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O místico nos leva ao mítico. A dialética entre mito e realidade, que sempre fez parte do sertão, está em todo o filme. Madame Bernadete funciona como um oráculo grego. Suas profecias fazem da trajetória de Jonas uma tragédia. Outro elemento da Grécia antiga é a idéia de que “o olhar é a luz que sai do olho”, frase proferida por Meu Velho para Soledad, com direito à aproximação de câmera. É certo que, cientificamente, é a luz que vem ao olho. Contudo, metaforicamente, essa imagem é perfeita para resumir uma das principais questões do filme: enxergar a realidade de maneira diferente.

Lírio Ferreira quer fazer com que enxerguemos vários paradoxos, sendo o principal deles o seguinte: “Excesso de informação, falta d’água”. Essas palavras, que aparecem na galeria de arte no final, resumem todo o filme, tanto seu conteúdo quanto sua forma. O diretor quer discutir o confronto entre modernidade e tradição, entre tecnologia de ponta e falta de infra-estrutura. Em um Nordeste com telefonia celular, a água ainda é um problema (e grave). No que diz respeito à forma, trata-se de um filme que se perde em inúmeras idéias, um emaranhado de personagens e situações que não são bem amarrados.

“Árido Movie” apresenta muitas digressões, poucas vezes interessantes. A dança dos três amigos de Jonas no bar de Zé Elétrico, com um giro de câmera de 360 graus, é interessante formalmente. Entretanto, a digressão mais significativa é a conversa entre Jonas e Zé Elétrico sobre “enxergar a realidade de maneira diferente”.

Nessa passagem, o personagem de José Dumont fala sobre a Pedra do Cachorro. Diz que já existia pedra antes de existir cachorro. Depois que percebeu a forma do cachorro, só conseguiu enxergá-la. Não entende como não conseguia antes. As coisas estão por aí e não vemos por preguiça e preconceito. Por isso, Zé Elétrico afirma que gosta de Raul Seixas, que não gosta de opiniões formadas (mais uma referência cult). Enquanto fala, um longo travelling dá uma volta, saindo dos personagens, passando pelo cachorro e pelo elefante de pedra e retornando a eles.

Esse longo travelling é apenas um dos longos travellings do filme. Esse gosto por movimentos desse tipo já está presente em “Baile Perfumado” (1997), que Lírio Ferreira co-dirigiu com Paulo Caldas. Contudo, muito do que era inventividade nesse filme não passa de virtuosismo desnecessário em “Árido Movie”. Um exemplo é a conversa entre Bob, Falcão e Verinha através dos espelhos do carro. Outro paralelo pode ser traçado em relação ao longa anterior de Ferreira: o velório de Padre Cícero muito se assemelha ao de Lázaro. Já a alucinação de Jonas muito se assemelha a um videoclipe (tem música, muitos efeitos visuais e a câmera e o protagonista se movimentam intensamente).

No entanto, apesar do bem construído jogo de pistas e recompensas (o homem da forquilha e o caixão de Lázaro reaparecem, muda o sotaque outrora criticado de Jonas, ele pega o revólver do pai como se fosse celular), da “ressurreição” de Lázaro (não é à toa que tem esse nome), do uso expressivo da câmera subjetiva, o delírio é anticlimático. Não passa de um delírio. O vômito de Jonas dá a idéia de que ele regurgitou toda sua experiência na terra natal e voltou a São Paulo mais consciente de si.

O anticlímax não é necessariamente um problema. O problema é que frustra as expectativas de um público ávido por ação. É como se a situação não fosse resolvida. Na verdade, tudo se resolve. A visão de Lírio Ferreira é pessimista. Márcio Greyck toma o lugar antes reservado a Jonas, e o coronelismo se perpetua na paisagem nordestina. A vingança se concretiza, mas não pelas mãos do homem do tempo. Sua avó lhe deu o revólver do pai defunto para que eliminasse Jurandir. “Queira ou não queira, você tem a ver com isso”. O fim é como se Jonas dissesse que não tem nada a ver com isso. Nunca tinha pegado em uma arma antes e, quando toma posse de uma, tem a certeza de que não pode usá-la.

No final, uma surpresa: a cena da galeria de arte põe em xeque o próprio filme. O que são os problemas do Nordeste para o artista brasileiro? As referências a outros planetas, também feitas anteriormente por Meu Velho, evidenciam as profundas relações entre o mundo futuro e o primitivo, mais uma vez modernidade e tradição. Se vivemos na “sociedade do espetáculo”, como se dá a transformação de mazelas sociais em espetáculo? Discussões conceituais como essa são interessantíssimas e brotam da narrativa, da ação. Deveria haver mais cenas assim, em vez de diálogos pretensamente intelectuais.

Outro ponto relevante é o fato de que, ao longo do filme, a estilização quase oculta o documental. No entanto, este persiste. É inerente a qualquer produção brasileira. Enfim, “Árido Movie” é irregular, perde-se ao tentar tudo englobar. Como as imagens iniciais de Jonas, não tem foco. No entanto, tem força e, de acordo com a tese de Márcio Greyck, é só ter sorte para decolar. O final na galeria de arte de São Paulo é enigmático. Jonas e Soledad falam sobre algo que está fora de campo. O filme termina com a promessa de que alguma coisa vai acontecer, o que permite múltiplas suposições. Para finalizar de modo cult, é importante dizer: olhai o Lírio do sertão.

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Diogo Cronemberger
É aluno de cinema na Escola de Comunicações e Artes da USP.

 
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