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audiovisual
REVISÃO

Maneirismos de cinema
Por Diogo Cronemberger


Giulia Gam em "Arido Movie"
Foto: Divulgação

"Árido Movie", filme de Lírio Ferreira que sai agora em DVD, faz pose de "cult" para esconder sua escassez de idéias

Recém-lançado em DVD, “Árido Movie” (2006), dirigido por Lírio Ferreira, é um filme cult. Esse conceito encontra-se bastante diluído, mas pode ser entendido em linhas gerais como denominador de produções que fogem ao padrão hollywoodiano. Ou melhor, “Árido Movie” é uma tentativa de cult, o que é pior.

O título é bastante revelador. Expressão cunhada pelo cineasta e jornalista Amin Stepple, designa o momento em que explodiu o cinema pernambucano, a partir do final dos anos 90. Destarte, o filme tem como premissa a homenagem a determinado momento cultural, assim como “Pulp Fiction” (1994), dirigido por Quentin Tarantino, homenageia determinado produto cultural. Nesse quesito, tem êxito.

Existem outros pontos de convergência entre as duas obras, como as constantes referências à cultura pop. O começo de “Árido Movie”, nesse sentido, é exemplar: conta com a presença de Renato e seus Blue Caps. Além disso, o personagem Lázaro é vivido por Paulo César Peréio, um ator cult. Mais uma vez, ele brinca com sua persona. Seu personagem é logo assassinado, o que desencadeia toda a trama.

Guilherme Weber interpreta Jonas, filho de Lázaro e homem do tempo de um telejornal. Deixou o Pernambuco e foi para São Paulo. Retorna para o enterro do pai. Em Recife, encontra-se com sua mãe (Renata Sorrah) e três amigos de faculdade: Bob, Falcão e Verinha (Selton Mello, Gustavo Falcão e Mariana Lima, respectivamente). De lá, parte rumo a Rocha, onde o corpo do pai é velado por toda a família. A avó, a matriarca Dona Carmo (Maria de Jesus Bacarelli), ordena que não haja enterro até a chegada de Jonas.

Durante o caminho, este encontra Soledad (Giulia Gam), vídeo-artista de quem se aproxima. Em Rocha, depara com os índios Zé Elétrico (José Dumont) e Wedja (Suyane Moreira). Os três amigos de faculdade também vão a essa cidade. Constituem o núcleo cômico do filme e seu maior equívoco. Nada acrescentam à narrativa, a não ser como representantes do estilo de vida dos jovens da classe média pernambucana atual. Esse estilo de vida, nascido com o mangue beat, regado a muita maconha e desregrado, permeia todo o filme.

Esse é apenas um dos inúmeros problemas de roteiro do filme, como os diálogos pretensamente cult, principalmente entre os três amigos. Mais uma vez, o parâmetro é Tarantino. Seus diálogos se destacam por serem inteligentes e inusitados. Os de “Árido Movie” são, em geral, vazios e desprovidos de qualquer graça. Bom exemplo é a conversa sobre as maiores invenções da humanidade.

Outra cena que não funciona é aquela em que Bob, drogado, não se lembra do título de um filme, nem do ator que dele participa, nem da esposa do ator, fórmula desgastada que só se salva quando Verinha pede que pare de cutucá-la. Os atores parecem se divertir (mais que os personagens). Aliás, estão sempre se divertindo, mas dificilmente divertem o público.

Os maiores responsáveis pelos poucos risos são Bob e Zé Elétrico. Selton Mello e José Dumont são excelentes atores e conseguem salvar muitas piadas sem graça do roteiro. Irregulares, essas piadas quase sempre remetem ao universo da cultura pop. Diante de uma plantação de maconha, Bob diz: “Tim Maia, me dê motivo.” Depois de soltar fumaça ao fumar maconha, solta um “Habemus papam”. Mas nenhuma brincadeira supera a seguinte “tirada”: “Bocas secas, de Graciliano Ramos”. É a negação de um tipo de representação do sertão, é a proposta de um novo caminho, ainda que tortuoso. Em “Árido Movie”, o sertão é “massa”, como afirma Falcão. Os inúmeros jogos de palavras também constituem um ponto positivo do roteiro. O nome do posto de Zé Elétrico (“Oposto”) é um bom exemplo, fundamental no questionamento do filme sobre a oposição entre dois mundos diferentes, o de Jonas e o de Lázaro. Seriam mesmo opostos ou teriam ligações profundas?

