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prosa.poesia
LENDA

Pra lá do Marrakech
Por Sergio Téllez-Pon

Ao cantar os rituais de um velho bordel masculino, Juan Carlos Bautista criou um livro mítico da poesia mexicana

Durante muito tempo o “Cantar del Marrakech”, de Juan Carlos Bautista (Tonalá, México, 1964) foi quase uma lenda dentro de certos círculos literários. Quem o lera no tempo da sua aparição recomendava às novas gerações essa leitura que se julgava imprescindível. Contudo, por ter sido aquele livro publicado por uma editora oficial, a difusão tinha-se limitado bastante e foi por isso que os jovens só conseguíamos ler em versões xerografadas ou em algum exemplar emprestado nos anos mais recentes. Acresce que Bautista se retirou por algum tempo do ambiente das letras e esse seu ocultamento também contribuíra para firmar a história oral e quase mítica em torno do livro.

O Marrakech, ao qual as travestis “chamavam alegremente:/ O Garra/ O Garrakech ou o Marranech”, era um bordel masculino situado numa rua atrás do Palácio de Belas Artes, no chamado centro histórico da Cidade do México. Funcionou do fim dos anos 70 até 1985, quando o grande terremoto de 19 de setembro sacudiu a cidade e devastou boa parte das construções históricas desse centro, entre elas, claro, o local do Marrakech.

Até hoje não voltou a surgir um lugar tão emblemático nas noites mexicanas -porém longas e intensas-, pois com a “normalização” da vida gay esse tipo de estabelecimento, com toda a adrenalina que continha, já não mais parece necessário.

Embora esteja estruturado sobre poemas onde cada um aborda personagens daquele antro (as “loucas”, os “michês”, os “bofes”, “Diabla la Grande”, Hugo, ou “Jana de la noche”) e conte uma história acontecida entre as paredes do local, o fato é que o texto, como conjunto, pode ser lido como um só e único poema, certamente esse “cântico” mencionado no título, e sem que por isso a potência lírica diminua.

Foi reeditado em 2005 (também por uma editora estatal em co-edição com uma pequena editora já desaparecida), e a leitura do poema ganhou uma aura que veio confirmar seu lugar, merecido, diga-se, nas antologias e nos estudos dos últimos anos, elaborados por críticos e poetas bastante diferentes.

Assim, unanimemente consagrado pela crítica e pelos poetas, o “Cantar del Marrakech” descreve um ritual exacerbado, em particular no que se refere à paisagem sexual. De fato, pode-se dizer que o gay imprime ao conjunto um tom de ritual: o cerimonial como característica intrínseca das minorias sexuais, neste caso o travestismo e o universo “macho” que cede ao encanto do homoerotismo, num gesto bem reconhecível do homem latino-americano.

Quando escrevo isto ocorrem-me muitas imagens, mas sou tomado por uma em particular, do “Diário de um Ladrão”, de Jean Genet: quando um grupo de Carolinas desce uma das “ramblas” barcelonesas para depositar um mijadouro que fora arrancado pouco antes da parede, onde milhares de marinheiros urinaram ao longo dos anos. “Quando se constatou sua morte definitiva, com mantos, com rendas, com vestidos de seda, com jaquetas apertadas, as Carolinas -nem todas, mas uma delegação solenemente escolhida- vieram ao terreno depositar um buquê de rosas vermelhas cercado de um véu de crepom”, escreve o francês.

Também como Genet, Bautista atribui um estatuto seráfico aos “bofes” e aos “michês”, esses anjos rilkeanos “de morena brutalidade”, caídos em Sodoma esquina com Gomorra. Beatifica os travestis, santifica os “recos” e os soldados, leva até os máximos altares a Pica, santa patrona do Marrakech: “Catedral afundada no sonho/ entre onírias espreitando”. Ali, onde nascem as relações apaixonadas de uma noite, e também onde convivem as desgraças amorosas. No sono e no sonho letárgico da noite e seus excessos, onde surge o sexo potenciado pelo álcool, pode-se ver que “há um homem que se ajoelha frente a uma pica como frente a uma cruz” e, por seu lado, nos oratórios “as loucas começavam a rezar”. De tal maneira que este bem poderia ser o pós-moderno “Cântico dos Cânticos” dos homossexuais e dos travestis.

