1
audiovisual
CINEFILIA

Diário da Mostra de Cinema
Por Fernando Masini


A estilista Ma Ke no filme "Inútil", de Jia Zhang-ke
Reprodução

Jia Zhang-ke visita São Paulo, a tensão na Turquia segundo Carla Garapedian e uma entrevista com o italiano Stefano Odoardi

JIA ZHANG-KE ENCANTA SÃO PAULO

O cineasta chinês Jia Zhang-Ke, 37 anos, aportou na capital paulista nos últimos dias da Mostra para uma passagem relâmpago. Explicou que teve de interromper a produção de seu próximo filme para fazer a viagem; havia se comprometido a isso. Fez um passeio rápido pela metrópole a convite de uma jornalista e disse que São Paulo “daria muitas histórias”.

Ficou impressionado com o número incontável de prédios e com a heterogeneidade da arquitetura da cidade. Conversou rapidamente com uma imigrante chinesa no bairro da Liberdade e terminou o passeio no alto do edifício Itália. Lá de cima contou que teve vontade de voar por entre os prédios, entrar nas janelas dos apartamentos e conhecer a história de cada pessoa. “Isso tudo parece muito a minha vida”, falou sobre a experiência de estar aqui.

Dividindo uma mesa com o diretor brasileiro Walter Salles, em encontro promovido pela Mostra, o cineasta chinês, de filmes premiados como “O Mundo”, “Plataforma” e “Inútil” (seu último documentário), atendeu ao anseio da sala lotada e encantou a platéia falando sobre diversos temas. Walter Salles confessou sua estima pelo chinês, dizendo que considera Zhang-Ke “o cineasta que mais lhe toca e emociona em todo o mundo”. Confira a seguir trechos dessa conversa.


Influências cinematográficas

Dois mestres europeus foram indicados por Zhang-Ke como influências diretas no seu trabalho. Primeiro a experiência em relação ao tempo no cinema praticada pelo diretor francês Robert Bresson, de “Pickpocket” e “O Dinheiro”. Aprendeu com ele como estender os silêncios e suprimir os maneirismos típicos do ator. Para tanto, Zhang-Ke disse que prefere trabalhar com atores não profissionais, e explica que os atores profissionais “deixam no corpo uma marca”, o que torna mais difícil a busca pela naturalidade.

Já a noção de espaço no cinema adquiriu com os ensinamentos do italiano Michelangelo Antonioni, morto em julho deste ano. Zhang-Ke diz que suas primeiras inspirações para fazer um filme são a aparência de um ambiente e a expressão de uma pessoa. E busca sempre trabalhar com o imprevisto, capturar os detalhes da convivência.


Realidade e ficção

É notável ver nos filmes de Zhang-Ke como a fronteira entre realidade (documentário) e ficção é indefinível. O autor transita entre um e outro sem alterar a abordagem própria e mantendo a mesma dinâmica cinematográfica. Basta analisarmos os dois projetos rodados na barragem de Três Gargantas –a ficção “Em Busca da Vida” e o documentário “Dong”, sobre o pintor chinês.

“Fazer documentários é um lado rebelde meu, eu quero sempre mostrar uma realidade e buscar as histórias de vida das pessoas. Decido fazê-los quando pretendo superar algum limite. Investigar, por exemplo, a vida de um pintor”, disse. E para não perder o imediatismo das situações, Zhang-Ke sempre opta por filmar com câmeras digitais, mais práticas de serem carregadas e manuseadas.

Sobre a idéia de filmar o deslocamento da população de Fengjie, obrigada a abandonar a cidade devido à construção de uma barragem hidrelétrica, Zhang-Ke explica que seria impossível montar uma grande parafernália para rodar o projeto. “Só filmando em digital eu consigo acompanhar as mudanças ocorridas na China”, afirmou.


Censura na China

Os seus três primeiros filmes foram proibidos em território chinês. Segundo o próprio diretor, a alegação dos censores na época foi de que não eram histórias “alegres”. Durante um bom período, ele teve de buscar alternativas de financiamento para poder rodar seus filmes sem a ajuda do governo chinês.

Só em 2004, após um processo de abrandamento da censura no país, Zhang-Ke teve a oportunidade de lançar por vias legais seu filme “O Mundo”. Foi seu primeiro longa-metragem exibido oficialmente na China. Apesar das dificuldades, o diretor admite que sempre houve esforço, principalmente dos jovens, de ir atrás de seus filmes proibidos, ora fuçando na internet, ora pirateando as versões distribuídas na Europa.


