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audiovisual
MARATONA

O melhor da Mostra de Cinema
Por Fernando Masini


A atriz Cate Blanchett interpreta Bob Dylan no filme "I'm Not There", que será exibido na Mostra
Divulgação

Conheça os principais filmes da 31ª edição do evento, que começa na próxima sexta-feira em São Paulo

A grande aposta de Leon Cakoff, diretor da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, para a edição deste ano são diretores que vêm causando sensação em todo o mundo com filmografias ainda incipientes e bastante expressivas. É o caso da dupla homenageada desta vez: o chinês Jia Zhang-Ke (de “Plataforma” e “Em Busca da Vida”), de 37 anos, e o francês Jean-Paul Civeyrac, 43 anos, cineasta pouco conhecido do público brasileiro.

Ambos terão boa parte de sua obra exibida em São Paulo a partir de 19 de outubro, data de início da Mostra. Serão mais de 400 filmes espalhados em 18 salas da cidade, mais o espaço improvisado no vão livre do Masp, onde haverá exibições gratuitas. O cartaz deste ano é assinado pelo diretor Hector Babenco, que posou no centro de São Paulo como homem-placa anunciando ouro, prata e pedras preciosas.

É também de Babenco a honra de inaugurar a maratona dos cinéfilos com o filme “O Passado”, que será exibido no dia 18 de outubro, durante cerimônia fechada para convidados, no auditório do Ibirapuera. O filme é uma co-produção Brasil-Argentina que tem o ator mexicano Gael García Bernal como estrela (ele também estará em São Paulo para promover a obra).

Adaptado do livro homônimo de Alan Pauls, “O Passado” conta a história de um jovem tradutor chamado Rimini que rompe um relacionamento de 12 anos com Sofia, interpretada pela atriz argentina Analía Couceyro. Após uma amnésia misteriosa que lhe compromete o trabalho como tradutor, Rimini é obrigado a aceitar a ajuda da ex-esposa.

A novidade deste ano fica por conta de uma seleção de filmes africanos premiados no Fespaco, festival bienal de cinema e televisão que acontece em Burkina Fasso. Dezessete longas-metragens de países como Costa do Marfim, Marrocos e Gana serão exibidos. Entre os destaques, está o vencedor da edição de 2005, “Drum”, que fala sobre a resistência de um repórter em meio ao apartheid em Johannesburgo, durante os anos 50. O filme é dirigido pelo sul-africano Zola Maseko.

O diretor canadense Guy Maddin, homenageado há três anos na 28ª Mostra, estará de volta nesta edição com o filme-espetáculo “Brand Upon the Brain”, uma mistura de cinema e teatro em que atores fazem performances ao vivo diante de uma projeção na tela. Antes de chegar ao Brasil, a história foi encenada no último Festival de Berlim. O evento está marcado para ocorrer no Sesc Pinheiros.

Outro veterano da Mostra, o israelense Amos Gitai (de “Kippur” e “Free Zone”), aporta em São Paulo para apresentar seu último filme, “A Retirada”, que narra a viagem de Ana (Juliette Binoche) no período de desocupação dos israelenses da Faixa de Gaza. Ele aproveita a ocasião para ministrar uma oficina, junto à roteirista Marie-Jose Sanselme, na Faap, dia 30 de outubro. Estarão disponíveis 20 vagas e a aula magna custa R$ 150.


O desconhecido cinema armênio

Antes de iniciar a música de abertura, em um show no Reino Unido, o vocalista da banda de rock System of a Down grita para a platéia: “Está na hora de a Turquia pagar pelo crime que cometeu”, logo em seguida a canção "P.L.U.C.K" é entoada e ressoa na pista cantada aos berros por adolescentes que se espremem no parapeito. Trata-se de uma das cenas do documentário “Screamers”, dirigido por Carla Garapedian, convidada especial da Mostra.

O filme é quase uma reportagem de apelo que abraça a causa defendida pelos armênios a respeito do genocídio cometido pelos turcos em 1915, em que mais de 1,5 milhão de pessoas foram mortas. A banda System of a Down, formada por norte-americanos descendentes de armênios, é conhecida por sua música de protesto e por divulgar em seus shows panfletos com menção ao extermínio.

Além de acompanhar a turnê da banda, Carla busca cotejar esse ato de repúdio com outras atrocidades perpetradas ao longo da história, como o genocídio de Ruanda e a guerra civil em Darfur, no Sudão. É um filme agoniado e pujante que merece ser visto. Para Leon Cakoff, também descendente de armênios, o documentário aproveita a chance de falar do genocídio para uma geração mais nova.

