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política
ELEIÇÕES

A pragmática e o idealista
Por Humberto Pereira da Silva

Livros de Hillary Clinton e Barack Obama, ambos democratas, mostram visões opostas da vida americana

No começo do ano que vem os partidos Democrata e Republicano indicarão seus respectivos candidatos à eleição presidencial americana que se realizará em novembro de 2008. Por isso, o momento atual é marcado por ampla movimentação da imprensa em torno dos nomes mais prováveis, avaliações de possibilidades em função de pesquisas entre os partidários, arrecadação de fundos para as campanhas etc. Em ambos os partidos, algumas pré-candidaturas despontam para as primárias.

No Republicano, destacam-se Rudy Giuliani (ex-prefeito de Nova York), Fred Thompson, Mitt Romney e John McCain; já no Democrata, Hillary Clinton, Barack Obama e John Edwards são os principais nomes que reivindicam a indicação para a corrida presidencial (com a conquista do Nobel da Paz, o ex-vice-presidente Al Gore, apesar das negativas, não é carta completamente fora do jogo).

Desde a eleição de 1968, quando o virtual candidato democrata Lyndon Johnson não concorreu à reeleição e seu eventual sucessor, Robert Kennedy, foi assassinado, não se tem um quadro tão indefinido: a seguir as tendências dos últimos 40 anos, Dick Cheney, vice de George W. Bush, seria o candidato natural pelos republicanos. Inegável, portanto, que o espaço está aberto para os diversos nomes que lançaram pré-candidatura.

O que se pode afirmar, no entanto, é que entre os pretendentes republicanos Rudy Giuliani é o que está mais em evidência; no Partido Democrata, por sua vez, Hillary Clinton e Barack Obama estão na frente nas diversas pesquisas realizadas entre os partidários. Até a eleição do ano que vem muita água vai rolar, mas o quadro atual, em função da rejeição a Bush -o que leva os pretendentes republicanos a uma posição defensiva e de tímido afastamento de sua política-, mostra os republicanos em posição difícil.

Na possibilidade de uma “virada” democrata, com Hillary e Obama temos uma situação singular na política americana: pela primeira vez os Estados Unidos teriam uma mulher na presidência ou um mestiço (Obama, nascido no Havaí, é filho de um queniano negro e de uma americana branca).

A eventualidade da “virada” democrata deve-se à popularidade nixoniana dos tempos de Watergate ostentada por Bush, como conseqüência, principalmente, de sua posição em relação à permanência das tropas americanas no Iraque (recordo, bem entendido, que o cenário eleitoral americano é movediço: nas duas oportunidades em que foi eleito, Bush virou um quadro que lhe era desfavorável -em 2000 diante de Al Gore, em 2004 contra John Kerry).


Arena política

Hillary e Obama, no entanto, catalisam os principais acontecimentos nesse momento que antecede as primárias do Partido Democrata. A se notar de início que Hillary tem imagem estabelecida, com espaço no mundo político que remonta aos anos 70, quando Bill Clinton foi eleito governador pelo Estado de Arkansas, e, por conseguinte, forte staff obtido nos anos em que foi a primeira-dama (Hillary é a primeira-dama que mais se envolveu na política americana desde Eleanor Roosevelt, nos anos 40: Jacqueline Kennedy simbolizou principalmente charme e elegância). Como conseqüência da imagem que firmou nos anos Clinton, ela conquistou uma cadeira no Senado americano pelo Estado de Nova York, na eleição de 2000.

Barack Obama, por sua vez, pode ser caracterizado como jovem temporão na política: tem 45 anos, mas só recentemente se lançou na arena política. Apenas em 2006 foi eleito para o Senado pelo estado de Illinois (na eleição de 2000 tentou sem sucesso uma cadeira no Senado). Até 1996, Obama era um advogado de direitos humanos, formado em Harvard, e líder comunitário; foi nesse ano que conquistou uma cadeira na Assembléia Legislativa de Illinois.

Um dado que os separa inegavelmente é a cancha política de Hillary. Dado que pode se constituir num ponto positivo para Obama: simbolicamente ele representaria o efetivamente novo, para que se possa falar numa efetiva “virada” democrata. Obama não teve de se manifestar oficialmente a respeito da invasão do Iraque em 2002. Guardou, na conveniente independência de cidadão, posição contrária à invasão.

