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prosa.poesia
INÉDITO

Uma alegoria doméstica
Por Wilson Bueno

Leia um trecho do livro “A Copista de Kafka”, de Wilson Bueno, que está sendo lançado pela editora Planeta

A xícara, a velha xícara estava ali, há mais de quarenta anos, servindo ao corpulento e sangüíneo Hermann, com uma exclusividade quase imperial. Ele, somente ele, no cotidiano da casa, era seu dono e senhor -lavando-a e enxugando-a com desvelo, após o uso, como a lavara e a enxugara após o uso, com igual desvelo, também por longos anos, o senhor seu pai.

Ao acordar, indisposto, e ainda mais falho, naquele sábado gelado da Cidade Velha, o guinchar dos bondes nos trilhos a invadir a casa de dois andares detrás da loja, o jovem K. sofreu, ainda uma vez, em novo despertar, agônico, a inenarrável travessia do equilibrista. O alto risco de outra manhã convertida em testemunha –aterrada- do novo dia que, desde cedo, já o interpelava a figura magriça e enferma. Acossada, a manhã, minuciosa; a manhã feito uma deusa cáustica e carniceira.

E era nelas, nas manhãs, que K. experimentava, mais do que em qualquer outra hora do dia, a oscilante ameaça de todas as superfícies estáveis. Uma incerteza que abrigava, entre outras angústias, a sombra de um enforcado no escuro, a constatação sempre estúpida da repetida morte das coisas -desde a das prosaicas cadeiras da casa à abóboda pesada e grandiloqüente da igreja de Santo Agostinho, do outro lado da rua.

Caminhando, a medo, a casa deserta -a culpa de, ao demorar-se no sono, haver perdido os ofícios do Sabat, pesava-lhe sobre os ossos; e o demolia. Pressagiava neste momento, a segurar com a mão a boca do estômago -o ventre afundado e magro-, a esquiza atmosfera da cozinha aonde chegou, o passo miúdo, a fim de tomar um copo d’água ou, quem sabe, mesmo que morno, o chá do samovar de prata que a mãe Julie costumava deixar na pequena mesa entre o fogão e a pia da cozinha.

Exausto ainda da noite maldormida, a sentir algo ou alguma coisa como que suspenso por um fio sobre a cabeça zonza, foi aí, novo frio no estômago, que enxergou: ela, a velha xícara do pai, sagrada herança do avô, perigosamente abandonada à beira da mesa; a rigor não se sabe porque desígnios, ali, milagrosamente sustentada. K. percebeu, sobressaltado, que a xícara poderia se espatifar ao chão e, com ela, mais de quarenta anos em que, primeiro o avô e, agora o pai, bebiam nela, pelo Sabat, sem falhar nunca, o chá de artemísia com que amenizavam o jejum dos dias religiosos. E o Sabat, K. não ignorava -de todos os dias da semana, era o mais santo, de louvor a Joshua e de aplicada contemplação do sagrado.

A xícara ali, a dois metros de sua figura amarfanhada, justo no pânico instante do despertar que sempre foi para ele invariável salto no escuro; a xícara ali, na arrepiante iminência de cair da mesa. O vento, o trepidar mais vigoroso de um bonde na rua ou mesmo, ainda que leve, o pisar desajeitado no assoalho, poderiam derrubar a xícara ao chão e aí, está claro, a catástrofe seria completa.

Por alguns segundos pensou em retornar ao quarto, tamanho o temor que o apoderou feito um calafrio convulso, de que a xícara, ah! a xícara de Hermann!, se quebrasse em mil cacos, trincada já que estava por mais de quatro décadas de uso.

Foi então que K. viveu na pele o primeiro movimento impetuoso do dia: ainda que de pernas trêmulas e gestos lentos se decidiu por salvar a xícara dos escombros da manhã, providência que, em sendo amorosa, dedicava, naquele Sabat, ao velho Hermann, sempre zeloso de seus objetos domésticos. Levando a mão magra à xícara sobre a mesa, colheu-a com excessivo impulso, bem maior do que a situação parecia exigir, segurando-a com vigor pela asa. Sem mais demora, a conduziu, apertada entre as mãos, até a pia da cozinha. Um resto, um oloroso resto de chá de artemísia, via-se ao fundo da xícara. Com cuidado, ainda que as mãos pudessem traí-lo, e este era o seu maior medo de viver, K. se decidiu por lavar, a água jorrando da torneira, a velha xícara, objeto de tanta história ao longo dos anos.

Outra vez guincharam, estrepitosos, os bondes nos trilhos. Ruídos e faíscas; incertos os oscilantes veios do chão; louças e panelas ao fundo da pia; a xícara, sob a água da torneira, já brilhava, enxaguada do sabão e da espuma. Com o pano de prato, paciente, ainda que muito excitado, K. enxugou, minúcia de filho amoroso, o que sabia constituir o objeto mais cultuado por Hermann em toda a história doméstica da casa. Não era de todo mal o gigante, pensou K. em novo momento dedicado ao pai, como quem dedicasse, ao Sábado litúrgico, um gesto, uma contribuição, por menor que fosse. Tudo, sem erro, lhe vinha direto da alma grata ao velho genitor que, afinal, lhe dera a vida e, lá ao seu jeito, o amava, o amava, sim, ainda que de um modo rude e às vezes meio atrapalhado. Ah, não fossem as Letras, por certo teria dado a Hermann a alegria que a sua natureza inextricavelmente dúbia nunca fôra capaz. Mirava e remirava a xícara avoenga, agarrando-a firme, com a mão inteira a apanhar o objeto.

