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ensaio
ESPETÁCULO

Mania de real
Por Paula Sibilia

Obra dos grandes artistas é eclipsada pela busca ávida dos “fatos reais” de sua vida privada

Uma das marcas da cultura contemporânea é a ênfase na veracidade dos eventos mostrados e relatados por toda parte. Em meio ao sucesso dos reality shows, o espetáculo da realidade faz sucesso: tudo vende mais se for real, mesmo que se trate de versões dramatizadas de uma realidade qualquer.

Talvez essa crescente “fome de real” seja alimentada pela desconfiança que provoca o excesso de espetacularização reinante em nosso ambiente tão midiatizado. Quando mais a vida cotidiana é ficcionalizada e estetizada com recursos midiáticos, mais avidamente se procura uma experiência autêntica, verdadeira, não encenada. Busca-se o realmente real -ou, pelo menos, algo que assim pareça.

Ilustrando essa tendência que fulgura por toda parte, vemos surgir lançamentos editoriais como “O Rosto de Shakespeare”, de Stephanie Nolen. Trata-se de um vultoso volume, cujas páginas combinam dados do tipo jornalístico e da história da arte, com a finalidade de desvendar um “grande enigma” da história ocidental: descobrir qual era o verdadeiro rosto do bardo inglês. Sua cara, mesmo: seu aspecto físico. Logo de William Shakespeare, um autor de ficções sobre cuja vida real é muito pouco o que se sabe. Em uma era tão sedenta de saberes biográficos como a nossa, esse desconhecimento se torna intolerável.

Outra grande figura das letras britânicas, Virginia Woolf, destacou essa falta de informações que hoje temos sobre a vida privada e a personalidade de Shakespeare: a seu ver, esse silêncio seria um ingrediente fundamental da nossa relação com sua obra.

Como sabemos tão pouco dele, Shakespeare é pura literatura. Sua figura coincide plenamente com aquilo que o autor escrevera: ele é sua obra -nem mais, nem menos do que isso. Não dispomos de dados fidedignos sobre sua intimidade que possam nos distrair daquilo que ele fez; não há relatos nem imagens sobre o que ele foi que possam contaminar seus escritos. Se o poeta inglês conseguiu nos ocultar “seus rancores, suas invejas e antipatias”, é também graças a esse elegante silêncio que “sua poesia brota dele livre e sem empecilhos”. Tal é a constatação de Virginia Woolf: se alguém conseguiu exprimir completamente sua obra, longe das vãs poluições biográficas, esse autor foi William Shakespeare.

Contudo, esses detalhes extra-literários sobre quem ele realmente foi, são criados e recriados sem pausa, são pesquisados com avidez de provas e citação de fontes. Outro exemplo dessa intensa procura é o livro de Brenda James e William Rubinstein, medonhamente intitulado “A Verdade Será Revelada: Desmascarando o Verdadeiro Shakespeare”. Procura-se preencher com informações reais essa mudez intolerável, que se couraça na mais perfeita ficção e se recusa a dela sair.

Mas essa ferrenha busca pelo real-banal tampouco perdoa outras figuras históricas, que por terem vivido em épocas distantes do nosso culto à personalidade espetacularizada, deixaram pouco material para as especulações acerca de seus cobiçados eus. Nesse descuido deixaram, apenas, suas obras.

Um livro recentemente publicado por uma reconhecida especialista na “Divina Comédia” de Dante Alighieri, por exemplo, trouxe algumas “escandalosas revelações” que a mídia logo divulgou. O livro desvendava “a verdadeira origem das visões dantescas” do inferno e do paraíso, descritas pelo poeta florentino há sete séculos. Eis a revelação: “Para se inspirar, Dante ingeria substâncias estupefacientes como cannabis e mescalina”.

Foram apenas umas poucas linhas referidas ao assunto em um livro de 500 páginas sobre a vida (e a obra) do escritor italiano, mas também é claro que foi somente essa questão que conseguiu despertar o interesse midiático acerca de um tema tão pouco atual. Um dos mais prestigiosos cadernos literários britânicos, o “Times Literary Supplement”, estampou na capa a seguinte manchete: “Dante drogado”.