Outra decisão acertada dos roteiristas Lírio Ferreira, Eduardo Nunes, Hilton Lacerda e Sérgio Oliveira é o jogo de pista e recompensa envolvendo Bob, Falcão, Verinha e a polícia, assim como a aposta em expressões tipicamente nordestinas e em tipos expressivos do Nordeste para gerar comicidade. Em um bar, um homem se espanta com o fato de que é noite no Vietnã enquanto no Brasil é dia e fala que isso é uma ciência, arrancando gargalhadas do público. Também consegue esse efeito a aula de Bob sobre como “bolar um baseado”.

A cena que explora o fuso horário tem um fechamento: chega ao bar o companheiro de trabalho de Madame Bernadete e pergunta se o jogo na televisão é ao vivo ou em direto. Em outra cena, outro fechamento cômico: irritado com o celular, Jonas o joga no chão. Um caminhão passa por cima dele. O problema é que esses fechamentos não são tão engraçados quanto deveriam. Assim, só se percebe a intenção de fazer graça. E, no cinema, não vale a intenção.

O fato de o filme ter o cult como horizonte acarreta outros problemas, e vale destacar que “Árido Movie” se afirma como cult logo no início. Quando Jonas chega a Recife, conversa com um taxista e usa a expressão “sol de dois canos”. O homem fica confuso, não entende. Jonas diz que não foi nada. Na verdade, é uma alusão a João Cabral de Melo Neto.

Com isso, o diretor está dizendo que o filme terá muitas referências e que não importa que não sejam entendidas pelo grande público. Seu filme cult será mais bem apreciado por espectadores cult. Só que acaba por cair na própria armadilha: não importa que ninguém entenda as referências porque são vazias. Não passam de referências, não enriquecem o filme. O maior exemplo disso é, sem dúvida, o diálogo entre Jonas e Soledad antes de transarem. Ele lhe pergunta se já leu “O estrangeiro” e diz que se sente estrangeiro em qualquer lugar, até mesmo nos próprios sonhos. Frase de péssimo gosto e descabida.

Ao contrário do que faz Woody Allen em “Ponto Final” (2005), colocando “Crime e Castigo” nas mãos de seu anti-herói no começo como pista para recompensas surpreendentes, a alusão à obra de Camus está deslocada. Há paralelismos entre os protagonistas do livro e de “Árido Movie”, como o fato de Jonas não esboçar emoção alguma diante da morte do pai, mas a inserção do livro no filme não aponta nada que possa influir no enredo. A alusão é simplória. Se tivesse sido feita de maneira diferente, talvez conseguisse dar outra dimensão à história.

Ao contrário do roteiro, a fotografia apresenta mais pontos positivos que negativos. E, no jargão da fotografia, poucos pontos. Em geral, é bem escura. Com contrastes radicais, vai de encontro aos clichês da representação imagética do Nordeste no cinema brasileiro. Murilo Salles, depois de anos longe da função, brinda o espectador com um trabalho ímpar. São Paulo tem sempre um tom azul escuro e o velório de Lázaro, também bastante escuro, lembra a fotografia de Gordon Willis para “O Poderoso Chefão” (1972). Não por acaso: a estrutura de poder de famílias como a do filme no Nordeste é muito similar à da máfia.

Ainda sobre a fotografia, vale destacar que qualquer verde é sempre desbotado e a luz sobre Meu Velho (José Celso Martinez Corrêa) é branca e fria, o que lhe confere um caráter etéreo. Outra questão interessante é a falta de foco no início. Jonas só ganha nitidez quando aparece no televisor do hotel em que seu pai é assassinado, em Rocha. A partir desse fato, terá início um processo de autoconhecimento e de conhecimento do personagem pelo público. A rede de televisão integra Sudeste e Nordeste, filho e pai. É um símbolo de modernidade em um mundo marcado pela tradição.

Assim como a fotografia, merece destaque a montagem de Vânia Debs, que sobressai na cena em que Madame Bernadete tem suas visões. Nessa cena, também são notáveis os movimentos de câmera. A seqüência na plantação de maconha em que os amigos de Jonas são surpreendidos por capangas da família dele também é muito bem montada. Os "jump cuts" na conversa entre Márcio Greyck e Jonas sobre o ato de matar, e na dança, entre Falcão e Verinha, são empregados com maestria, dando dinamismo às cenas, assim como os campos e contracampos contínuos, sem cortes, em determinados momentos.

São elementos de linguagem que remetem a Godard, uma das principais referências do filme, ao lado de Orson Welles, do Cinema Marginal e, é claro, de Tarantino. As alucinações têm como referência “Sem Destino” (1969), dirigido por Dennis Hopper, também um "road movie". As rochas de Rocha lembram o Monument Valley imortalizado por John Ford. Apesar da referência, não há tanta proximidade em relação a Glauber. “Árido Movie” destaca-se em relação à ressaca cinema-novista atual, trata os problemas do Nordeste de maneira diferente. Se não alcança plenamente seus objetivos, pelo menos abre um caminho alternativo.

