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entrevista
ÉTICA

A couraça moralista
Por Humberto Pereira da Silva

Para Renato Janine Ribeiro, Brasil tem pavor de discutir a política de fato e se esconde num “moralismo simplista”

Um dos intelectuais mais conhecidos e respeitados do país, o ensaísta e professor de filosofia Renato Janine Ribeiro, além do trabalho universitário, tem ampla participação no debate público sobre os mais variados temas -da análise de programas televisivos à discussão da violência no Brasil- em diversos órgãos de imprensa.

Recentemente, no caderno “Mais!”, do jornal “Folha de S. Paulo” (18/02/2007), escreveu polêmico artigo (“Razão e sensibilidade”) sobre a morte do garoto João Hélio, assassinado durante um assalto no Rio de Janeiro. O artigo, escrito em tom emotivo, causou grande impacto no meio acadêmico e intelectual pelo modo como o professor repensa sua posição contrária à adoção da pena de morte.

Janine acaba de lançar o livro “A Ética na Política” (Lazuli Editora, 165 págs.), no qual reúne artigos que escreveu desde o início dos anos 90, sempre numa linguagem clara, precisa, envolvente e desconcertante. No livro, ele analisa temas como o caráter teatral da representação política, a idéia de revolução, a democracia, a república e a cultura política brasileira. Autor de várias obras importantes do pensamento político brasileiro, como “A Última Razão dos Reis” (Companhia das Letras) e “A Marca do Leviatã” (Ateliê Editorial), ele ganhou o Prêmio Jabuti 2001, em ensaio e ciências humanas, com "A Sociedade Contra o Social: O Alto Custo da Vida Pública no Brasil” (Companhia das Letras e Fundação Biblioteca Nacional, 2000). Atualmente é diretor de Avaliação da Capes, órgão incumbido de avaliar os programas de mestrado e doutorado no Brasil. Na entrevista a seguir, em que discute seu novo livro, ele diz que é equívoca a defesa dos criminosos pelas esquerdas. “Parte de nossa esquerda passa o tempo desresponsabilizando as pessoas. Quando João Hélio foi assassinado, li gente que tinha mais pena dos assassinos do que dele”, afirma. Para Janine, “o Brasil tem pavor de discutir a política enquanto política e se asila no moralismo simplista”. “Nossa discussão é muito pobre”, ele conclui.

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Em “A Ética na Política”, você observa que “a filosofia política sempre se escreve em estado de urgência”. Com essa afirmação, tenho em vista o artigo, “Corrupção em casa: os perigos do universal”, escrito em 1990 para a “Teoria e Debate”, em que se discute a questão da corrupção no PT à época. No começo da década passada se fez “urgente” colocar em pauta a corrupção no âmbito do PT. Passados 17 anos, como você entende que se deva tratar essa questão?

Renato Janine Ribeiro: Meu artigo de 1990 acabou tendo um impacto dentro do PT maior do que imaginei ou esperei. Creio que, combinado com um amadurecimento do partido, ao qual nunca me filiei, contribuiu para entender que não há o lado da verdade, do bem e do certo, que poderia fazer uso de qualquer meio, lutando contra o lado da mentira, da falsidade e da opressão, que sempre estaria errado.

Quando próceres do PT ou de partidos próximos a ele foram acusados de corrupção, creio que ressoou o mesmo problema: alguns deles, de boa fé, usaram de meios errados. Boa fé aqui é tanto uma atenuante como uma agravante. O grave é que políticos com uma história decente se vejam levados a práticas talvez criminosas. É o que chamo corrupção pós-moderna.

A corrupção antiga era dos costumes: homens afeminados, mulheres adúlteras. Já a corrupção moderna é um tipo de furto: o privado apropria-se do bem público. E a pós-moderna é: quem está no poder desvia dinheiro público para fazer campanhas, ou seja, para continuar no poder. Ficar no poder vira fim em si. A corrupção não é necessariamente para a pessoa se enriquecer. Valdomiro Diniz pediu para ficar com 1% do que arrecadou! Isso cobriria provavelmente o CPMF e um cadastro bancário. É patético.

Na verdade, hoje, a corrupção antiga se chama liberdade de costumes, e não abriremos mão dela. A corrupção moderna é um crime claro, e deve ser punido, mas penso que está diminuindo, embora seja quase impossível medi-la (os índices mais usados, para a corrupção, são os “de percepção da corrupção”, que são duvidosos: e a corrupção bem feita, que não é percebida?).