Hoje se prevalece de ter se manifestado contra, desde o início, com o argumento de que já se sabia, após os atentados de 11 de Setembro, que a invasão seria um erro, pois envolvia uma ocupação por tempo, custo e conseqüências indeterminados. Enquanto Hillary tem tido de prestar contas das razões porque votou pela invasão do Iraque (ela sustenta que não se sabia dos erros cometidos pelos serviços de inteligência). Mas, vale frisar, é mero casuísmo ponderar –para a eleição que se avizinha- sobre os rumos que a invasão do Iraque tomou de 2002 para cá, rumos que servem de munição para os democratas: o republicano Richard Nixon venceu a eleição de 1968, foi reeleito em 1972, apesar da Guerra do Vietnã, iniciada, justamente, com o democrata Lyndon Johnson.


Dois livros, dois candidatos

Visto que Hillary e Obama são os dois candidatos democratas com maior potencial para a corrida presidencial, para maior conhecimento e esclarecimento de suas posições convém a leitura de dois livros em que ambos se expressam: “Vivendo a História”, dela (Editora Globo, 615 págs.), e “A Audácia da Esperança”, dele (Larousse do Brasil, 399 págs.).

Duas observações iniciais. “Vivendo a História” tem uma feição descritiva, é mais afeito aos caminhos da trajetória de Hillary desde os anos de formação até sua eleição para o Senado. “A Audácia da Esperança” é pouco descritivo e tem como foco a discussão sobre a natureza dos valores e da política americanos, ao se centrar em três momentos da história dos Estados Unidos: a Independência, a Guerra de Secessão e a grande Depressão dos anos 30.

Uma outra observação é que “A Audácia da Esperança” é de 2006, enquanto “Vivendo a História”, de 2003. No livro, Obama frequentemente se refere à sua experiência à frente do Senado, sobre a política americana nos dias atuais, portanto; no livro de Hillary, sua trajetória à frente do Senado, momento em que ela efetivamente ingressa na seara política, não é contada.

Se guardarmos a mudança de posição dela em relação à invasão do Iraque, pode-se conjecturar que o livro de Obama expressa com mais fidelidade seu pensamento: os humores do tempo -caprichosos e traiçoeiros no jogo político- não se fazem sentir ainda em Obama para que se possa registrar alteração em suas posições.


Espírito calculista

Nos dois livros vale destacar alguns pontos importantes para a compreensão do perfil de ambos. Hillary nasceu em uma família conservadora afinada aos republicanos (em 1964, fez campanha pelo candidato à Presidência Barry Goldwater) e teve formação religiosa na Igreja Metodista.

Após o assassinato de Martin Luther King e, principalmente, sua entrada no curso de direito em Yale, no início dos anos 70, ela mudou suas convicções, com apoio do então namorado Bill Clinton, e ingressou no Partido Democrata. É nesse período que, ao mesmo tempo em que se envolve com questões de direitos da mulher, de bem-estar das crianças, de saneamento, educação e saúde, passa a manter um relacionamento apenas protocolar com questões de religião. Em suas palavras, os princípios da formação metodista que teve conduzem sua vida, mas não interferem em sua visão política.

O que se pode dizer das páginas de “Vivendo a História” é que Hillary se revela principalmente um espírito calculista e pragmático -o que se manifesta na manutenção do casamento com Bill Clinton, em seguida ao episódio Monica Lewinsky.

A se considerar a autonomia que granjeou (abriu mão da influencia familiar, formou um círculo próprio de influência no campo profissional, forjou a imagem de uma mulher com independência econômica e de convenções sociais) e a humilhação pública a que se expôs, para alguém com o perfil dela, fica a forte suspeita de que um jogo de cálculo a levou a ponderar que ao ficar no mesmo barco de Bill Clinton, caso ele não fosse afastado da Presidência, ela sairia fortalecida.

