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a.r.t.e.
SEGREGAÇÃO

Novos ricos da música
Por Henry Burnett

Repertório de cantoras brasileiras dá pouca atenção aos novos compositores e expressa a elitização dos ouvintes de MPB

No ano passado, em algum momento de seu concerto de estréia no Teatro Fecap, o compositor e violonista Arthur Nestrovski deixou o professor vir à tona e deu uma pequena aula sobre a canção brasileira. Disse, entre outras coisas, que os cinco volumes do "Cancioneiro Jobim" deveriam ser colocados ao lado de Clarice Lispector e Guimarães Rosa em todas as estantes escolares do Brasil; e disse também que nós estamos tão acostumados ao volume e à qualidade da produção lírico-musical nacional que achamos tudo absolutamente normal a ponto de parecer desimportante.

Seguindo parte de seu raciocínio, poderíamos dizer a mesma coisa em relação às cantoras brasileiras: elas são tantas e tão boas, que apenas conseguimos esboçar um certo enfado ao ter que admitir que mais uma delas apareceu e tem talento.

Claro que nem sempre uma nova cantora se apresenta aliada àqueles bons compositores citados por Nestrovski; mormente, e sem que haja explicação possível, algumas delas aderem ao cânone mais clichê da MPB, numa aparente tentativa de busca de segurança que é indefensável num país de tantos autores; outras são igualmente compositoras e apostam na própria autenticidade; algumas se perdem pelo caminho. É assim o mercado.

Pois bem, as cantoras não param de surgir, de todos os lugares do país e com múltiplas identidades. Como sempre, dentro desta grande produção, algumas se destacam. Não queremos aqui simplesmente indicar uma ou outra. Não se trata de fazer crítica musical. Talvez seja mais interessante tentar perceber o papel que elas exercem no momento atual da MPB e a continuidade de seus trabalhos em meio à fragmentação da produção musical.

Podemos correr o risco de falar em uma certa “estratégia” na carreira dessas intérpretes? Em linhas gerais o procedimento é semelhante, e reside em gravar tanto peças coletadas da tradição musical quanto de tentar encontrar novos compositores no meio de nossa imensa produção autoral recente. A cantora Mônica Salmaso pode ser considerada um exemplo emblemático e também privilegiado desse, digamos, modelo.

Seu disco mais recente, "Noites de Gala, Samba na Rua" (Biscoito Fino, 2007) foi todo dedicado à obra do compositor vivo mais canônico que existe, Chico Buarque. Por trás dessa escolha podemos tecer algumas hipóteses. Quando resolve, depois de tantas outras o terem feito (no seu caso a realização se dá em nível incomparável), dedicar um disco inteiro a Chico, ela não realiza apenas um projeto de paixão pessoal, mas também se deixa aproximar perigosamente de um novo tipo de público, que vamos chamar aqui de ouvinte de elite.

Dentre as últimas grandes mudanças ocorridas na cena musical, uma delas é a elitização de parte dos ouvintes de MPB –talvez esse novo ouvinte se confunda com o que conhecemos por novo rico. Trata-se de um novo consumidor (esse termo é melhor que ouvinte) que não admite a aproximação de artistas de apelo popular fácil dos grandes nomes da MPB, por isso ele se fecha dentro de um outro nicho, não mais econômico mas cultural, falsamente especializado, que pode ser ilustrativamente comparado aos orgulhosos compradores que ostentam o nome de Tom Jobim (e sua paixão pela natureza) na decoração e na idealização de seus condomínios de luxo em São Paulo. Tom Jobim tem memória...

O disco de Mônica Salmaso cai como uma luva no gosto desse público, pois os ilude com sua sofisticação, e fornece a eles novas razões para achar rap coisa de pobre. Grandeza estética dela e do grupo Pau-Brasil, que a acompanha e responde por alguns dos arranjos mais criativos já feitos para as canções de Chico; incompreensão e incapacidade de quem acha que boa música é produto de quem tem grana. Assim, o Brasil segue, perigosamente dividido.

Procedendo desta maneira, diga-se de passagem, não como uma estratégia comercial pura e simples, Salmaso acaba arrebatando esse público que se apropria da tradição (com um procedimento social segregador, não musical), e que não liga para as novas gerações de cancionistas, ainda que esses sejam igualmente tradicionais.