Outras produções armênias foram lembradas por Cakoff, que acredita no crescimento da cinematografia do país. “O Farol”, de Maria Saakyan, relata os apuros de refugiados na região caucasiana, que sofreram devido aos conflitos étnicos ocorridos na Geórgia, Armênia e no Azerbaijão. Uma boa dica para conhecer mais sobre os armênios é o filme “Le Voyage en Arménie”, do francês Robert Guédiguian (diretor do ótimo “O Último Mitterrand”).


Os premiados na Europa

Como aconteceu nos anos anteriores, esta edição não deixa de trazer ao público paulistano os filmes laureados nos principais festivais da Europa: Cannes, Veneza e Berlim. A lista começa com o vencedor da Palma de Ouro, o romeno “4 meses, 3 semanas e 2 dias”, de Cristian Mungiu, história de duas estudantes que dividem um flat em Bucareste, sob a opressão do regime comunista dos anos 80. Grávida, uma das jovens busca um meio ilegal para tirar a criança.

O polêmico “Lust, Caution”, último filme do diretor taiwanês Ang Lee, que ganhou este ano o Leão de Ouro em Veneza, também já consta na programação. O contexto é Xangai, sob ocupação dos japoneses, década de 40, onde uma estudante e um funcionário chinês envolvem-se num relacionamento amoroso. As cenas de sexo causaram alvoroço na cidade italiana e foram classificadas para maiores de 18 anos pelo órgão regulador dos EUA.

A despeito da projeção internacional conquistada pelos premiados acima, outros dois filmes parecem chegar à Mostra deste ano com menos alarde, no entanto prometendo encantar os espectadores. São eles “Paranoid Park”, do americano Gus Van Sant (de “Elefante”), e “I’m Not There”, de Todd Haynes (diretor de “Em Busca do Paraíso”).

O primeiro trata do universo de skatistas por meio da história de Alex, um garoto que se envolve no assassinato de um guarda de segurança, na ferrovia de Portland. O filme de Haynes é uma biografia inusitada do compositor Bob Dylan, com vários atores interpretando o músico, entre os quais, uma mulher, Cate Blanchett, cuja atuação lhe rendeu o prêmio de melhor atriz em Veneza.


Para o público cult

Ninguém melhor do que Quentin Tarantino para celebrar o cinema cult e encher as telas com referências à cultura pop e a gêneros bizarros. Seu mais novo filme “À Prova de Morte” –de início idealizado para ser lançado numa dobradinha com o diretor Robert Rodriguez, mas depois desmembrado– é uma homenagem explícita aos filmes trash dos anos 70, com carros possantes e musas banais e estonteantes.

É a receita infalível para os fãs do gênero. Uma amostra do cinema oriental de transgressão também chega nesta edição com o mestre do horror japonês Takashi Miike (de “Gozu” e “Ichi, the Killer”). Será exibido seu filme mais recente, “Sukiyaki Western Django”, sobre a chegada de um forasteiro numa disputa de clãs feudais. A atmosfera é de um típico western spaghetti, aos moldes do diretor italiano Sergio Leone.

O francês Michel Gondry, famoso por dirigir clipes de bandas como Björk e White Stripes e diretor de “Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças”, mostra mais uma idéia lunática em “Sonhando Acordado”, filme que mistura sonho e realidade na vida de Stéphane (interpretado por Gael García Bernal), que trabalha numa editora de calendários em Paris.

Outra aposta nessa mesma linha é “Smiley Face”, de Gregg Araki (diretor do perturbador “Mistérios da Carne”, de 2004). A protagonista é Jane, uma aspirante a atriz, desempregada, que antes de sair de casa pela manhã resolve comer os bolinhos alucinógenos deixados pela amiga em cima da mesa.


Destaques nacionais

A boa safra de filmes nacionais promete grandes momentos na Mostra deste ano, repetindo o feito da edição passada. De certa forma, a tensão já está no ar devido à antecipação do lançamento nos cinemas de “Tropa de Elite”, filme sensação de José Padilha que elevou o ânimo dos críticos a um estado quase belicoso. A cizânia deve perdurar ao longo da programação que tem como destaques os premiados no recém-encerrado Festival do Rio, “Mutum”, dirigido por Sandra Kogut, e “Estômago”, de Marcos Jorge.