Nova geração de diretores chineses

Foi justamente esse fenômeno da proliferação de filmes disponíveis na internet, além do aparecimento de fóruns de discussão e crítica cinematográfica nos meios virtuais, que alimentou a formação da nova geração de diretores chineses, da qual Zhang-Ke faz parte. Ele conta que só assim os jovens conseguiram fugir da programação oficial sugerida pelos órgãos do governo e ampliar o leque de ofertas, tendo acesso a filmes raramente exibidos na China.

Zhang-Ke aponta duas características em comum à cinematografia oferecida por essa nova geração, surgida nos anos 90: a preocupação com a criação de um espaço livre de exibição e o compromisso em manter sempre o foco próximo à realidade social vivida hoje na China. “A exibição de filmes em bares, clubes, ou mesmo as práticas clandestinas, permitiram um contato muito grande entre os cineastas da nossa geração”, disse Zhang-Ke.

*

A JUVENTUDE SEGUNDO GUS VAN SANT

“Paranoid Park” é mais uma tentativa do cineasta norte-americano Gus Van Sant de esquadrinhar a juventude atual sem usar para isso artifícios comuns a diretores que abordam essa geração. Menos preocupado em criar rótulos e lançar polêmicas a partir de clichês como abuso de drogas e sexo, Van Sant apenas repara nos adolescentes de forma distante, com muito zelo e respeito, como se evitasse a todo momento classificações genéricas.

E é essa parcimônia que faz do cineasta o mais apto a entender os jovens de hoje em dia, o estranho vazio que os envolve e a angústia introvertida que reflete para o espectador como alienação. Após se meter numa enrascada ao matar acidentalmente um vigia, o garoto Alex dirige-se a uma amiga e diz que não liga para o que está ocorrendo no Iraque e que odeia notícias de guerra; é como se ele falasse que já bastam seus problemas do cotidiano.

Na verdade, o próprio estilo de filmar do diretor causa a sensação de estarmos vivendo num ambiente desamparado, onde não há direções bem definidas e onde os personagens caminham a esmo. A câmera que segue as costas de um personagem durante um trajeto incerto já virou marca registrada de Van Sant. Já podíamos notar esse aspecto em “Elefante” (2003) -a andança nos corredores do colégio- e agora em “Paranoid Park”, quando nos deparamos com Alex percorrendo o trajeto de grama que leva à praia.

*

DOIS ARGENTINOS PERDIDOS NO MUNDO

Dois homens que escapam de suas rotinas e viajam a lugares remotos em busca da própria identidade, em jornadas que lhes permitem fazer um balanço de suas vidas. Este mesmo tema se aplica a dois filmes argentinos de grande força estética e intenso questionamento existencial: “Nascido e Criado”, de Pablo Trapero, e “El Otro”, do portenho Ariel Rotter, 34 anos, destaque da nova safra argetina de cineastas.

Na obra de Trapero, o desajustado é Santiago, um decorador bem-sucedido, que mantém boa relação com a filha Josefina e a mulher Milli. Um acidente de carro quando seguia para a casa de campo de um parente obriga Santiago a ficar internado num hospital sem saber notícias da sua família. O episódio lhe causa sérios transtornos emocionais. Sem grandes planos, resolve embarcar numa viagem à Patagônia.

Lá, Santiago tenta, na função banal de controlador de vôo em um aeroporto inóspito, recuperar forças para continuar sua vida, distante dos traumas recentes. O abandono quase completo, associado a uma espécie de fuga da realidade, só é rombido quando ele cria um novo convívio, com o amigo Robert e o descendente de índios Cacique. Muitas vezes a tentativa mostra-se inútil, à medida que renascem as feridas.

A pergunta que fica é: até que ponto fugir para lugares distantes permite criar uma nova realidade existencial? Parece ser o mesmo questionamento do filme de Rotter, “El Otro”. Juan é um advogado que viaja a trabalho ao interior para atender um cliente. Acaba assumindo (e criando) a identidade de outras pessoas, de acordo com a situação em que se encontra.

Como na cena em que experimenta várias armações de óculos diante do espelho, Juan tem necessidade de provar novas sensações, ao adotar diferentes perfis. Tão silencioso e introspectivo quanto o filme de Trapero, o espectador é conduzido a uma expedição sem destino aparente.

