado em meu próprio país –momentos aparentemente inócuos de um jovem monge tocando violão, um grupo de médicos bebendo uísque num porão de hospital, um médico beijando sua namorada numa sala de hospital, dois monges brincando com um disco-voador por controle-remoto.

Até eu fazer essas mudanças, a cópia de “Síndromes e um Século” permancerá trancada no quartel da polícia, apesar de nossa promessa de não mostrar o filme se eles nos devolverem a cópia 35 mm. O conselho não confia em mim nem em meus colegas. Nós poderíamos apelar contra essa decisão, mas decidimos não fazê-lo -os juízes que analisariam o recurso poderiam achar mais coisas ainda a objetar.

Não é como se estivéssemos insultando monges e médicos -filmes que os mostram em comportamento muito pior foram distribuídos aqui. Creio que “Síndromes” é um filme respeitoso, um tributo aos meus pais, que eram médicos. Por que então meu filme foi confiscado?


Há alguma hipótese para essa resposta?

Apichatpong: Uma teoria é que os grandes estúdios têm uma influência muito grande sobre o que é exibido. Apenas um ou dois filmes são lançados a cada semana na Tailândia, então há bastante competição por esses espaços. E os estúdios têm uma relação próxima com os censores.

O problema reside em nossas leis de censura. Atualmente, os cinemas da Tailândia estão sujeitos a uma lei cinematográfica de 1930, um vago estatuto que proíbe o que chamam de promoção dos maus costumes. Na prática, significa que filmes tratando de sexo, religião e política são tabus. Mas a violência não é. É por isso que podemos ver muitos filmes de terror e comédias na Tailândia, mas muito poucos filmes políticos.

Alguns diretores dizem que tiveram de pagar para conseguir a liberação de seus filmes para exibição. A justificativa do governo para o tratamento ríspido contra os filmes é que o povo tailandês não está educado o suficiente para lidar com questões sérias.

O Ministério da Cultura diz que o tailandês médio é educado no nível de um aluno de sexta série de uma escola norte-americana, e não está preparado para filmes de arte ou filmes políticos. Aparentemente, é como se os políticos não quisessem que as pessoas analisassem suas próprias vidas e a sociedade em que vivem.


Como a sociedade e o meio cinematográfico se posicionam nesta questão?

Apichatpong: Há uma tentativa de retificação do ato de 1930, mas a revisão proposta poderia ser ainda pior. Como está configurado, o novo projeto de lei introduziria um sistema de classificação em três camadas, baseado na idade, e o Conselho de Censura ainda reteria o poder de cortar e banir os filmes.

A Associação dos Diretores de Cinema Tailandês e a Fundação do Filme da Tailândia são contra as propostas, mas nós precisamos mais apoio dos estúdios e das salas de cinema. Porém, esses dois grupos têm sido seduzidos pela promessa do governo de criar um novo fundo para o cinema junto com o sistema de classificação.

Entretanto, duvido que o fundo jamais será uma realidade. Em vez de apelar contra o veto a “Síndromes”, tenho trabalhado para mudar o novo projeto de lei. Acredito que o governo não deveria ter qualquer papel na classificação de filmes, porque a Tailândia é muito corrupta.

Proponho então que trabalhemos com o público na construção e melhoria de um sistema de classificação. E minhas tentativas para mudar o novo projeto significam que agora eu sei muito mais sobre como os políticos pensam; aprendi mais sobre como os cineastas são tratados na Tailândia e sobre os obstáculos que todos nós enfrentamos.


Como está a situação no momento?

Apichatpong: A cópia ainda está com a polícia, que se recusa a devolvê-la. Mas no momento tento conseguir que coisas melhores sejam feitas, como um livro ou um documentário sobre a questão. Não estou eu mesmo, efetivamente, fazendo isso. Em nosso grupo, alguns expressaram interesse em fazer essas documentações.

Mas, de fato, meu próximo filme será inspirado pelo que tem acontecido comigo. Haverá aqueles que se perguntarão por que qualquer coisa dessas importa, por que um filme de um cineasta independente ser condenado à prateleira deveria ser de interesse para alguém.

Uma razão: o que acontece na indústria do cinema nos mostra mais do que como o Conselho de Censores funciona. Mostra-nos como a Tailândia funciona. E isso realmente é importante.


Certa vez, você declarou que seus “filmes são basicamente conceitos”. Como é seu processo criativo? Quais os pontos de partida?