De modo semelhante, aproveitando o quarto centenário da publicação do “Dom Quixote”, dezenas de livros foram lançados sobre assuntos reais ligados ao célebre romance de Miguel de Cervantes Saavedra, que ainda lidera o cânone da literatura espanhola. Passando por alto o pequeno detalhe de se tratar de uma ficção escrita há 400 anos, o mercado editorial não poupou seus pesquisadores: qual seria o verdadeiro vilarejo do qual o engenhoso fidalgo partira, quais eram os alimentos que ele realmente consumira e até mesmo quem teria sido a dama real que inspirara o personagem de Dulcinea del Toboso.

Uma reportagem advertia, inclusive, que “12 cozinheiros se comprometeram no projeto de fazer um livro de receitas baseado no ‘Quixote’”, arriscando que tal obra poderia terminar “sendo traduzida para tantas línguas como o próprio ‘Quixote’; por enquanto, cogita-se a tradução para o inglês e o japonês”. Levando em conta o sucesso da gastronomia no mercado editorial contemporâneo, a culinária quixotesca pode mesmo chegar a vender mais do que o próprio romance no qual se inspirara.

Mas a fictícia Dulcinea não está sozinha nesta ansiosa busca atual de realidade. Também proliferam obras dedicadas a revelar a verdadeira identidade da Mona Lisa, para citar outro exemplo típico, especulando sobre quem foi realmente a mulher que 500 anos atrás pousara para os pincéis de Leonardo da Vinci.

A popularidade deste último artista tem aumentado bastante ultimamente; mas tal incremento não decorre de suas famosíssimas obras de arte: deve-se ao sucesso de um best-seller como “O Código Da Vinci”, de Dan Brown, que já vendeu 50 milhões de exemplares em mais de 40 línguas e transformou seu autor em uma celebridade milionária.

Esse livro conseguiu extrair todo o proveito da ambigüidade que floresce entre as fórmulas da ficção e da não-ficção, dando à luz, inclusive, a outras publicações que se debruçam sobre os assuntos tematizados neste texto -e que também lideraram, durante vários meses e inclusive anos, as listas de best-sellers do mundo inteiro (neste caso, as de não-ficção).

“São mais de 12 livros publicados sobre o tema, quase todos mostrando que as argumentações de Brown são falhas ou incríveis, esquecendo-se que o livro pertence ao território da ficção”, advertia um artigo da “Folha de S. Paulo”. Mas desse celeiro surgiram também guias de turismo e roteiros de viagens, palestras e objetos de decoração inspirados no livro, até o inevitável filme com estrelas de Hollywood. Cabe imaginar, ainda, algum volume belamente encadernado que reúna misteriosas receitas de cozinha bíblico-conspirativas, por que não?

Aliás, pelo menos um livro de receitas já foi lançado sob o amparo desse sucesso, com uma repercussão considerável: trata-se do “Códice Romanoff”, um manuscrito a partir do qual foram publicadas, em várias línguas, os “Cadernos de Cozinha” atribuídos a Leonardo da Vinci -embora sejam muitas as dúvidas acerca da sua autenticidade, receios escassamente mencionados nas luxuosas edições da obra.

As anotações se referem aos esdrúxulos manjares cujo preparo Da Vinci ordenava na corte de Ludovico Sforza, em pleno século XV. Todo esse merchandising, porém, foi engendrado no bojo daquele outro códice best-seller: o livro de Dan Brown, que tão bem soube capitalizar as perplexidades que assombram as fronteiras entre ficção e não-ficção.

Insistindo no tema, um estudioso da genealogia das famílias de Florença comunicou à mídia o resultado de suas pesquisas, que foi logo reproduzido em todo o planeta: o pesquisador localizara “as últimas herdeiras da Mona Lisa”. Duas jovens italianas descendentes da nobre família Strozzi, que no século XIV foi a grande rival dos Médici, foram fotografadas no Museu do Louvre e cotejadas com o retrato da Gioconda, pois o célebre quadro teria imortalizado o rosto de sua ancestral Lisa Gherardini.

Em 1495, aos 16 anos de idade, essa jovem florentina casou com Francesco Bartolomeo del Giocondo, um rico comerciante de seda que teria encomendado o retrato de sua esposa em 1503. “É pouco o que se sabe da Mona Lisa, salvo que levava una existência reclusa e discreta em sua casa familiar da rua Della Stufa”, revela o pesquisador. “Morreu no dia 15 de julho de 1542 e foi inumada no convento de Santa Úrsula; a linha direta de Del Giocondo extinguiu-se no final do século XVII, mas sobreviveu pelo ramo feminino.” Eis toda a relevância dessa informação real.