Os bondes, o frio, uma réstia de sol cortou a cozinha em dois, quando, a xícara ainda na mão, K. abriu a porta que dava para o pequeno pátio, nos fundos da casa. Ninguém sabe nem jamais saberá o que se deu naquele instante de abismo -as pernas frágeis, o desequilíbrio, a manhã aziaga do gelado Sabat, a xícara escapou-lhe repentinamente das mãos suadas e, caindo ao ladrilho da cozinha, espatifou-se com um barulho em estilhaço, e lancinante.

Entre o delírio e o susto, o pesadelo e a espessa angústia, K. ficou de quatro no chão, a catar, ansioso, quase às lágrimas, caco a caco do que fôra a relíquia de Hermann. Sem que mudasse de posição, ouviu que o pai, a mãe e a irmã Ottla destrancavam a porta de entrada da casa, entre álacres e buliçosos.

Imobilizado de quatro na cozinha a recolher os últimos cacos, gelou ao descortinar, de baixo para cima, ocupando quase toda a porta da cozinha, a figura do gigante Hermann, ainda mais corpulento e ainda poderosamente mais alto. Pudesse, jamais abandonaria a posição que o tornava assim como uma espécie aviltada de animal sem dono. Não foi preciso esperar muito -de Hermann veio o bafo, um dragão que libertasse por todos os buracos da grande cara sangüínea, as chamas e as labaredas de um ser possuído pela mais escura cólera:

– Franz, por favor, te peço -nem levanta daí... Que houve? Foi a xícara, foi? Não acredito, não pode ser... Foi a xícara, foi? Não pode ser- quarenta anos cuidei desta preciosa relíquia... Mais que relíquia, Franz, verdadeira jóia de família! E vem você, rato molhado, destruir um patrimônio desta casa de bem... É do seu jeito e feitio isso, Franz! Sempre foi!

Ainda de quatro, K. tenta uma explicação:

– Eu só queria... – a figura descarnada no chão, um fio de voz. – Eu só queria ajudar... A xícara estava quase caindo da mesa, meu pai, quando...

– Ajudar? Então ajudar é isso? – ironizou raivoso um Hermann apoplético. – Isto não é ajudar, isto é destruir quarenta anos de história familiar, seu verme! Não, não levanta daí... Fica aí, Joshua que me perdoe, no lugar do cão, boneco de pano sem cepilho!

– Mas, meu pai, eu só...

– Eu só nada!... Você não é o rato que eu sempre pensei... Não, pior que isso – você é uma lesma inútil... Quantas vezes eu quis te dar um futuro!? Quantas vezes desejei para você o mundo frutuoso do comércio... E você, no que deu? No que deu você, Franz? Nesse animal inferior que nem parece gerado por mim... Não tem ambição, é fraco de idéias... Não sei se inseto ou verme, só sei que fraco das idéias... O dia e a noite inteiros trancado naquele quarto a ler e a escrever, a se ocupar com essas coisas de mocinha... Um inútil, um acabado inútil, é o que é você, Franz! Não, você não é nem nunca foi um de nosso família... Errou de destino, errou de vocação e não teve pena desse pobre pai que sempre quis vê-lo uma força da natureza... E o que você é? Filho meu não é! Nem neto de seu avô, não é! Isso também não!

A apoiar-se na parede, buscando erguer-se do chão, K. alcançou, só não se sabe através de que prodígio, ficar em pé. Um caniço ou uma vara não tremiam mais ao se pôr quase à altura do ombro do pai. Curvo, e ainda mais derrotado, desviando-se do gigante que, de novo, tomava todo o espaço da porta da cozinha, esgueirou-se, como se a pedir licença ao mundo, aos bondes que, ruidosos, na rua, continuavam a arrancar fagulhas dos fios, esgueirou-se em direção da escada que levava ao segundo andar da casa, e à sua toca. Antes que pisasse o primeiro degrau, Hermann voltou-se e, agarrando-o com mãos enormes o colarinho, por trás, o sacudiu em novo acesso de fúria. Julie e Ottla haviam desaparecido da sala, decerto trancadas em seus quartos.

Hermann olhou –terrível- para o teto, a barba hirsuta, os cabelos já ralos num desalinho de quem sacudira, muitas vezes com violência, a cabeça atormentada.

– Olha pra mim! – rugiu. – Olha pra mim, Franz, e agora! Onde vai buscar outra xícara? Nos teus versos, vai? Nesta porcariada que escreve trancado no quarto, vai? Me diga, da onde vai tirar toda uma história de família, do seu falecido avô?... A xícara, Franz, nunca mais...

Abatido e desolado, o velho Hermann, parece, havia diminuído de tamanho e buscou, cambaleante de raiva, a porta da saída.

Do terceiro lance da escada, juntas as duas mãos a segurar o corrimão, K. viu o gigante de trás e teve muita pena dele, de suas costas largas e da gola do paletó puído na nuca onde, grisalhos, os cabelos, necessitados de barbeiro, se misturavam. Notou que também as barbas do velho Hermann, descuidadas, branqueavam.

Incapaz de subir novo degrau da escada, K. viu a porta ser fechada com violência pelo pai. Pudesse, permaneceria ali, as mãos apoiadas ao corrimão, as duas, muito juntas, para sempre. Sentiu, contudo, quando o corpo fraco, não respondendo ao seu comando, amoleceu sentado sobre o degrau de madeira.

Lá fora, os bondes voltaram, ainda uma vez, a guinchar nos trilhos. A manhã suspensa, o dia derruído e, o coração pequeno, inclinou a cabeça e, baixinho, bem baixinho, o queixo quase encostado ao peito, soluçou longa, demoradamente.

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Wilson Bueno
É escritor, autor, entre outros títulos, do livro de fábulas "Cachorros do Céu" (ed. Planeta), que esteve entre os finalistas do prêmio Portugal Telecom de 2006.

 
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