1
em obras
MUSEU

Das fronteiras do eu às fronteiras da arte
Por Fabiana de Moraes


"Athanor", obra de Anselm Kiefer, de 2007 (emulsão, schellac, óleo, giz, chumbo, prata e ouro sobre tela de linho)
DR/Divulgação

Anselm Kiefer é tema de evento no Louvre, que acaba de incluir três obras do artista alemão ao seu acervo

“O que é maravilhoso com o termo ‘ fronteiras’ é que ele mesmo se anula, como um anarquista num trono. (Anselm Kiefer)


O mundo contemporâneo é atravessado por mais de 200 mil km de fronteiras terrestres. Ainda que alguns continentes, como a Europa, estejam pregando políticas de desvalorização dessas barreiras, que as “organizações sem fronteiras” sejam cada vez mais numerosas e que a globalização convoque a se apagar os obstáculos para a circulação dos homens, dos produtos e das imagens, nunca se falou tanto nas questões de fronteiras.

Desde o final dos anos 80, boa parte dos discursos proferidos por diversos atores da sociedade ocidental mencionam um “mundo sem fronteiras”, possível graças às novas tecnologias da informação e da comunicação, de uma politica comercial que obedece às linhas de orientação da globalização.

Ao mesmo tempo, e paradoxalmente, em regiões fronteiriças como Ceuta e Melilla (em relação à Europa), EUA e México, as antigas Coréias do Norte e do Sul, assim como no muro que tenta reduzir os confrontos entre Israel e a Palestina, a violência é o modo de relacionamento entre as duas partes envolvidas; o conflito e a impossibilidade de conciliação entre territórios torna-se cada vez mais evidente e longe de encontrar solução.

No campo do pensamento contemporâneo, autores como Jacques Derrida e Jean-Luc Nancy comentam exaustivamente, ao longo da década de 90, conceitos como o “ser estrangeiro”, do “ser-em-comum”, a comunidade, a hospitalidade, a alteridade, marcados e delimitados por linhas geopolíticas e culturais, pelos conflitos religiosos, pelo embate identitário.

Na França, em 2006, pelo menos duas importantes exposições foram realizadas e tiveram por tema as fronteiras. No mesmo ano, e curiosamente, o tema da Bienal Internacional de Arte de São Paulo intitulou-se “Como viver junto”, título que remete a um curso ministrado por Roland Barthes no Collège de France, em 1977.

A proposta de Barthes enquanto conceito-chave do grande evento de arte contemporânea nos faz constatar que, hoje, a discussão sobre o conceito de fronteira -e seus possíveis desdobramentos- habita e perpassa diversos discursos produzidos pela sociedade contemporânea e chega ao campo das artes, onde se transmuta em material, em fio condutor para investigações e propostas as mais fecundas. De que modo pensar o estar-no-mundo, hoje? De que modo a arte pensa o estar-no-mundo? Que facetas pode assumir o conceito de fronteira quando examinado pela arte de hoje?


As fronteiras de Anselm Kiefer no Louvre

Um evento interdisciplinar, tendo por tema central o conceito de “fronteiras” e sob a ótica do artista alemão Anselm Kiefer, acontece no Louvre, em Paris, até o mês de dezembro. O ponto de partida do evento foi a inauguração de uma obra monumental de Kiefer, “Athanor”, que, acompanhada de duas esculturas, “Danaé” e “Hortus Conclusus”, passam a integrar a arquitetura do museu de forma perene.

A organização do evento concedeu a Kiefer a curadoria que reúne diversos nomes ligados às artes e ao pensamento contemporâneos num diversificado programa de debates. O bailarino e coreógrafo americano Bill T. Jones, concebeu um solo excepcional para um dos espaços mais espetaculares do museu : a escadaria que conduz à imponente “Vitória de Samotrácia” e aos “Escravos”, esta de Michelangelo.

Uma noite de leituras de poemas de Fernando Pessoa, induz à reflexão sobre as múltiplas “fronteiras” presentes na poética do escritor : do bilingüismo -Pessoa escreveu em português e em inglês- aos heterônimos, “fronteiras do ser”. Além dessas manifestações, concertos, conferências, projeções de filmes e uma exposição de desenhos antigos selecionados por Kiefer no acervo do Louvre integram o programa.


Uma poética das fronteiras

O tema da fronteira sempre ocupou um lugar fundamental para a poética de Kiefer, que explora em suas pinturas e instalações elementos que pertencem à memória coletiva, à história e à ressurgência do mito, o simbolismo.

Anselm Kiefer nasce em 1945, no sul de uma Alemanha impregnada pelo horror da guerra e do nazismo. Ele cresce às margens do Reno, “um rio fronteiriço”, uma “fronteira líquida”, segundo ele, cujas enchentes tornam ainda mais evidente o caráter efêmero, indefinível e ilusório dessa delimitação.

O percurso de Kiefer inicia-se a partir de uma interrogação fundamental : “como, após o Holocausto, ser um artista sue se inscreve na tradição alemã?”. Entre o horror do extermínio e a riqueza incalculável de uma cultura, Kiefer traça um projeto que se alimenta da memória, mas que, talvez pela necessidade de “vivenciar” a realidade poética, busca elementos e materiais nos mitos, na mística da Cabala, no caráter fantástico das teorias sobre o cosmos. Esse homem, que durante muito tempo viveu indeciso entre ser escritor ou pintor, é habitado pela poesia : “A realidade só existe na poesia”. Como se à sua arte precedesse o texto poético: Hölderlin, Paul Celan, Ingeborg Bachmann, Baudelaire, Fernando Pessoa. Trata-se do texto que também é concebido como elemento, como material, aparecendo fragmentado em seus trabalhos.

