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entrevista
LITERATURA

A luta de Animal
Por Izabela Moi

O anglo-indiano Indra Sinha, que concorreu ao Booker Prize, conta a tragédia de uma cidade contaminada por gases químicos em seu novo livro

Animal teve um dia um nome, mas ele nunca soube qual. Antes, andava sobre as duas pernas, como um ser humano qualquer. Mas, por volta dos seis anos de idade, uma dor na coluna o dobrou até ficar de quatro no chão. E ele nunca mais se levantou.

Animal é também o narrador e o personagem principal de um dos livros finalistas da edição 2007 de um dos mais importantes prêmios literários do Reino Unido, o Booker Prize. Embora não tenha vencido, “Animal’s People” (no Brasil, "A História de Animal", ed. Agir), do anglo-indiano Indra Sinha, 57, já teve seus direitos de tradução vendidos para editoras na França, Grécia, Holanda, Israel, Itália, Japão, Noruega, Polônia, República Tcheca e Romênia. O Booker Prize do ano passado foi dado à escritora irlandesa Anne Enright pelo romance "The Gathering".

Há seis anos atrás, Sinha estava à procura, segundo ele mesmo diz, de "uma história humana". Seu envolvimento de mais de uma década com a causa dos sobreviventes do vazamento de gás venenoso da fábrica da Union Carbide, em Bhopal (India), há quase 25 anos, acabou ajudando a montar as peças de seu quebra-cabeças.

“Animal´s People” não é um relato da tragédia. É a história de Animal e de sua luta, ao lado de tantos outros, por uma vida melhor para os habitantes de uma cidade contaminada por gases químicos depois de um acidente em uma fábrica. Sinha não usa nomes reais.

Na ficção, a cidade chama-se Khaufpur (que em urdu significa “cidade do medo”) e tem seu próprio site (veja link no final). Kampani é o nome da empresa contra a qual os habitantes da cidade lutam -não só por justiça pelo acidente, mas principalmente pela despoluição da área e de sua água. A voz narradora é sempre de Animal, que se tornará um dos líderes do movimento, mas que é também um marginal na camada já marginal dessa sociedade.

Sinha foi redator de publicidade premiado. Tornou-se ativista por acidente, como ele mesmo insiste em afirmar. A primeira vez foi num trabalho profissional para uma campanha da Anistia Internacional. Em 1993, um amigo bateu a sua porta. A associação dos sobreviventes de Bhopal precisava levantar fundos para construir uma clínica gratuita. Sinha escreveu o apelo e conseguiu um espaço para publicá-lo no jornal inglês “The Guardian”, em 1994. Foi dessa forma que a clínica Sambhavna surgiu.

O acidente real com vazamento de gás em Bhopal, capital de um Estado da região central da Índia, ocorreu entre os dias 2 e 3 de dezembro de 1984. A Union Carbide (comprada pela Dow Química em 2001) reconhece a morte imediata de 3.800 pessoas. A associação criada pelos sobreviventes, a Bhopal Medical Appeal and Sambhavna Trust, afirma que foram 20 mil as mortes diretas. Além disso, contabilizam em mais de 120 mil o número de vítimas da contaminação. Sinha está envolvido com a organização de um concerto, o Bhopal 25 Concert, para levantar fundos para a clínica. Além disso, um acordo com a Amazon inglesa faz com que todos os exemplares de “Animal´s People” que são comprados pelo seu site (veja ao final) doem 60 centavos de libra para o fundo Sambhavna. Não é muito, conforme Sinha admite, mas ele conta em vender muitos livros. “Arte é sempre política, porque está enraizada em um ponto de vista político do mundo, mesmo se a política ali está enterrada vários metros abaixo da superfície”, afirma o escritor. Sinha, que se mudou há um ano para o sul da França com a família, depois de 39 anos vividos na Inglaterra, dedicou “Animal’s People” a um de seus amigos de Bhopal, Sunil Kumar, foi vítima do acidente e depois se tornou um dos principais líderes entre os ativistas. Em julho de 2007, suicidou-se, usando uma camiseta com os dizeres: “No more Bhopals”.

“Eles, Animal e Sunil, não são a mesma pessoa, mas muito do humor e da coragem de Sunil impregnaram-se na personalidade de Animal. É uma pena que Sunil não tenha visto o livro publicado”, diz Sinha.

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Antes de ser um animal, seu personagem principal é humano, e quer contar a história à sua maneira. Por que você fez essa escolha? Fazer da tragédia de Bhopal uma ficção foi uma das maneiras que encontrou para chamar a atenção do mundo?

Indra Sinha: Eu não planejei escrever sobre Bhopal. Estou envolvido com a realidade dos sobreviventes há 14 anos, e há seis anos atrás tive a idéia deste livro. Eu procurava personagens com alma e uma história humana. Não estava interessado em fazer campanha e, por isso, mantenho a verdadeira tragédia apenas como pano de fundo.

