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Nesse forcejar, percebemos que as ficções literárias “são obra de humanos que sofrem e estão amarrados a coisas grosseiramente materiais, como a saúde, o dinheiro e as casas em que vivemos”. De repente, entre nós, essas coisas grosseiramente materiais que fazem parte da vida de todo artista (assim como de qualquer mortal) passaram a despertar mais interesse do que as finas teias de aranha por eles construídas. Até o ponto de estas últimas, as obras de ficção, se tornarem um mero pretexto para saber mais sobre aquelas: as trivialidades da vida do autor.

Não deixa de ser irônico que a própria Virginia Woolf tenha caído nessas rédeas. No filme “As Horas”, de 2002, a figura da escritora britânica foi recriada como uma personagem de cinema. A partir do sucesso desse longa-metragem no mundo inteiro, as penúrias “grosseiramente materiais” da sua vida conquistam um público bem maior do que suas ficções tão finamente elaboradas. Mas é claro que ela não está sozinha nesse turbilhão: seu admirado poeta a acompanha em filmes como “Shakespeare Apaixonado”, por exemplo, de 1998.

Junto com eles, nos últimos anos foram estreados filmes que converteram em personagens ficcionalizados uma infinidade de artistas reais. Entre eles, escritores como Truman Capote (em duas ocasiões em menos de dois anos!), Sylvia Plath, Jorge Luis Borges, Oscar Wilde, J. M. Barrie, Reynaldo Arenas, Molière, Iris Murdoch, Arthur Rimbaud e Paul Verlaine, mas também pintores e artistas plásticos como Frida Kahlo, Jackson Pollock, Jean-Michel Basquiat, Camille Claudel, Amadeo Modigliani, Goya e Vermeer, e músicos tão diversos como Cazuza, Ray Charles, Beethoven, Sid Vicius, Heitor Villa-Lobos, Jim Morrison, Charlie Parker e Cole Porter.

Mas o auge das cinebiografias ou “biopics” (tal é a denominação que o fenômeno recebeu em terras hollywoodianas) excede este forte interesse pelos artistas consagrados, debruçando-se também sobre personagens reais dos mais diversos âmbitos: da rainha da Inglaterra aos líderes revolucionários Che Guevara e Olga Benário; do “aviador” Howard Hughes e do matemático de “Uma Mente Brilhante”, aos jogadores de futebol Garrincha e Maradona. Artistas ou não, famosos ou não -pelo menos, até o filme aparecer nas telas do mundo; depois disso, todos se convertem em celebridades reais.

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Paula Sibilia
É professora do Departamento de Estudos Culturais e Mídia, do Instituto de Artes e Comunicação Social da Universidade Federal Fluminense (IACS-UFF). Doutora em Comunicação e Cultura pela ECO-UFRJ e em Saúde Coletiva pelo IMS-UERJ, é autora do livro "O Homem Pós-Orgânico: Corpo, Subjetividade e Tecnologias Digitais".

 
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