“Mutum” é um filme mineiro em todos os aspectos: a locação no interior árido do Estado, o sotaque dos personagens comendo as palavras, além de ser resultado de uma adaptação da obra do escritor mineiro de Cordisburgo, Guimarães Rosa. No filme, o espectador é enfeitiçado pelo ponto de vista de Thiago, menino muito quieto que vive com a família ajudando o pai a capinar na roça.

Aos poucos, o olhar de criança é lançado sobre a relação confusa dos adultos; Thiago ocupa o quarto que divide com Felipe, seu irmão, como um confessionário, único local seguro onde ambos podem trocar cochichos.

Bem menos silencioso, porém carregando o mesmo tipo de introspecção, é o segundo longa-metragem de Lina Chamie, “A Via Láctea”. A história de encontro e desencontro entre o casal Heitor (Marco Ricca) e Júlia (Alice Braga) se passa nas vias mais movimentadas de São Paulo, no tráfego pesado das avenidas Paulista e doutor Arnaldo.

Heitor é escritor e professor universitário, Júlia é atriz e cursa a faculdade de veterinária. Como obstáculo intransponível entre os dois, está a metrópole. Cada personagem parece num beco sem saída, como o cachorro abandonado que agoniza numa das cenas do filme. Estará presente também nesta edição “Deserto Feliz”, filme do diretor Paulo Caldas (de “Baile Perfumado”) que levou a maioria dos prêmios no último Festival de Gramado.


Música e cinema

Além das duas produções mencionadas anteriormente –“Screamers” (sobre a banda de rock System of a Down) e “I’m not There” (cinebiografia de Bob Dylan)-, que mesclam música e cinema, há outras opções inspiradas em lendas do rock. Uma delas é o musical “Across the Universe”, de Julie Taymor, cuja idéia foi dar vida às canções dos Beatles.

O resultado é um híbrido entre o clássico de Alan Parker, “The Wall”, e o sentimentalismo escancarado de “Moulin Rouge”. Trata-se de uma viagem lisérgica em meio às manifestações da contracultura dos anos 60. O caso de amor é entre Jude, um jovem cansado da vida provinciana em Liverpool que viaja aos EUA, e Lucy, garota pudica que deixa a casa dos pais para morar num albergue em Nova York.

A grande expectativa, no entanto, é para o filme “Control”, do fotógrafo holandês Anton Corbijn, sobre a vida e morte trágica do cantor Ian Curtis, líder da banda pós-punk Joy Division. O ator e músico Sam Riley faz o papel do vocalista que se matou aos 23 anos quando a banda havia lançado apenas dois álbuns. Samantha Morton interpreta Deborah, a viúva de Ian.


A onda latino-americana

Mais uma vez a Argentina exibe sua proeminência cinematográfica ao trazer para a Mostra atrações imperdíveis. Pelo menos três filmes produzidos lá devem satisfazer ao público. O primeiro deles, “XXY” (dirigido por Lucía Puenzo), acaba de ser eleito como o candidato argentino ao Oscar de melhor filme estrangeiro. Torna-se portanto concorrente direto do brasileiro “O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias”, escolhido como representante do país.

A história de “XXY” tem como cenário a região litorânea da Argentina, um balneário de Piriápolis, onde Alex, uma garota de 15 anos, vive com seus pais. Ela esconde um segredo que será desvelado com a visita do adolescente Álvaro, filho de um dos amigos de seu pai. O filme amealhou este ano o prêmio na Semana da Crítica em Cannes.

É aposta certa também o último filme de Pablo Trapero, “Nascido e Criado”. Diretor de obras notáveis como “Família Rodante” e “Do Outro Lado da Lei”, Trapero foi um dos responsáveis, junto com Lucrecia Martel, pelo ressurgimento do cinema argentino, poucos anos atrás. O enredo é uma grande reviravolta na vida de Santiago (Guillermo Pfening), restaurador de móveis e decorador, que vive com a esposa e a filha Josefina. Um acidente força Santiago a abandonar sua cidade e partir sozinho para recantos inóspitos na Patagônia.

Do México, chega o vencedor do prêmio do júri no Festival de Cannes, “Luz Silenciosa”, de Carlos Reygadas. O filme destaca a comunidade dos menonitas, protestantes vindos da Europa em séculos passados que se estabeleceram no norte do México. Têm como princípios o pacifismo e a aversão ao progresso. O contraponto ocorre quando um dos adeptos, casado e pai de família, apaixona-se por outra mulher.


Outros destaques

Confira a seguir outros filmes relevantes que serão apresentados na 31ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo:

 
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