Em 1993, Kiefer muda-se para o sul da França, Barjac, onde instala seu imenso ateliê numa indústria desativada. Ali, o artista constrói o lugar ideal para a realização de suas obras, suportes de um universo único, em que se encontram muitas vezes reunidos elementos diversos, como pintura, terra, chumbo, palha, ouro, prata etc. Um espaço que é ocupado por acumulações de camadas de matéria, rugosidades, texturas diversas, de modo a fazer alusão à própria acumulação geológica do mundo ou à acumulação dos fatos pela própria sistematização histórica.

Por vezes, encontramos palavras que se inscrevem nessas paisagens únicas de Kiefer. Palavras de origem poética, retidas de um poema de Paul Celan, ou mesmo palavras “a decifrar”, oriundas da alquimia, da mística. Assim, trabalho de Kiefer sugere uma proposta que vai além da arte, de suas próprias fronteiras, para buscar em outros registros discursivos questões que tangem a existência, as questões humanas no mundo contemporâneo.

Consciente da importância da obra de Kiefer para um debate que vai além da arte, que perpassa as fronteiras da estética para transitar nas esferas da ética, da política e da filosofia, o Louvre encomendou ao artista uma obra sob medida para uma de suas alas. Esta obra, de caráter “perene”, que integrará o acervo da instituição, sua arquitetura, sua história.

Na verdade, ainda no século XIX, o Louvre fez um convite a Eugène Delacroix para que este realizasse “Apollon Vainqueur du Serpent”,, pintura que ocupa o teto da galeria Apollon. No século XX, Georges Braque realiza seus “Oiseaux” para a sala Henri II do palácio. No século XXI, a política de integrar obras de artistas vivos ao museu parece assumir nova dinâmica -além de Kiefer, encomendas foram passadas a Cy Twombly e a François Morellet, que devem inaugurar seus trabalhos em 2009.

“Athanor” é o termo da alquimia que designa o forno onde se fabrica a pedra filosofal. A obra monumental de Kiefer representa uma espécie de rito funerário sob uma chuva de constelações, dois temas bastante recorrentes na obra do artista. No primeiro plano, um homem nu esta deitado, num estado que sugere a morte ou o sono. Da região de seu umbigo, uma linha vertical branca é expelida, sobe em direçao aos céus, como se o corpo estendido se esvaziasse de seu conteúdo espiritual.

Esse conteúdo se eleva até atingir um céu escuro, composto de milhares de constelações de estrelas. O solo sobre o qual repousa o homem é argiloso, enrugado, craquelado sob o efeito do chumbo, da prata e dos outros diversos materiais que compõem a multiplicidade de texturas. Na metade direita da obra, o artista escreveu as palavras “nigredo”, “albedo”, “rubed”, que correspondem respectivamente aos nomes das três cores da alquimia -preto, branco e vermelho- e, por conseqüência, ao chumbo, à prata e ao ouro.

Acompanhando "Athanor", Kiefer realizou duas esculturas -situadas em dois nichos da escadaria da ala Sully do Louvre e posicionadas de frente uma para outra-, que igualmente evocam as noções de mutação, transição, passagem, e mesmo mudança de estado. "Danae" pertence à mitologia grega e designa uma princesa que fora fecundada por Zeus, uma vez que este se encontrava transmutado em chuva de ouro, dando origem a Perseu.

A segunda escultura, "Hortus Conclusus", faz referência ao termo medieval que designava ao mesmo tempo a virgindade de Maria e o Paraíso. "As obras se encontram na passagem entre as salas da Suméria e as do Egito. Ora, toda arte egípcia fala de renascimento e de ressurreição”, explicou Kiefer na conferência de inauguração.


Das fronteiras do Eu às fronteiras do mundo

“Fronteiras” coloca mais uma vez no cerne do debate o papel ocupado hoje pelas artes, quando estas se encontram entrelaçadas com questões de toda ordem: cultural, estética, política, social, histórica, humana, individual.

Na conferência inaugural do evento, Kiefer leu, em francês, um discurso de ampla força poética e política, um texto estético, mas essencialmente humano, por vezes íntimo, generoso. Diante do auditório repleto, o artista, que foi aluno de Joseph Beuys, se autodefiniu como “um homem que sofreu metamorfoses ao longo de uma vida composta por diversas fronteiras”. Leitor e admirador incondicional da poesia de Fernando Pessoa, Kiefer se referiu inicialmente às fronteiras de um Eu delimitado tanto subjetivamente como em relação ao mundo: “Eu sou às vezes eu mesmo e durante o resto do tempo outra pessoa”.

O debate lançado por Kiefer na conferência inaugural do evento (em 5/11) parte do termo “fronteiras” e deixa explícita a necessidade de se pensar o teor paradoxalmente instável e “solúvel” de delimitações que nos são impostas por discursos fundadores da cultura ocidental, tais que as narrativas míticas, religiosas, místicas e mesmo científicas.

Ao confrontar a aparente rigidez de tais discursos com a “fluidez” característica da relação das artes entre si em seu sistema estético, Kiefer apresenta os riscos de se representar a partir de dogmatismos ou leis únicas, engajando um círculo vicioso de limitações à própria liberdade individual.

Assim, seu discurso sugere a relativização, a desconstrução, a “deslegitimação” da aparente invulnerabilidade de tais narrativas. A partir daí, se pode afirmar, como o faz Kiefer, que a realidade só é possível na poesia e que “toda fronteira é ilusão, traçada para nos assegurar”.


Publicado em 10/12/2007

.

Fabiana de Moraes
É jornalista, produtora e professora de estética e história da arte. Atualmente, vive em Paris, onde realiza uma tese sobre a arte contemporânea.



1 - Michel Foucher, por ocasião da exposição “Frontières”, Museu de Lyon, entre outubro de 2006 e fevereiro de 2007.

 
1