O grave é a corrupção pós-moderna. Gente decente, de vários partidos, pode estar incorrendo nela devido aos custos de campanhas. Sem resolver o financiamento dos partidos e o tipo de campanha, não há jeito. Parece que só temos duas saídas para isso. Uma é a lista fechada, proposta pelo DEM e pelo PT. Outra é o voto distrital misto, acariciado pelo PSDB. Os dois sistemas têm problemas sérios.

O primeiro tem a vantagem de manter o voto proporcional, que é mais democrático, mas pode dar poder demais à burocracia partidária; só que, se esta exagerar, os próprios eleitores a punirão, talvez não na primeira ou na segunda eleição, mas na terceira com certeza.

O segundo aproxima o eleitor do eleito, permite a revogação do mandato no distrito, mas corre o risco de baixar o nível dos deputados (que serão mais provincianos) e se presta mais a manipulações, bastando recortar os distritos de maneira maliciosa para distorcer o voto popular. Mas, fora dessas propostas, não vejo modo institucional hoje do Brasil reduzir a corrupção pós-moderna.

Um ponto adicional: no dia 8 de julho, sete páginas do primeiro caderno da “Folha” e cinco do “Estadão” tratavam de corrupção. Nem um décimo disso era dedicado a discutir reformas ou propostas políticas. Nos últimos anos, fomos zerando o debate político. Hoje ele quase inexiste. Só se fala de corrupção.


Em uma nota escrita em 2006 para esse mesmo artigo da “Teoria e Debate”, você observa que, ao contrário do que ele indica, “não pensava que a restauração do capitalismo (nos regimes comunistas na Europa Oriental) fosse ser tão rápida quanto o foi, pois imaginava que uma forma nova de sociedade pudesse surgir”. A urgência da escrita se insere nas necessidades do tempo. Com isso corre-se o risco de inevitáveis equívocos?

Janine: A gente erra. Pensei em 1989 que o comunismo podia se democratizar. Não aconteceu na Europa Oriental, nem em Cuba, China ou Vietnã. Aqui há dois problemas. Um é teórico. Uma doutrina que pretende ser a ciência da política e deriva as posições políticas de interesses econômicos não apreende o matiz do agir político e só pode lidar com o nível macro, nunca com o micro. Você não admitiria como seu interlocutor científico alguém sustentando que 2 + 2 = 5. Um marxista no poder não daria liberdade de expressão a um defensor do capital. Para ele, é tão errado quanto 2 + 2 = 5. Daí, uma dificuldade básica do marxismo com a democracia.

Mas há também um problema histórico. Em 1968, a Tchecoslováquia tentou um “comunismo com rosto humano”. A União Soviética a invadiu e acabou com um experimento que poderia ter dado certo. O mundo seria diferente e haveria, hoje, uma esquerda democrática e forte, nem stalinista nem pró-capitalista, se (Leonid) Brejnev não tivesse eliminado a última chance de o marxismo se tornar democrático. E, aí, o que eu disse acima sobre a teoria marxista teria de levar em conta as evoluções que essa teoria teria tido, e que não teve.


Penso, com isso, no artigo final do seu novo livro, “Foucault político”. Você entende que Foucault, no calor dos acontecimentos, teria errado ao se entusiasmar com a Revolução Islâmica que levou Khomeini ao poder no Irã, em 1979. Eu gostaria que você comentasse sobre esse erro do Foucault. Um pensador do porte e com a influência de Foucault escreve como “mero simpatizante”, quando, para você, a “prova dos nove, na filosofia política, reside na capacidade de inspirar o agir”?

Janine: Foucault viu no Irã um segundo Maio de 68? É quase engraçado. Errou. Não trouxe danos a ninguém com seu erro, ao contrário dos intelectuais que se entusiasmaram com Lênin ou Stalin, por exemplo. Mas mostrou assim sua dificuldade de base para inspirar um agir político macro. Foucault é ótimo na micropolítica e na denúncia. É insuficiente na macropolítica e em propostas concretas.

Perguntei uma vez a Gérard Lebrun, que foi seu amigo, o que Foucault propunha afinal para as prisões -porque parecia que ele queria soltar todo o mundo, e ponto. Lebrun me disse que lhe tinha feito a mesma pergunta, e ouviu: “Gérard, você sabe, eu queria que elas fossem mais humanas”. Só isso. Mas o que ele dá a entender nos livros é bem diferente. E Lebrun, homem de fino espírito, comentou: “Foucault dizia aos interlocutores o que eles queriam ouvir”.