Claro que, ao mesmo tempo, adoraria que o livro chamasse a atenção do mundo sobre o que ainda está acontecendo em Bhopal, mas antes eu tinha de fazer o livro funcionar como ficção, como literatura. Só quando os leitores se comovem e são envolvidos pelos personagens é que se interessarão em descobrir de onde toda a história veio.


Suas obras anteriores não tiveram tanto sucesso. Foram elas um treinamento para chegar em “Animal’s People”?

Sinha: Todo livro é um ensaio para o próximo, você aprende alguma coisa diferente a cada nova criação. Para mim, o mais difícil é decidir sobre a voz narrativa -quem vai contar a história. Quando eu a encontro, todo o resto fica mais fácil, e mais prazeiroso.


Por que você criou o site de Khaufpur?

Sinha: A idéia inicial era uma brincadeira, e mais uma forma de promover meu livro, um espaço a mais para a sátira e a ironia. Eu também queria estender meu relacionamento com a história, porque quando acabei o livro eu não conseguia me separar de seus personagens. Mas, com o tempo, o site tornou-se parte do livro, como sua extensão em um novo formato, ao mesmo tempo em que dava uma nova dimensão à história em si, uma nova “profundidade”, principalmente porque é um trabalho que não tem fim, que evolui sempre. Para mim, é a liberdade de experimentar a literatura.


Quando você aceitou dar esta entrevista, disse que a história de Animal poderia ter sido contada num ambiente como uma favela no Rio de Janeiro. As misérias do mundo são parecidas?

Sinha: Eu assisti há alguns dias o filme “Cidade de Deus” e fiquei todo o momento pensando em como Animal se adaptaria perfeitamente a esse ambiente hostil, onde crianças endurecem para poderem se proteger, porque não há ninguém por perto com quem possam contar. O senso de humor e a dor sempre estão próximos. Eu nunca fui ao Brasil, mas é um lugar que mexe com minha imaginação.


Você escreve sobre a Índia, mas mora há 40 anos fora do país. Como lida com isso?

Sinha: Culturalmente, sou tanto um escritor inglês quanto indiano. Conheço profundamente a literatura indiana, apesar de estar fora há tantos anos, e leio tanto poesia em sânscrito quanto os autores modernos. A Índia é um país que entra na sua corrente sanguínea e nunca vai embora, como a malária.

Eu volto sempre. Estive em Bhopal muitas vezes, e muitos dos meus amigos mais íntimos estão entre os sobreviventes (e atuais ativistas) da tragédia. Talvez a voz narrativa de Animal seja a voz de todos eles reunidos.


Você deixou a publicidade para se dedicar exclusivamente à literatura. O que mudou?

Sinha: Aposto que você leu uma declaração minha dizendo que troquei um tipo de ficção por outro. Na verdade, não há muita coisa em comum entre as duas criações. Na publicidade, você trabalha dentro de uma visão miniatural do mundo e com um objetivo específico. Num romance, sua visão de mundo se amplia para uma escala bem maior, onde é preciso imaginar ao mesmo tempo com profundidade e em detalhe –e o único objetivo é ser coerente em relação à vida dos personagens criados.


Você acha que os autores vindos do subcontinente indiano, como Salman Rushdie, Hanif Kureish e Arundhati Roy estão colonizando a cena literária inglesa?

Sinha: Não, essa cena já foi colonizada pelos próprios ingleses antes. Muito da produção literária indiana hoje tem suas raízes no pós-colonialismo, e muitos autores ingleses, como Kipling, Burton e sir John Woodruff, contribuíram para o florescimento da cultura indiana no Ocidente. As duas culturas estão amalgamadas, uma relação que não aconteceu por exemplo com a literatura americana.


Você pode nos falar um pouco sobre o próximo livro, uma história sobre o apóstolo João já envelhecido?

Sinha: Fui capturado por uma história que imaginei enquanto lia o Apocalipse de São João. E por que eu estava lendo esse livro? Tenho um primo que é pastor de uma igreja pentecostal e que um dia me disse que, apesar de sermos uma família de boas pessoas, iríamos todos para o inferno porque não éramos crentes.

Normalmente, com pessoas assim, eu simplesmente não discuto, mas volto o assunto para elas mesmas e pergunto porque acreditam em “x” ou “y”. E ele começou a me contar histórias do Evangelho. Eu resolvi ler por curiosidade, e enquanto lia, comecei a imaginar o que aconteceria se o apóstolo realmente tivesse escrito o livro. Isso foi antes de eu começar a escrever “Animal’s People”, em 2001. Agora, vou voltar à história que imaginei. Eu me mantive fiel a ela, vamos ver se ela também se manteve fiel a mim.


link-se

Khaufpur - http://www.khaufpur.com

Site de Indra Sinha - http://www.indrasinha.com


Publicado em 26/1/2008

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Izabela Moi
É jornalista e vive em Paris.

 
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