A referência a Ford nos leva à matriz de “Árido Movie”, que é o western, como evidenciam as rochas e os índios. É claro que existem índios em Pernambuco. Inclusive, seus problemas são apresentados em um discurso emocionante de Zé Elétrico. No entanto, o próprio discurso apresenta uma chave mítica típica do western.

Há também a questão do "outsider". Mesmo não se sentindo estranho dentro do mundo de seu pai, o que o afasta do Mersault de Camus, Jonas é alguém de fora. Perdeu algo que nunca teve e sua missão é contribuir para a formação de um novo equilíbrio, como fizeram vários personagens de John Wayne, por exemplo, ao longo da história do faroeste. Contudo, há muitas diferenças. Jonas não é um herói, nada muda na realidade que adentra. Sua jornada implica apenas uma transformação interior. Ele se confronta com suas raízes para negá-las em seguida. Encontra o amor e a si mesmo (é aí que o pai morre de verdade, psicanaliticamente). Ademais, não está condenado a vagar para sempre. Mora em São Paulo, para onde volta no final.

A interpretação de Weber é fraca. Ele não convence o público como homem em transformação. É sempre o mesmo. Seu personagem nem é tímido e introspectivo, como o caracteriza Verinha, é apático. Tampouco pode ser comparado a Mersault. O ator não consegue passar complexidade alguma, se esquece de que até a inexpressividade deve ser expressiva. Matheus Nachtergaele está muito bem como o manco Salustiano.

Também merecem destaque Luiz Carlos Vasconcelos como Jurandir, Aramis Trindade como Márcio Greyck e Zé Celso como Meu Velho. A escolha deste ator é curiosa, já que interpreta Antônio Conselheiro na versão de “Os Sertões”, do Teatro Oficina, que também dirige. Giulia Gam faz Soledad, par romântico de Jonas. Desde suas primeiras aparições, é caracterizada como mulher liberal.

O nome do personagem de Aramis Trindade é o de um cantor da Jovem Guarda. Sua música faz parte da trilha musical do filme, assim como a de Renato e seus Blue Caps e a de Os Incríveis. Além disso, há muitas músicas do movimento mangue beat, o que evoca a dialética entre a tradição e a modernidade presente em toda a obra e confere a ela um caráter ainda mais cult. Essa dialética é uma das questões centrais.

O Nordeste do coronelismo e do misticismo e o Sudeste da tecnologia se encontram. Se a TV é um símbolo da modernidade, o relógio de bolso é um símbolo da tradição. Primeiramente, em poder de Lázaro, é um símbolo de riqueza, atraindo a atenção de Wedja. Em seguida, a índia o entrega a Zé Elétrico na esperança de ajudar seu irmão. A partir desse momento, passa a funcionar como representação do tempo, tempo esse implacável.

Jurandir espera pela morte olhando-o fixamente (em certo momento, orações para Lázaro se sobrepõem à imagem do índio deitado, indicando seu destino de maneira elegante). No final, o relógio fica com Márcio Greyck. Este se torna o herdeiro da matriarca. Ela acaba por chamá-lo de “Jonas, meu neto”. É um dos melhores momentos do filme. Assim, na estrutura familiar que se assemelha à máfia, Márcio Greyck alcança a posição de chefão.

O relógio remete ao tempo. O trabalho com as diferentes noções de tempo em “Árido Movie” muito o enriquece. Sobre Rocha, a terra em que nasceu, Jonas comenta: “As coisas pararam no tempo aqui”. Além disso, é um homem do tempo.

Outro aspecto é o do tempo como inimigo na sociedade contemporânea. “Faltam cinco minutos”, frase do início, é reiterada na alucinação de Jonas. Por fim, existe o tempo cíclico de Meu Velho. Ele diz que, quando começou a garimpar, o tempo começou a existir. Em suas palavras está todo o misticismo da indústria da seca, misticismo aliado a interesses políticos, como mostram determinados diálogos em que se explicita que a água milagrosa é fornecida pela família de Jonas. “Meu Velho” é apresentado em uma conversa entre Zé Elétrico e Soledad a partir de planos curtos e enigmáticos. O filme assume o caráter místico de sua personalidade, que só é questionado mais tarde. A incorporação de ambigüidades na estética de uma obra é sempre interessante.

 
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