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POESIA

Fernando Pessoa na Biennale di Venezia
Por Lisette Lagnado

Tema-título da mais famosa mostra de arte do mundo tem semelhança com versos do poeta português

A 52a. Biennale di Veneza, que abriu no último dia 10 de junho, tem como tema-título, escolhido pelo curador Robert Storr, “Pense com os Sentidos, Sinta com a Mente”. A semelhança com os célebres versos de Fernando Pessoa (1888-1935) não poderia passar sorrateira: “O que em mim sente ‘sta pensando”. E vice-versa.

Dois dos artistas brasileiros convidados para expor na mostra de arte mais tradicional do mundo já deram declarações enfáticas (cf. Camila Molina, “O Estado de S. Paulo”, 6/7/2007). Para Waltercio Caldas, trata-se de “unir o pensamento e o sentimento”; para Iran do Espírito Santo, seu trabalho conta tanto com a racionalidade como com a intuição e o sensível.

Raras são as exposições que não tomam emprestado uma obra literária, ou filosófica, para servir-lhes de ilustre frontispício. O espaço do Arsenale, na Biennale anterior, sob a curadoria de Rosa Martínez, ganhou o título “Sempre um pouco adiante”, e a exposição era baseada nas aventuras do herói dos quadrinhos Corto Maltese, de Hugo Pratt.

“Sense and Sensibility” (livro de Jane Austen traduzido aqui por “Razão e Sensibilidade”) também fez carreira como mostra de arte, após merecer uma montagem cinematográfica por Ang Lee (1995). Os exemplos se multiplicam rapidamente. De Baudelaire, “Luxe, calme et volupté” (Luxo, calma e volúpia) não poderia faltar, e assim uma pesquisa revelaria uma longa lista de exposições de arte com títulos de outras disciplinas.

Mesmo sem ter podido concluir seu projeto, Ivo Mesquita já havia divulgado que a 25a. Bienal de São Paulo, prevista para 2001, estava trabalhando com as possíveis “qualidades” que o escritor Italo Calvino aventou para a literatura do século 21 em “Seis Propostas para o Próximo Milênio”.

A próxima Bienal do Mercosul (em setembro deste ano) recorre a uma imagem de Guimarães Rosa: “A Terceira Margem do Rio”. O projeto é do curador Gabriel Pérez-Barreiro, mas o título tem precedências por aqui. O que não desabona ninguém. Há também curadores mais pop que usam “lyrics” para intitular suas exposições. Estou lembrando de “remember tomorrow”, de Iron Maiden, retomado por Hans-Ulrich Obrist.

A 27a Bienal de São Paulo, cujo pré-projeto era intitulado provisoriamente “Blocos sem fronteiras”, acabou optando por um título emprestado de seminários de Roland Barthes, “Como Viver Junto”.


Mas por que Pessoa?

Até o presente momento, mais de um mês da inauguração da mostra de Veneza, ainda não li nenhum depoimento do curador norte-americano Robert Storr falando de Fernando Pessoa. Não dá para atribuir qualquer ligação entre a exposição que ele concebeu com a “filosofia” de um poeta que fora, de certo modo, “marginal”.

Fernando Pessoa continua sendo um paradigma para a estética de Merleau-Ponty: “Um mesmo sujeito encarnado pode ver, vez após vez, a partir de diferentes posições.” (cf. “Fenomenologia da Percepção”, 1945). Sentir e pensar -entrelaçados em quiasma interminável: sujeito e objeto, existência e essência, visível e invisível.

Um poeta do desentendimento e do dissenso -estas seriam as palavras de Jacques Rancière na tentativa de abraçar as características de um sujeito que construiu, para si, alguns heterônimos. Cantar uma arte de “alegre e anônima viuvez” equivaleria a cantar uma arte da solidão voluntária?

“Ah, canta, canta sem razão!” é o reino da subjetividade pura. No mesmo mês da abertura da Biennale, faleceria o maior defensor da objetividade e do pragmatismo contemporâneo, o filósofo Richard Rorty.

Vale a pena ler Pessoa neste contexto. “Em obras” reproduz a seguir o poema em questão, escrito em 1914:

(ELA CANTA, POBRE CEIFEIRA)

Ela canta, pobre ceifeira,
Julgando-se feliz talvez;
Canta, e ceifa, e a sua voz, cheia
De alegre e anônima viuvez,

Ondula como um canto de ave
No ar limpo como um limiar,
E há curvas no enredo suave
Do som que ela tem a cantar.

Ouvi-la alegra e entristece,
Na sua voz há o campo e a lida,
E canta como se tivesse
Mais razões pra cantar que a vida.

Ah, canta, canta sem razão!
O que em mim sente ‘stá pensando.
Derrama no meu coração
a tua incerta voz onde ando!

Ah, poder ser tu, sendo eu!
Ter a tua alegre inconsciência,
E a consciência disso! Ó céu!
Ó campo! Ó canção! A ciência

Pesa tanto e a vida é tão breve!
Entrai por mim dentro! Tornai
Minha alma a vossa sombra leve!
Depois, levando-me, passai!


(Publicado em 2/8/2007)

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Lisette Lagnado
Foi curadora da 27ª Bienal de São Paulo. É crítica de arte e editora de Trópico e da seção "em obras" desta revista. Foi coordenadora do Arquivo Hélio Oiticica (Projeto HO e Instituto Itaú Cultural). Publicou "Leonilson - São Tantas as Verdades" (DBA), entre outros.

 
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