*

CARLA GARAPEDIAN E “SCREAMERS”

Um fenômeno curioso acontece na Turquia, segundo disse em debate da Mostra a jornalista Carla Garapedian, diretora do documentário “Screamers”, que acompanha a turnê engajada do grupo de rock System of a Down. Os turcos em geral gostam do som da banda e costumam ouvi-la, mesmo que seus integrantes, descendentes de armênios, façam coro para o mundo reconhecer a atrocidade cometida pela Turquia no genocídio de 1915, no qual foram dizimados quase 1,5 milhão de armênios.

“Eles apreciam o estilo musical, mas ignoram a mensagem veiculada”, conta Carla, que encontrou em várias prateleiras de Istambul discos da banda sendo vendidos ao lado de livros cujo teor negava o extermínio de armênios. Uma contradição aparente, que revela uma cisão na sociedade. No ano passado, o escritor turco Orhan Pamuk, agraciado com o Nobel de literatura, foi a tribunal, acusado de ofender a identidade nacional ao trazer à baila o assunto. Safou-se por pouco de ser preso.

Em janeiro deste ano, o intelectual e editor do jornal “Agos”, Hrant Dink, foi assassinado nas ruas de Istambul ao sair de seu escritório. Um garoto de 17 anos, filiado a facções ultranacionalistas turcas, assumiu a autoria do atentado. Com 52 anos, Dink era figura conhecida na Turquia por defender uma relação pacífica entre turcos e armênios. Uma de suas últimas aparições foi no filme “Screamers”.

Sobre a possibilidade de exibir o documentário na Turquia, Carla enumerou alguns episódios insidiosos, entre eles a morte de Hrandt Dink, e mostrou-se relutante. “Eu até gostaria muito de exibi-lo, mas não é permitido falar sobre o genocídio no país. Existe o artigo 301 que proíbe de se comentar o assunto.” Mesmo assim, ela afirma que gostaria que o filme fosse baixado na internet e visto em território turco.

*

GRAFITE É ARTE?

O documentário “Bomb It”, de Jon Reiss, dá um giro no mundo para analisar a manifestação artística desenhada nas ruas por grafiteiros, uma das formas mais espontâneas e marginais da estética contemporânea. E para quem ainda não percebeu, São Paulo é um dos pólos mais efervescentes dessa prática. Tanto que boa parte do filme se passa na capital paulista, onde Reiss entrevista Nina, Zezão e Os Gêmeos, os três considerados referência no assunto.

Um deles diz que seu trabalho é como um “terrorismo tipográfico”, uma forma de intervenção urbana que traz também o reconhecimento numa cidade de anônimos. É uma competição desregrada para saber quem atinge o ponto mais alto de prédios e grandes construções. Os próprios traços e desenhos são identificados como particulares da metrópole, com uma característica de letras mais verticais.

Uma das obras mais inusitadas é a do grafiteiro Zezão, que se enfia nos esgotos da cidade e pinta cores vibrantes como se fossem correntes sanguíneas atravessando a imundície do ambiente. O azul intenso dos seus traços cria um contraste perturbador com o cinza predominante nos canais subterrâneos. Várias questões pertinentes são levantadas pelo diretor. Grafite é arte? Os grafiteiros devem ter seus trabalhos expostos em galerias? É uma prática criminosa? Como a população reage?

*

O LEGADO DE DANEY

O crítico Serge Daney esteve a frente da principal revista de cinema de todos os tempos, a francesa “Cahiers du Cinéma”, de 1970 a 1981. Ingressou na chefia da redação com o propósito claro de retomar um pouco o espírito crítico da geração que havia imortalizado a revista nos anos 50: Truffaut, Rohmer, Chabrol, Rivette… Seria preciso refundá-la editorialmente, e antes de mais nada desamarrá-la da ideologia marxista-leninista, naquele início dos anos 70.

Com o lançamento do livro “A Rampa”, parceria da Cosac Naify com a Mostra, podemos enfim conferir o legado de Daney, uma coletânea de textos críticos e densos que foram publicados na “Cahiers” durante sua passagem pela revista. No prefácio, o amigo de redação e também crítico Serge Toubiana escreve sobre o panorama “difícil e árido” que Daney enfrentou:

“Interpreto essa época como um período decisivo, no qual Daney assumia com coragem a transição entre seu primeiro período de cinefilia, e o período pós-político, quando se tratava, para ele, de reformular uma linguagem crítica”.

No lançamento do livro, foi feito um debate sobre o papel da crítica cinematográfica nos dias de hoje, do qual participaram Inacio Araújo, crítico da “Folha de S. Paulo”, e Luiz Zanin, de “O Estado de S. Paulo”.

 
1