“É possível que a ‘Mona Lisa’ se pareça com a dama cujo retrato pintou Leonardo da Vinci”, afirma o crítico de arte Ernst Fischer: “Mas o seu sorriso está além da natureza; não tem nada a ver com ela e depende absolutamente da experiência vivida, do conhecimento alcançado pelo homem para quem a dama posou como modelo”. Uma obviedade capaz de invalidar todo interesse na verdadeira (e, pelo visto, pouco transcendente) Lisa Gherardini. Porém, como vemos, não é isso o que ocorre hoje em dia...

“Quando Picasso começa a pintar um objeto tal como a natureza o fez e depois vai renunciando aos poucos ao parecido superficial por meio de um esforço gradativo de simplificação, de concentração”, continua Fischer, “com isso se revela paulatinamente uma realidade mais fundamental”. No entanto, não é essa realidade mais fundamental, revelada em ocasiões pela arte, o que parece interessar ao ávido público contemporâneo.

Em vez disso, há uma vontade de saber tudo acerca daquela outra realidade mais rasteira e supostamente mais real: interessa saber quem era realmente essa mulher que posou para Picasso, qual era a sua relação com o pintor, como se chamava, qual era seu aspecto físico, por que ela estava aí naquele dia, como era sua história familiar, qual era seu signo no horóscopo etc. E se tudo isso for mostrado em uma tela, então melhor ainda. Não é preciso esclarecer que isso já aconteceu, de fato, no filme “Os Amores de Picasso”, de James Ivory (1996), bem como em incontáveis publicações impressas e produtos audiovisuais.

Percebe-se, nesse movimento, uma persistente obsessão pelo nível mais epidérmico do verdadeiro: uma busca da real thing, por mais banal que seja. Segundo Umberto Eco, essa fixação pelo real reside no âmago da tradição cultural dos Estados Unidos; hoje, aos compassos da globalização, essa tendência penetra os mais remotos cantos do planeta. O assunto é destrinchado com boas doses de humor e agudeza nos ensaios do crítico italiano sobre o hiperrealismo e a “irrealidade cotidiana”, redigidos na década de 1980.

Entre os inúmeros exemplos comentados pelo autor, cabe mencionar os museus californianos onde é possível observar uma ‘Mona Lisa’ mais real do que o célebre quadro renascentista, e até mesmo mais real do que aquela dama italiana resgatada pelos pesquisadores florentinos. Neste caso, a real thing aparece em uma cena tridimensional e hiperrealista (ou surrealista?), que recria em cera as figuras do artista e da modelo em plena realização da obra.

Não surpreende, enquanto continua a crescer essa voracidade pelo consumo de vidas alheias e reais (mesmo se estas revelam apenas uma “realidade rasteira”), que as ficções tradicionais estejam se hibridizando com a não-ficção -esse novo e ambíguo gênero hoje triunfante.

Cada vez mais, a mídia reconhece e explora o forte apelo implícito no fato de que aquilo que se diz e se mostra é um testemunho vivencial: a ancoragem na “vida real” torna-se irresistível. Mesmo que tal vida seja absolutamente banal -ou melhor: pelo menos em certos casos, especialmente se ela for banal. Ou melhor, ainda: sublinhando aquilo que toda vida tem de banal e “rasteiro”, inclusive à vida dos grandes artistas.

“A ficção é como uma teia de aranha amarrada à vida, muito levemente talvez, mas amarrada pelos quatro cantos”, explica Virginia Woolf no ensaio antes citado. “Às vezes esse laço é apenas perceptível; as obras de Shakespeare, por exemplo, parecem permanecer suspensas por si sós”, evocando as escassas informações que temos sobre a vida pessoal deste ficcionista, que não chegam a perturbar nossa relação quase direta com seus textos. “Mas quando a teia é esticada, prende-se do lado, rasga-se ao meio”, então subitamente lembramos que essas teias de aranha “não são feitas no ar por criaturas incorpóreas”, escreve ela.

1 - Woolf, Virginia. "Un Cuarto Propio y Otros Ensayos". Buenos Aires: A-Z Editora, 1993, p. 77.


2 - Fischer, Ernst. “El Problema de lo Real en el Arte Moderno”. In: "Realismo: Mito, Doctrina o Tendencia Histórica?". Buenos Aires: Ediciones Lunaria, 2002, p. 68.

 
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