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ensaio
MODOS DE VIDA

Viver em casas de vidro
Por Paula Sibilia

"Big Brother", webcams e blogs abrem frestas na intimidade, complicando a velha separação público-privado

Já virou rotina: quando a TV Globo dá a conhecer os participantes de cada nova edição do "Big Brother Brasil", anuncia-se uma enxurrada de informações e imagens a respeito de tudo o que acontece “na casa” do reality-show -e, muito especialmente, acerca de tudo o que ali não acontece.

Mas não se trata de um caso isolado. “Aparecer me faz feliz, não o faço por dinheiro”, conta uma adolescente que publica suas fotos eróticas em um blog. “Ainda nem consigo acreditar que os rapazes falam de mim”, diz a garota emocionada, aludindo aos comentários que recebe de seus espectadores na Internet. “É como ter fãs!”, resume orgulhosa. “Passo o dia inteiro no computador do meu quarto”, explica outra menina de 13 anos. “Tenho 650 contatos no MSN, com os quais converso o dia inteiro, além disso, tenho três fotologs pessoais, onde publico minhas fotos e escrevo sobre minha vida.”

Essas ânsias de exibição em todas as telas dão conta de certo clima de época. “Muitos jovens não parecem ter instintos de proteção da privacidade”, justificou um especialista ao avaliar os lucros bilionários que o MySpace -um desses sites onde os adolescentes despejam boa parte de suas vidas- prevê abocanhar com seu envio de publicidade direcionada. Um novo sistema que visa a orientar os anúncios em função dos dados supostamente privados dos usuários, porém ostensivamente divulgados por eles próprios em seus blogs, perfis e conversas on-line.

É curioso, nestas épocas de condomínios fechados e pânico pela (in)segurança: estes jovens parecem “viver em casas de vidro, não por trás de cortinas de renda ou de veludo”, como constatava David Riesman em seu livro "A Multidão Solitária". Publicado originalmente em 1950, trata-se de um estudo sociológico sobre a “transformação do caráter” que teria ocorrido nesse momento histórico: um deslocamento dos eixos em torno dos quais cada sujeito edifica o que é. Um deslizamento de “dentro” de si (introdirigido) para “fora”, ou melhor: para tudo aquilo que os outros podem enxergar (alterdirigido).

Essa segunda modalidade de auto-estilização já não se assenta na densa base da própria “vida interior”, como costumava ocorrer nas sociedades ocidentais ao longo do século XIX e nos inícios do XX. Em vez disso, o novo tipo de personalidade investe todas suas munições nas aparências: aposta todas suas fichas nos efeitos que o próprio aspecto físico pode provocar nos outros.

O modo de vida e os valores privilegiados pelo capitalismo em auge teriam sido primordiais nessa transição, propiciando as habilidades de autopromoção em cada indivíduo e suscitando um verdadeiro “mercado de personalidades”, no qual a imagem pessoal é o principal valor de troca.

Riesman explica que “os americanos sempre procuraram uma opinião favorável, e sempre tiveram que procurá-la em um mercado instável, onde as cotações do eu poderiam cambiar, sem a restrição de preços de um sistema de castas ou de uma aristocracia”.

No entanto, apesar dessa tradição já cimentada pelo percurso nacional tão característico do "american way of life", foi somente em meados do século XX que ocorreu esta genuína “redefinição do eu”. O novo rebento é, acima de tudo, uma subjetividade que “deseja ser amada”, que busca desesperadamente a aprovação alheia, e para tanto procura tecer contatos e relações íntimas com os outros.

Não é casual que, 60 anos depois da enunciação daquela tese pelo sociólogo norte-americano, mais da metade dos adolescentes daquele país possuam blogs, fotologs e outras ferramentas para a exposição de si na internet, sem nenhuma inquietude com relação à defesa da própria privacidade -e nem a de seus amigos, inimigos, parentes e colegas que também costumam habitar suas confissões audiovisuais.

Em um aparente retorno aos modos de vida nas zonas rurais e pequenos vilarejos prévios à urbanização do Ocidente, nesta “aldeia global” do século XXI é impossível preservar os segredos. Aqui, porém, o anonimato pode ser útil, mas a discrição não constitui um dos valores mais prezados. Ao contrário, até: nas vitrines virtuais do ciberespaço, a mera possibilidade de passar despercebido é o pior dos pesadelos.