Novos compositores que Salmaso já gravou em outros projetos também não encontram sua platéia entre jovens que gostam de rap, hip-hop e música pop, e que acham canção meio sacal –com alguma razão, pois quantidade nem sempre resulta em qualidade e porque a canção se renova de modo delicado e quase imperceptível.

Esses novos autores também acabam não encontrando seu público em meio a esse filisteísmo cultural pretensamente refinado –palavras de Nietzsche. Na verdade, ouvir Chico através da voz de Mônica Salmaso é um modo desse ouvinte moderno renovar sua incapacidade pelo reconhecimento do novo.

Isso tudo faz com que nunca sintamos o mesmo enfado que as cantoras parecem causar, porque os compositores jovens tendem a permanecerem proscritos (ou à margem), mesmo quando suas carreiras pareciam consolidadas –vide o caso de Chico César.

Terrível e insolúvel equação. Nosso futuro estaria no passado? Não. Isso seria uma injustiça ao movimento natural da música popular com seus novos ritmos e artistas, frutos do seu tempo –o rap e seus afins menos densos. Eles refletem a sociedade na qual se desenvolvem; são sua representação mais rigorosa. Não se pode normatizar a criação. Uma lição básica.

Dito isto, pensemos em uma das mais recentes aparições femininas na cena popular: a cantora (e compositora) Céu, que vem pouco a pouco fincando o pé nesse concorrido mercado. Badalada, já dividiu o palco com nomes como João Bosco e Luiz Melodia, e já gravou o clássico programa "Ensaio", de Fernando Faro. Seu disco pode ser considerado autoral, pois o cânone fica reservado à gravação de “Ronco da Cuíca” (de João Bosco e Aldir Blanc).

É dela a letra da canção mais tocada do disco, “Lenda”: "Tome tento fique esperto/ hoje não tem papo/ jogo-lhe um quebrante num instante você vira sapo/ bobeou na crença príncipe/ volta ao seu posto de lenda/ seu nome na boca do sapo/ sua boca"... Suas letras e seu som tendem ao pop sofisticado, mas ainda distantes da qualidade da tradição na qual ela parece querer estar vinculada, a da MPB de matriz buarqueana.

Céu é um reflexo do seu meio, daí seu tom paulistano refinado e sua acolhida entre os "cults" –igualmente filisteus da cultura. Não por acaso, seu disco já nasce dentro desse esquema de consumo hierarquizado, infelizmente. Mas ela é uma artista rara, uma cantora de personalidade e aparenta ter fôlego para sair dessa prisão elitista que a MPB vai se tornando. Além do mais, um disco só hoje em dia é pouco para traçar o futuro de uma artista.

Parte da crítica acredita que a MPB que Céu e outras cantoras produzem atualmente é conformada dentro de um padrão de feitura que não se movimenta, e que remói um modelo bem comportado; em parte isso é correto. No entanto, o cancioneiro não é homogêneo e estável.

O mercado se desespera tentando cooptar o rap de modo a domesticá-lo, anestesiando o impulso primordial de seu discurso, totalmente contrário aos seus ditames. Os rappers são os transgressores de hoje, mas quem manda não os quer por perto. Sua revolução é lenta.

Em meio a tudo isso, parece que é preciso modernizar-se a todo custo, sobrepor batidas eletrônicas às cordas, cuidar do figurino, ter uma conta no Myspace, gostar da Björk, ser antes de tudo “descolado”. Entretanto, basta assistir ao espetáculo conceitual mais importante dos últimos tempos no Brasil para pensar um pouco nessas “necessidades”: "Brasileirinho", da diva Maria Bethânia. Uma aula silenciosa sobre a essência quase perdida do país.

Não se está falando em nostalgias nacionalistas, longe disso. O que é importante é não deixar que o conceito de qualidade musical seja considerado um bem da elite. Hoje não se pode conversar sobre a qualidade da produção das chamadas periferias porque isso soa burguês, separatista, preconceituoso. Uma bobagem. Perde-se com isso a chance de, inclusive, levá-los a sério em suas especificidades. E aí a Rede Globo –que de muitas formas conserva o Brasil do jeito que está (ou já é hora de dizer: do jeito que é?)– surge como uma espécie de redentora dos pobres, com seus programas bem intencionados de antropologia musical.

As novas cantoras têm graça e talento para levar a cabo o desafio de devolver a MPB ao povo. Tomaram que tenham coragem.

Publicado em 27/1/2008

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Henry Burnett
É doutor em filosofia pela Unicamp e professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal de São Paulo.

 
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