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prosa.poesia

Manual de zoofilia
Por Wilson Bueno

Mitopoética do amor erótico, que nos faz bichos inconsoláveis: baratas, caramujos, guepardos e vaga-lumes

Bichos. Zoólatras. Zoofilias. A partir da análise “morfológica” de algumas espécies, e da insinuação muitas vezes fiel a seu desenho, a seus hábitos e estilo, aqui a busca da mitopoética do amor erótico humano se impõe.

Ao espelho da vida, o discurso amoroso mistura-se, entre o sexo e o limite, pelo viés da palavra em estado de poesia, à precariedade da carne e à sempre intempestiva paixão que nos faz bichos inconsoláveis -baratas, caramujos, guepardos, lagartixas, ou mesmo chuvas.

Reduzidos à nossa miséria, somos então só o ímpeto do amor animal que, humano, entre a ternura e o esgar, o urro ou o trino, a exemplo dos bichos ditos inferiores, talvez ame com ódio; e com unhas.

Eis o amor, senhores, e a sua indisfarçável cara de cão.


1. Lagartixas

Os olhos arregalados reverberam em mim a tua face -branca, albina, esquálida polaca.

Andas paredes e curvas, suspensões e cimos, tetos e o organdi rosa da cortina da sala. Falácias?

Jacarôa, lagarto, lagarta -mutilo em ti a sôfrega cauda, impaciente; me emprestas os dedos lavados das mãos.

Recresce em ti o rabo e a sina; quedo-me ao presto ludo de dois braços para sempre sem mãos.

Mordo-te o transparente umbigo pálido e já sou um só ao liso suplício de tua ilharga.

Gozamos -aos trancos, aos barrancos, aos pedaços.


2. Corais

Cracas inscrustradas, rochas vivas, multicor, quasar, gume e faca, navalha, extensões deles, corais -pedra do mar que às conchas embala. Pétalas ígneas, incêndio azul; ao longo das franjas, o areal contínuo.

Os pés feridos, as nadadeiras mordidas de vento e sal, vos procuro, por estes meandros vos procuro, justo ali onde te arrastas -sereia, lady Godiva, elefanta-marinha.

Ao quente mar de dezembro, guelra contra guelra, ao coral profuso e todo ardente, nele nos esfregamos.

Baixo um silêncio de cristal, concha e ostra, ambos os dois, os sexos em carne viva.


3. Baratas

As antenas são, das baratas, os seus instrumentos de esgrima. Furtivas, tímidas de uma timidez arisca e belicosa, entanto avançam pelo ladrilho da cozinha mal silenciem as louças na pia e o velho relógio se ponha a bater sozinho. Mais que perfeitos animais pré-históricos por pisos e assoalhos andam.

Suja barata peluda – nossos ascos, vossos nojos, nossa agrura ao rés do chão deste ladrilho e desta casa na zona norte, meu Deus, que de infames os ralos por onde andamos – ariscos, tateantes, um pouco cegos.


4. Leitores

Mal os percebemos os que nos lêem.

Noturnos em suas camas sozinhas, claros ao sol dos parques, curvos nas bibliotecas de Babel e da Conchinchina, nos reinventam os sonetos desesperados, redizem o dizer já dito, mas com tal tamanha invenção que incendeiam, ah como incendeiam, os textos exangues -de heróica desesperança.

Não importa se de enlevo a tua cara branca no vidro da janela; ainda és, mesmo assim, a intangível margem dos livros fátuos, e os parágrafos mortos de medo.

Trêmulo me agarro a um decassílabo perfeito. Tonto de ternura, as mãos insones, vos adivinho e a vós me dedico com um luxo que decididamente não é meu nem me pertence. Animal de pequeno porte, uivo.

Examino a lombada dos livros eternos, gravadas a ouro e cristal; você cochicha na sala a canção que um dia foi minha. És assim, a reescrever o duas vezes lido porque escrito; o reescrito porque ainda outra vez lido.

E é de amor, sim, de indecifrável amor, o nosso enlace.