Pois, independentemente da quantidade de espectadores que de fato consigam recrutar, os adeptos dos coruscantes recursos da Web 2.0 costumam pensar que seu presunçoso eu tem o direito de possuir uma audiência. E a ela se dirigem todos os dias com seus relatos, fotos e vídeos de tom intimista e cotidiano, onde o protagonista exclusivo é sempre o mesmo: eu. Faz sentido, pois no império das subjetividades alterdirigidas, tudo o que se é deve ser visto para poder realmente ser, e cada um é aquilo que mostra de si.

Ecoam, aqui, alguns ecos longínquos que vale a pena trazer à tona. Há muito tempo, no outono de 1928, Virginia Woolf foi convidada para ministrar uma série de conferências sobre “a mulher e o romance” em duas instituições universitárias "for ladies" -pois as outras, as boas, na época ainda eram restritas aos "gentlemen". A escritora aproveitou a ocasião para tentar responder, longa e belamente, a uma pergunta: por que as mulheres não tinham escrito, até então e salvo pouquíssimas exceções, bons romances?

Eis uma síntese da resposta: porque não tinham um quarto próprio. Faltava-lhes um espaço privado, uma habitação exclusiva para elas, onde teriam podido ficar a sós. Por isso, pelo menos até então, tudo tinha sido infinitamente mais complicado para as mulheres. “Em primeiro lugar” porque, para elas, “até os inícios do século XIX, ter um quarto próprio, para não falar de um ambiente realmente tranqüilo e sem barulho, era inconcebível”.

A resposta é justíssima, embora o diagnóstico não deixe de ser correto também para a maioria dos homens, pelo menos até algum tempo antes da data assinalada pela romancista inglesa. “No século XVI era raro que alguém tivesse um quarto só para ele”, explica Witold Rybczynski, em seu livro sobre a história da casa.

Seria necessário aguardar mais de cem anos ainda, até bem avançado o século XVII e iniciado o XVIII, para que começassem a aparecer “os ambientes nos quais era possível se retirar da visão do público”. Mas a noção de que tais quartos deviam ser confortáveis e silenciosos só apareceria no século XVIII; pelo menos, para os homens mais afortunados.

De todo modo, a defasagem aludida por Virginia Woolf implicou uma enorme desvantagem para as damas, pois o âmbito privado logo se impôs como um requisito fundamental para que o eu do morador pudesse “ficar à vontade”. Sozinha e a sós consigo mesma, a subjetividade moderna podia se expandir sem reservas e se auto-afirmar em sua individualidade.

Naqueles tempos em que a escritora britânica erguia sua voz, tão inflamada como majestosa, esse espaço da privacidade já tinha assumido um papel primordial. Era necessário dispor de um recinto próprio, separado do mundo público e da intromissão de outrem por sólidos muros e portas fechadas, não apenas para poder se tornar uma boa escritora, mas também para poder ser alguém: para se tornar um sujeito, para ter condições de produzir a própria subjetividade, um “modo de ser” obviamente introdirigido.

Além de constituir um requisito básico para o desenvolvimento do eu, o ambiente privado também era o cenário onde transcorria a intimidade. E era nesses espaços onde se engendravam, em pleno auge da cultura burguesa, os relatos de si: as cartas e os diários tradicionais, todas essas “escritas intimas” que proliferaram no século XIX e que deram vazão ao furor de “deciframento de si” que tomou conta de homens, mulheres e crianças da época.

Para escrever esses textos confessionais, o autor devia estar a sós. Demandavam, também, uma distância espacial e temporal com relação ao destinatário das cartas e aos eventuais leitores dos diários. Estes últimos, aliás, só tinham acesso aos textos após a morte do autor, caso este fosse alguém excepcional, capaz de despertar o interesse póstumo dos possíveis leitores.

As atuais versões cibernéticas dessas escritas de si, por sua vez, também costumam ser práticas solitárias, embora seu estatuto seja bem mais ambíguo, porque se instalam no limiar da publicidade total. A tela de nossos computadores não é tão sólida e opaca como os muros dos antigos quartos próprios. Além disso, a distância espacial e temporal com relação aos leitores tem encolhido sensivelmente: agora tudo acontece na vertigem do tempo real.

Para compreender essas mutações, é preciso considerara que a separação público-privado é uma invenção histórica e datada, uma convenção que em outras culturas não existe e, entre nós, é bastante recente. A esfera da privacidade só ganhou consistência na Europa dos séculos XVIII e XIX, ecoando o desenvolvimento das sociedades industriais modernas e do modo de vida urbano.

Foi precisamente nessa época que um espaço de “refúgio” para o indivíduo começou a se construir entre quatro paredes, no seio do mundo burguês, fornecendo a estes novos sujeitos aquilo que tanto almejavam: um território a salvo das exigências e perigos do clima público das ruas.