Certamente Bautista começou a escrever seu livro depois que o Marrakech desapareceu (no fim descreve-se um peregrinar pela Alameda Central, esse conhecido lugar de pegação próximo ao local onde se situava o bordel -na falta do santuário de antes, quase como na procissão das Carolinas narrada por Genet), e o autor foi trabalhando o poema, “à pena lenta” durante algum tempo, até que em 1993 o texto conheceu sua primeira edição.

O primeiro livro de poemas de Bautista, “Lenguas en Erección” (1990) é muito diferente do “Cantar”: o futuro tom passa nele quase despercebido e apenas alguns poemas de uma seção daquele livrinho anunciam a voz inconfundível do seguinte. Em “Bestial”, o livro de poemas de 2003, pode-se reconhecer só em parte a estética daquele “Marrakech”.

Numa leitura muito contemporânea, o “Cantar del Marrakech” exibe uma surpreendente correspondência literária com as crônicas extraordinárias do chileno Pedro Lemebel. Em “Loco Afán” (1998), por exemplo, também balançam as ancas fictícias dos travestis nas ruas noturnas de Santiago, onde os militares procuram saciar a sede de sexo.

Há, além disso, a prosa barroca, a linguagem literária enriquecida pela gíria, o tom corrosivo, o ambiente sórdido e ao mesmo tempo alegre, as imagens kitsch, o insulto a flor de lábios saindo dessas bocas viperinas, tudo acontecendo nessa “Capela Sixtina da sodomia” (Lemebel). Bautista inscreve-se na estirpe de poetas homossexuais das letras mexicanas, ao lado de nomes como Xavier Villaurrutia, Guillermo Fernández, Baudelio Lara, mas especialmente junto de Salvador Novo e sua “Sátira”, e da fortaleza da linguagem lúdica de Abigael Bohórquez, o escritor de Sonora (Norte do México).

Aparentemente Bautista tem sido sempre um “habitué” de certos lugares gays. Agora pode ser visto no El Viena ou no El Oasis, duas cantinas contíguas, também no centro da cidade, freqüentadas pela mesma fauna urbana que comparece, como outrora no Marrakech, para cantar “rancheras” ou baladas de divas fugazes ao calor da tequila e da cerveja, e onde surge, como no “Cantar”, “um bando de picas” que no poema gritavam “cuir! cuir! cuir!”


“CANTAR DE MARRAKECH”, de Juan Carlos Bautista
(Dois primeiros fragmentos do livro-poema)
Tradução de Alfredo Fressia

I

Atrás de cortinas de nervos e tonturas,
catedral afundada no sonho
entre onírias espreitando,
estava o Marrakech.

Os caça-níqueis punham seus corvos para voar
e as loucas,
de risos lantejoulas,
encharcavam de olhares o ar.

As bagunceiras, as meigas,
as mornas, as azedas:
nascidas do seu amor medroso
e do cheiro triste da sodomia.
Com seus gestos como punhos
e as mãos cheias de fervor, ladravam:
virgens urrantes
de tardes em declive e noites sem trégua,
estendidas sob o sol baixeiro dos abajures.

No Marrakech eram soberanas,
cruzavam as pernas como senhoritas
e riam como putas.
Obscuras e alegres como algo que vai morrer.

Elas,
as sem vértice,
com o vinagre sempre na língua

e a sede
e a quentura dessa sede.

Iam ao Marrakech exalando cheiro de portos
e cidades de noite.
Rainhas amarelas,
roxas
carregadas na cor.

Rainhas de melancólico fumar
que fitavam descaradas o peixe dos homens,
atrás de cílios egípcios e letargias abissínias.
Cheias de pressentimentos,
fiéis ao embuste,
leves e estridentes como plumas,
passeavam o ódio, a ternura,
a bunda esplêndida,
ao acaso das mesas,
girando com o hábito furioso do inseto.

Iam ao Marrakech e o chamavam alegremente:
O Garra.
O Garrakech ou o Marranech.
Enfeitiçadas ante esse nome crispado e seu conjuro.