Apichatpong: As obras são as respostas para diferentes impulsos e aspectos da vida. Elas refletem sentimentos de transição, percepções ou vários outros pensamentos. Na maior parte do tempo, o processo começa quando sou confrontado com certas memórias recorrentes, seguidas por suas localizações, posições, locações. Então eu procuro outras “interpretações” na forma de colaboração, do começo ao fim, com a montagem.


Para o público ocidental, seus filmes parecem mesmo "objetos misteriosos”. Como você elabora a condição do enigma como estratégia de comunicação?

Apichatpong: Primeiro, o trabalho tem que se comunicar comigo. Depois, com meu montador, e o último passo é com os produtores. A primeira fase não é a mais difícil, mas consome bastante tempo. Pode ser uma armadilha de certos estilos.


Pensando num filme como "Moléstia Tropical", em que medida seus filmes são influenciados por tradições folclóricas ou religiosas da Tailândia?

Apichatpong: Sou fascinado pela época de minha infância. Cresci com todos aqueles contos do sobrenatural. Agora vejo alguns deles como fatos quando tento entender mais sob um ponto de vista do budismo. É desafiador apresentar certas convicções, opiniões ou crenças que não podem ser provadas cientificamente.


Seus filmes parecem errar, estarem à deriva, mas dentro de uma estrutura precisa de pulso e ritmo. Como você organiza esse equilíbrio entre indeterminação e planejamento?

Apichatpong: Não posso responder bem a esta questão. Na maior parte das vezes, tem a ver com o modo como as cenas sincronizam-se com meu próprio ritmo. Mas estou sempre aberto a acasos e contingências. Não tenho muita experiência em analisar meu próprio trabalho ainda, o que não estou certo se de fato quero. Às vezes, tenho dor de cabeça ao pensar logicamente.


Quais as diferenças de método e abordagem quando faz filmes e quando faz video-instalações, obras para salas de cinema e para salas de museu?

Apichatpong: Tento não fazer distinções entre elas conceitualmente. Entretanto, praticamente, a instalação é como um esboço para uma disposição, um estado de espírito, do filme que estou fazendo. A video-instalação aparece mais abstrata, mas me dá uma idéia mais clara do que estou tentando realizar no filme de longa-metragem. Eles coexistem muito bem.

Fazer um filme como os meus demanda que eu mesmo me envolva em todo o processo, tal como lidar com questões financeiras. Fazer arte me libera dessas distrações, permite que eu me concentre na essência do trabalho. Mas a linha entre os dois está ficando cada vez mais borrada.

Imagino um dia em que fazer filmes seja um ato mais livre, e fazer arte seja um gesto livre de intelectualizações. Contudo, não posso negar que orçamento e outras restrições afetam o processo conceitual também.

Muitas vezes gostaria de ter, para instalações, o mesmo orçamento que tenho para os filmes, porque na maioria dos casos sempre uso a mesma equipe e o mesmo elenco, a mesma locadora de câmera e a mesma casa de pós-produção. Tenho que negociar com eles: isto é para arte, pouco dinheiro.

Fazer um longa-metragem me toma dois anos. Enquanto que, fazendo esboços, por causa do orçamento, não me é permitido levar tanto tempo. Assim, às vezes, as idéias emergem de um impulso rápido. Posso experimentar muitos formatos, com equipamentos de iluminação e outros aparelhos de cinema que nunca usei.


Você pode dizer algo sobre como será seu próximo filme?

Apichatpong: Estou rascunhando um esboço de um filme gêmeo. Um é sobre extinção; o outro é sobre seus efeitos posteriores. Ainda é bastante cedo para contar. Mas eu gostaria de tentar fazer dois filmes que se comunicassem um com o outro, com diferentes paisagens e tempos. Hum, parece “Síndromes e um Século”! Mas espero que seja diferente…


Publicado em 23/2/2008

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Carlos Adriano
É cineasta e doutorando em estética do audiovisual na USP. Realizou, entre outros, "Remanescências" (coleção The New York Public Library), "A Voz e O Vazio: A Vez de Vassourinha" (melhor curta documentário Chicago Film Festival), "Militância" e "um Caffé com o Miécio" (exibidos no MoMA de Nova York). O Festival de Locarno apresentou em 2003 uma mostra de todos os seus filmes. Com Bernardo Vorobow, é autor do livro "Peter Kubelka: A essência do cinema" e organizador de "Julio Bressane: CinePoética".

 



 
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