Será que nós inspiramos o agir? Será que nossas teorias ajudam a gerar ações? Estou num cargo do governo, o de diretor de avaliação da Capes, cargo altamente acadêmico, em que a política partidária não pesa e conta muito o apoio da comunidade científica -um lugar, portanto, em que as teorias valem mais do que em outros espaços-, e noto que elas valem até certo ponto. Mas o agir que sempre me interessou inspirar foi outro agir, mais de baixo para cima, mais popular.


No artigo “Sartre, que engajou a filosofia na política”, você contrapõe Sartre e Foucault. Acho que seria oportuno destacar o que os separa.

Janine: Uma das coisas mais tristes é o declínio de Sartre. Ele disse bobagens, mas foi um grande pensador, assim como Simone de Beauvoir. As pessoas preferem vê-los como um casal (o que a meu ver não eram) e realçar seus erros de análise, sobretudo na sua simpatia pelo comunismo.

Acho Albert Camus, argelino branco, cindido entre sua origem e o reconhecimento dos direitos dos árabes, mais simpático do que Sartre, que apoiou uma guerrilha que cometeu atrocidades. Mas Sartre condenou o stalinismo, apoiou o que via de promissor em Cuba e também disse que “não podemos fazer Billancourt (a sede da indústria francesa) perder as esperanças”. É como dizer: “Não podemos fazer o ABC, ou os sem-terra, perderem a esperança numa vida melhor”.

Já Foucault tem a limitação que mencionei, e que hoje é freqüente: não conseguir formular um projeto global. O problema é que, hoje, a maior parte dos que têm um projeto macro é, geralmente, porque está mal informado.


Você nota que a melhor bibliografia atual repudia a imagem de um Maquiavel antiético: na obra dele não se opõe a ética a uma política sem ética. A se levar em conta uma ética subsumida em “O Príncipe”, em que medida ela influenciaria nossa ação nos dias de hoje?

Janine: Vou responder indiretamente. Que benefício nos fez o impeachment de Collor? Parecia ser a hora da ética na política. Foi? Foi bom que as instituições resolvessem uma crise séria sem golpe ou coisa parecida. Mas, tirando isso, ele caiu porque seu plano contra a inflação fracassou e, sendo um “outsider”, tinha pouco apoio político. E ficou o mito de que a ética na política era a grande questão.

Ora, quando FHC adotou as políticas econômicas de Collor, esteve blindado o tempo todo. Denúncias, certas ou erradas, não foram apuradas devidamente. O que é e foi muito ruim é que a linguagem “default” hoje para tratar da política é de um moralismo reles, a lembrar o udenismo. Retrocedemos meio século.

A questão do financiamento das campanhas foi muito menos debatida na imprensa dita séria do que as notas fiscais do gado do senador Renan Calheiros. Se o senador prevaricou, pague por isso. Mas que nós, os cidadãos e os jornalistas, gastemos mais tempo na crônica policial do que com o futuro do país, me preocupa.

Hoje, todo homem público está sujeito a ser acusado de corrupção. Há um sem-fim de controles no Poder Executivo, que às vezes vão longe demais no detalhe. Ex-reitores costumam ter processos contra eles. Puseram dinheiro no bolso? Não. Há regras meticulosas demais, difíceis de cumprir, que causam mais danos do que bem.

Devíamos substituir o controle da compra de clipes ao preço mais barato, que existe, por um conceito de responsabilidade social do gestor político. Ao fim do mandato, precisaria ter melhorado a educação, a saúde pública, enfim, um pacote de indicadores. Não poderia roubar, mas não precisaria estar sujeito a controles que custam mais caro que a falta deles.

Há movimentos saudáveis nessa direção. As “organizações sociais” criadas pelo governo passado expressavam essa necessidade de prestar menos atenção aos meios e mais aos fins -lembrar que o objetivo do homem público não é apenas, não roubando, também não fazer nada, mas é, honestamente, fazer coisas positivas. Aqui Maquiavel pode ensinar um pouco aos que, falando sem parar em moral, emperram o sistema. Imagine o que o Brasil perde quando se suspende uma licitação, um concurso, um edital. A imprensa adora, mas o tempo jogado fora não tem volta.

 
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