5. Guepardos

Perdidos do bando, feito uma sina, transpusemos já não sei quantas savanas. Os dois, só nós dois. Magros e de pintalgadas manchas sobre o pêlo rude, à sagacidade do vento, guepardos, ondulamos -vôo?- sob o céu. Só não sei, talvez em razão da pressa, quem, de nós dois, o primeiro mortal. Severo equívoco imaginar que desapareças de mim; que antes de mim findes -impunemente. Antes de mim? Como? Num balé de ágeis impulsos somos só uma felina espécie de caça. Aves?

Vejo a morte amadurecer em vossos olhos quando percebo que sobre eles passa uma sombra (nuvem da tarde?), rápida, quase invisível. Atravessa-te a íris-de-mel, a sombra, e já enevoa vossos olhos dourados.

Engalfinho-me em você, teso desejo, e vos mordo a nuca a dilaceradas dentadas.

É assim que me subjugas, me humilhas e me achacas por guardar dentro o aguilhão do sexo. Nem desconfias que quem capitula sou eu, baixo a fissura explícita de vos amar escandalosamente.


6. Caramujos

Que de sons ecoa o tímpano do caracol? Enrodilhado em sua louça multicor acaso o ausente sexo freme? Um que de porcelana fosse dificilmente sobreviveria em sua fragilidade exaltada, e complexíssima.

Andam na noite, inenarráveis dromedários ou uma absurda espécie de formiga -levando às costas sua montanha de osso e marfim.

Onanistas, narcisos, centrados em sua têmpera, os caramujos, às frescas manhãs de areia e espuma, da longa praia deserta, são uma aleluia viva, e numerosa.

Prescindir da rubra curva de vossa nádega e ainda assim, encaracolado aos vossos crespos e pentelhos, imaginar com os ruflos de um colibri-de-asas, ramblas, ramonas, ai que te incenso a coxa grávida com meu filete d’água cinza-pálida.


7. Vaga-lumes

Chegam pelas noites de verão -miríades deles num revôo de faíscas contra o azul profundo. Se um se ausenta, outro se assanha, abaixo, acima, de lado e a celacanto -assim tão sucessivamente que parece chovem sobre o quintal, entre os arbustos, os cactos e os eucaliptos.

Rever em vós o nítido contorno, a dura escorregadia couraça com que o corpo trincas (faíscas?) ao meio, a movimentos sincopados -o modo como escapas de meus dedos ávidos, e o sombrio gozo no coração do sinistro.

Desejar-vos a luminosa cola túrgida feito um veneno de iridescente apelo, e aprender à margem dos meus escombros de mim o quanto falhos fomos; e velhos em nossas luzes. Luzes?

Mais vale a alma sucinta do besouro para sempre condenado à uma morte de bruços, e cheia de pernas.

Perdoa o que fui de vosso látego e anátema; perdoa.

Então, amor, é que acendes, de inopino, toda uma floresta no escuro.


8. Chuvas

Bicho líquido de fiel transparência, as chuvas chovem no zinco de nosso teto humilde com a graça quase invisível de ariscas lagartas, e mínimas, muitas, coleantes, uma que vez cândidas.

Quis no verão sua morada, e o ímpeto com que serpenteia da nuvem ao telhado e dali às caleiras da casa, ninho suspenso entre o arrozal e as águas.

Há, contudo, diversas espécies de chuva -de chuviscagens a chuvões, veros maremotos, bebendo a Terra, rios e lagos, riachos e cascatas.

Se me sugas feito um vício eu sou a chuva que teu chão lambe com uma volúpia de amantes entranhados -um no outro encharcados até a última gota e a derradeira raiz mais chã.

Lavas-me o rosto a esguichos; brinco de intempérie sobre o vosso ventre. Líquidos e miasmas, cobrem meu corpo vossas mágoas. Águas? Cantam as calhas nosso lamento, longe, enxurrada em lá maior, aguaceiro, coral de anilhas.


Publicado em 5/6/2007

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Wilson Bueno
É escritor, autor, entre outros títulos, do livro de fábulas "Cachorros do Céu" (ed. Planeta), que esteve entre os finalistas do prêmio Portugal Telecom de 2006.

 
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