Lutou então até o fim, e como Bill Clinton se manteve na Presidência ela colheu os frutos da vitória: manteve o emblema Clinton (a própria Hillary lembra que foram as conveniências da condição de primeira-dama de Arkansas que a fizeram adotar o sobrenome Clinton: antes ela assinava Hillary Rodham) e pode se lançar com força para a conquista de uma cadeira no Senado.


Relações internacionais

Se “Vivendo a História” revela uma Hillary calculista, o mesmo não se pode afirmar de “A Audácia da Esperança”. O que temos é o perfil de um homem preocupado em refletir sobre os valores americanos, sobre a importância da maneira como a Constituição foi concebida pelos fundadores da nação.

Obama abre grande espaço para falar das idéias de Jefferson, Adams, Hamilton e Madison, de debates sobre a forma republicana, onde os cidadãos não comungam a mesma cultura e fé religiosa, de debates sobre se Segunda Emenda proíbe toda a regulamentação relativa a armas. Fala, com isso, sobre o pressuposto dos fundadores de que os Estados Unidos são uma terra de oportunidades, sobre fé (apesar de pertencer à pentecostal Igreja Unida de Cristo, Obama não faz referência ao seu cotidiano religioso, mas realça a importância da fé cristã em sua vida e na formação do povo americano), sobre raça e família.

Sua visão, contudo, não é tanto no passado, mas sim em como a compreensão do passado é importante para se considerar o espírito americano como terra de oportunidades, terra em que um mestiço seja eleito para o Senado e possa concorrer à Presidência.

Da maneira como ambos se expressam, segue-se que Obama é mais preocupado em resgatar os ideais de formação do povo americano. Trata-se nesse sentido de uma visão mais utópica e romântica que a de Hillary. Em função dessa divergência de focos, pode-se notar diferenças entre ambos, no que se refere às idéia que têm sobre os Estados Unidos e suas relações internacionais.

Hillary vê os Estados Unidos como espaço de embate para discussão de interesses conflitantes. O que se vê nos relatos de “Vivendo a História” é explicitamente uma preocupação maior com arregimento de forças, de lobbies que possam valer suas posições, numa sociedade aberta e com diferentes visões sobre como a vida pública deve ser conduzida.

É assim que ela se manifestou, quando, pouco depois de formada em Yale, participou da equipe assessora do comitê judiciário da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos da América quanto à questão do impeachment presidencial no caso Watergate; é assim, igualmente, que se manifestou no debate sobre o malgrado Projeto de Reforma do Sistema de Saúde (o Hillarycare, para seus opositores), nos anos finais do primeiro mandado de Bill Clinton. Aliás, esse debate se mantém na atual corrida à Casa Branca: Hillary, em oposição aos republicanos, defende a universalização dos programas de financiamento de saúde, para além do Medicare e Medicaid, voltados apenas para maiores de 65 anos e famílias de baixa renda.

Porque entende os Estados Unidos como espaço de interesses conflitantes, Hillary se manifestou em muitas ocasiões sobre direitos das mulheres, participou de inúmeras conferências relacionadas à saúde infantil, introduziu programa para crianças em pré-escola. Mas não se pode dizer que suas idéias sobre os Estados Unidos são fixas, elas dependem muito do conjunto de forças que estão envolvidos (ela praticamente não se manifesta sobre a maneira como vê a educação nos Estados Unidos, quando se observa os valores que se deseja formar), de interesses pessoais que estão em jogo.


Contrastes da América

Nos anos iniciais da presidência Clinton, Hillary esteve envolvida no caso Whitewater, sobre transações imobiliárias suspeitas de que teria participado à época em fora primeira-dama em Arkansas. Sua defesa para o envolvimento no caso Whitewater exibe um tanto de ingenuidade, ou despeito, na maneira de separar o público do privado.

Hillary, de fato, não revela explicitamente que tenha uma idéia de fundo sobre os Estados Unidos. Quando do atentado em Oklahoma City, em 1995, sua posição ressoa o modo como entende os contrastes da “América”. Para ela, McVeigh e sua espécie representam os elementos mais alienados e violentos da extrema direita, cujas ações enojam cada cidadão americano sensível, mas o atentado em Oklahoma City parece esvaziar o movimento de milícias e marginalizar os piores insufladores do ódio.

 
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