Todo esse aconchego estava ausente das habitações medievais, com suas moradias nas quais todos compartilhavam quase tudo. Entre os estímulos para fundar essa cisão público-privado, e para a gradativa expansão deste última esfera em demérito da primeira, figuram vários fatores: a instituição da família nuclear burguesa, a separação entre o espaço-tempo do trabalho e o da vida cotidiana, além dos novos ideais de conforto, domesticidade e intimidade. É significativo que hoje tudo isso esteja em crise -e, provavelmente, também em mutação- como insinuam tanto a casa do "Big Brother" como os espaços virtuais onde os jovens adoram mergulhar.

Naqueles tempos remotos, porém, foi um desses fatores -a paulatina aparição de um “mundo interno” do indivíduo- o detonante para que o lar se tornasse um sitio adequado ao acolhimento dessa vida interior, que já brotava com todo o vigor e que logo iria florescer. Assim, as casas foram se tornando lugares privados, e se definiram funções específicas e fixas para os diversos cômodos, aparecendo inclusive “um quarto mais íntimo para atividades privadas como a escrita”. Sobretudo, é claro, para a escrita de cartas e diários.

De preferência, esse aposento gloriosamente individual estaria situado no coração de uma confortável casa burguesa, mas seu caráter não mudaria se fosse um pequeno quarto alugado em uma pensão qualquer. Como frisara Virginia Woolf, o importante era que se tratasse de “um alojamento independente, por miserável que ele for”. Pois somente nesse cubículo fechado e isolado do mundo, seu morador poderia ficar à vontade, a salvo não apenas do barulho das ruas e “das cobranças e tiranias de suas famílias”, podendo então se concentrar em sua obra -caso se tratasse de um escritor ou uma escritora- e em seu eu finamente introdirigido.

Assim, em contraposição ao protocolo hostil da vida pública, o lar foi se transformando no território da autenticidade e da verdade: um refúgio onde o eu se sentia resguardado, um abrigo onde era permitido ser si mesmo.

A solidão, que na Idade Média tinha sido um estado raro e não necessariamente apetecível, converteu-se em um verdadeiro objeto de desejo. Pois apenas entre essas paredes “próprias” era possível desdobrar um conjunto de prazeres até então inéditos e agora vitais, ao resguardo dos olhares intrusos e sob o império austero do decoro burguês. Somente ali era possível desfrutar do deleite (e do labor) de estar consigo mesmo.

Foi assim como se configuraram, no despontar da Modernidade, dois âmbitos claramente delimitados: o espaço público e o privado, cada um com suas funções, regras e rituais que deviam ser prudentemente respeitados. E foi também assim como germinou um tipo de subjetividade particular, dotada de um atributo muito especial: “interioridade psicológica”. Nesse cerne vagamente localizado dentro de si, fermentavam pensamentos e sentimentos privados. Esse repertório afetivo merecia todos os cuidados: devia ser cultivado, sondado e enriquecido constantemente.

É por isso que alguns autores se referem a essa criatura como Homo psychologicus. Um tipo de sujeito que, como afirma Benilton Bezerra Jr., “aprendeu a organizar sua experiência em torno de um eixo situado no centro de sua vida interior”. Eis o caráter introdirigido, cuja mutação analisara David Riesman: um tipo de subjetividade voltada para dentro de si, que portanto deve se abrigar “por trás de cortinas de renda ou de veludo”, longe da indiscrição das janelas de vidro e das câmeras de TV, ou mesmo das mais modestas webcams.

1 - RIESMAN, David. "A Multidão Solitária". São Paulo: Ed. Perspectiva, 1995; p. 34.


2 - WOOLF, Virginia. "Un Cuarto Propio y Otros Ensayos". Buenos Aires: A-Z Editora, 1993; p.72.


3 - RYBCZYNSKI, Witold. "La Casa: Historia de una Idea". Buenos Aires: Emece, 1991; p. 29.


4 - CORBIN, Alain; PERROT, Michelle. “El Secreto del Individuo”. In: ARIÈS, Philippe; DUBY, Georges. "Historia de la Vida Privada", v. 8. Madri: Taurus, 1991. p. 161-162.


5 - RYBCZYNSKI, op. cit.; p. 53.


6 - BEZERRA, Benilton. “O Ocaso da Interioridade e suas Repercussões Sobre a Clínica”. In: PLASTINO (org.). "Transgressões". Rio: Contra Capa, 2002; p. 229-239.

 
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