—Vamos ao Garra, querida.
Há uma louca que dá voltas.
Há uma bicicleta que anda sozinha.
Há um homem que se ajoelha frente a uma pica
como frente a uma cruz.
Há esfíncteres que são grandes oradores.
Há um pulha lambendo a própria empáfia.
Há um marmanjo com a garganta à meia fúria.
Há um menino com os olhos fechados.
Há paredes para lá de verdes.
Há uma louca que anda sozinha,
como uma bicicleta sozinha,
tão só que dá medo.
—Vamos ao Marrakech, queriiida.

E as nádegas se enchiam.
E os cus abriam-se como boquinhas.


II

Com a fuça inclinada sobre o peito,
a careta de fumaça
e a cerveja a um lado,
os michês,
com a braguilha inchada pelo medo,
vendiam seu lado salobro.

Anjos suntuosos,
anjos pérfidos e doloridos,
gabriéis capitães de lábios arrebentados,
úmidos como tubérculos
que nascem gritando da terra
sua morena brutalidade.

Rebentos do Senhor e da Satanasa,
com sua branca flor crescida no ventre
e o coração açulado pela culpa,
olhavam de soslaio,
ungidos de mágoa,
e sua ereção era uma crueldade refinada.

Obeliscos que se alçavam contra a ruína da noite,
corpos duros e ternos,
com sua luz insidiosa e hábil para o despojamento.
Anjos contra o instinto
que cuspiam os escarros na testa do doente
e no peito de quem guardava,
ruborizado como uma menina,
o coração quente e triste.

Na penumbra do Marrakech
alçavam os sovacos cheios de resplendor
e levantavam vôo até alturas de vertigem
—seu limpo gesto gregoriano.
—E as loucas começavam a
rezar.


CANTAR DE MARRAKECH

I

Tras cortinas de nervios y mareos,
catedral hundida en su sueño
entre onirias agazapadas,
estaba el Marrakech.

Las rocolas echaban a volar sus cuervos
y las locas,
de risas lentejuelas,
empapaban el aire de miradas.

Las liosas, las dulces,
las tibias, las acedas:
nacidas de su amor asustadizo
y del husmo
triste de la sodomía.
Con sus gestos como puños
y las manos llenas de fervor, ladraban:
vírgenes berriondas
de tardes en declive y noches sin tregua,
tendidas bajo el sol bajuno de las lámparas.

En el Marrakech eran soberanas,
cerraban las piernas como señoritas
y reían como putas.
Oscuras y alegres como algo que va a morir.

Ellas,
las sin vértice,
con el vinagre siempre en la lengua

y la sed,
y el ardor de esa sed.

Iban al Marrakech exhalando olor de puertos
y ciudades de noche.
Reinas amarillas,
amoratadas,
subidas de color.

Reinas de melancólico fumar
que oteaban descaradas el pez de los hombres,
tras pestañas egipcias y dolencias abisinias.
Henchidas de presentimientos,
fieles a su embuste,
ligeras y estridentes como plumas,
paseaban su odio, su ternura,
su culo espléndido,
entre el azar de las mesas,
girando con el hábito furioso del insecto.

Iban al Marrakech y lo llamaban alegremente
El Garra.
El Garrakech o el Marranech.
Hechizadas ante ese nombre crispado y su conjuro.

—Vamos al Garra, querida.
Hay una loca que da vueltas.
Hay una bicicleta que camina sola.
Hay un hombre que se hinca frente a una verga
como frente a una cruz.
Hay esfínteres que son grandes oradores.
Hay un cábula lamiéndose las ínfulas.
Hay un gandul con la garganta a media furia.
Hay un niño con los ojos cerrados.
Hay paredes pasándose de verdes.
Hay una loca que camina sola,
como una bicicleta sola,
tan sola que da miedo.
—Vamos al Marrakech, queriiida.

Y las nalgas se inflaban.
Y los culos se abrían como boquitas.


II

Con la jeta reclinada en el pecho,
la mueca de humo
y la cerveza a un lado,
los chichifos,
con la bragueta hinchada por el miedo,
vendían su costado salobre.

Ángeles suntuosos,
ángeles pérfidos y adoloridos,
gabrieles capitanes de labios reventados,
húmedos como tubérculos
que nacen gritando de la tierra
su morena brutalidad.

Retoños del Señor y satanasa,
con su blanca flor cuajada en el vientre
y el corazón azuzado por la culpa,
miraban de soslayo,
ungidos de resentimiento,
y su erección era una crueldad refinada.

 
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