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prosa.poesia
LANÇAMENTOS

Três jovens poetas admiráveis
Por Fabiano Calixto

Novos livros de Angélica Freitas, Marília Garcia e Ricardo Domeneck mostram o vigor da poesia brasileira

O que se acostumou escrever sobre poesia há pelo menos 30 anos neste país não foge a uma culturazinha cíclica de intermináveis blablablás (um papo que já tá qualquer coisa), isto é, algo que poderíamos chamar de “senso comum pseudoteórico”. Por quê? Porque é sempre a mesma repetição de argumentos velhos, sem alicerces, ingênuos e o mais puro lugar comum. Então, a cada novo livro de poesia, abre-se o jornal e lá está: “A poesia escrita só para poetas”, “hermética”, “que não vende porque é difícil”, “que tem poucas palavras”, “que tem muitas palavras”, “que o livro deveria ser menor”, “ser maior” etc. etc. etc.

Bem, onde se chega com argumentos desse tipo? A lugar nenhum. Primeiro, porque a boa poesia é sempre difícil. Entre outros muitos e muitos fatores, ela retoma o real com outra lente, tornando-o outra realidade, através de um trabalho com a linguagem que, apesar de ser tesouro público, não é usada pela poesia com a mesma função trivial do dia-a-dia. Nunca vi ninguém que falasse que Gôngora, Bashô, Baudelaire ou mesmo Drummond fossem fáceis. Para quem gosta de escrita fácil há muitos livros de auto-ajuda na praça.

Segundo, porque o hermetismo jamais é do poema (quando este é realmente um trabalho bem feito, bom), e sim do receptor. Poesia não vende, mas isso não é novidade em nenhum lugar do mundo, pois então imagine-se num país como o Brasil, onde não se lê nada e cuja educação se encontra no mais deplorável dos becos sem saída, onde o analfabetismo, como um vírus, muta-se em termos como “funcional” e se alastra de forma cavalar…

O que me parece é que não há, realmente, aparato crítico para a análise da poesia feita no Brasil há pelo menos 30 anos, mais ou menos a partir dos anos 70. A crítica está aparelhada até a alma com um instrumental que, simplesmente, não funciona. Na época da fotografia digital de alta definição, a crítica de poesia ainda faz seus crayons de feiras de artesanato.

Na impossibilidade de analisar um poema contemporâneo (pois é impossível com as mesmas ferramentas dos anos 40 ou 50), despeja-se sobre o incauto leitor a idéia de que a poesia de hoje é vazia, fraca, ruim etc., lançando mão da mais patife das bengalas analíticas. Vivemos então, em termos de crítica literária, em tempos de “críticas de época”, e se não falamos do ponto onde estamos, caímos no plano da ficção.

À parte esse blablablá todo, a poesia contemporânea brasileira é muito boa, sim, e está se fortalecendo a olhos vistos, chegando a uma vitalidade incrível. Como prova disso, basta ler três recentes lançamentos: “Rilke Shake”, de Angélica Freitas; “20 Poemas Para o Seu Walkman”, de Marília Garcia; e a “cadela sem Logos”, de Ricardo Domeneck –todos eles editados na coleção Ás de Colete (CosacNaify e 7Letras), dirigida pelo poeta carioca Carlito Azevedo.


“Rilke Shake” com “toasted Blake”

“tatuou um ganesh na coxa
chegou com a boca roxa de botox
exigindo rocks”
(Caetano Veloso)

“Rilke Shake” é o primeiro livro da gaúcha Angélica Freitas. Logo numa leitura primeira se nota o modo peculiar e inteligente como a poeta aborda seu mundo, sua tensão com o real. Possuidora de um refinadíssimo humor -da mesma linhagem de Laforgue e Corbière- e de sofisticadas melodias, a escrita da poeta traz do cotidiano o refugo, o lugar-comum, e o faz seus, dando-lhes sua resposta pessoal e carregando-os de potentes novos significados.

O título -ótimo, por sinal- é outro ponto importante, com seu teor iconoclasta à Marx (Groucho, obviamente). Esse seu trabalho de estréia, recoloca no panorama uma pegada que parecia ter se esgotado, que é o poema irônico, que usa e abusa de rimas e põe ao tom coloquial algo mais que meros amontoados simplórios colhidos à multidão.

Angélica sabe de seu ofício e põe isso em prática muito bem, como no engraçado e belo poema (um diálogo com o poema em prosa “O grande desastre aéreo de ontem”, de Jorge de Lima), em que mostra exemplos desse poder de comicidade de suas palavras escolhidas a dedo: “O que passou pela cabeça do violonista em que a morte acentuou a palidez ao despenhar-se com sua cabeleira negra & seu stradivárius no grande desastre aéreo de ontem”:



mi
eu penso em béla bartók
eu penso em rita lee
eu penso no stradivárius
e nos vários empregos
que tive
pra chegar aqui
e agora a turbina falha
e agora a cabine se parte em duas
e agora as tralhas todas caem dos compartimentos
e eu despenco junto
lindo e pálido minha cabeleira negra
meu violino contra o peito
o sujeito ali da frente reza
eu só penso


mi
eu penso em stravinski
e nas barbas do klaus kinski
e no nariz do karabtchevsky
e num poema do joseph brodsky
que uma vez eu li
senhoras intactas, afrouxem os cintos
que o chão é lindo & já vem vindo
one
two
three

A deliciosa arquitetura rítmica mostra uma estratégia irônica de arrancar risos. Juntando a isso ao patético da situação, ao seu diálogo demolidor com o autor de “Invenção de Orfeu” e à sua graça construtiva (versos como os dez últimos são impecáveis em suas rimas “-ski” (um violino desesperado?) e com suas cenas absurdas, faz desse poema, desde já, um poema inesquecível.

Do mundo pop, Angélica traz o vocabulário que circula nas artérias de seus versos, ao lado do clichê, do humor, numa pequena e divertida orgia intelectual, dispondo seu diálogo aberto e sem crise com o que melhor foi feito nas mais próximas gerações anteriores (como o “power trio” Ana Cristina Cesar, Paulo Leminski e Torquato Neto), apontando, como todo bom poeta, para direções luminosas à frente. Talvez um poema como “só” possa explicar melhor o que digo:


me consolaria:
o ejetor de teias
do homem-aranha
só lá no alto
entre prédios
não se veria
este coração
sem plumas

– algum vilão
por aí
usa um
colar de penas
made in
my heart –
só lá em cima
entre edifícios
com o aval
das pombas

uma criança
olha pra cima
mamãe, mamãe
é a mulher
-aranha?
não seja tola
ela está
limpando
janelas


me consolaria:
o ejetor de teias
do homem-aranha
só lá no alto
entre prédios
não se veria
um coração
sem planos

Esta idéia de deserto (“um coração sem planos”), onde o sujeito tenta a qualquer custo esquivar-se (longe, no alto de um prédio, com o aparato mágico dos utensílios de um herói), mostra a perplexidade do nosso tempo e a complexidade (perigo) em examiná-lo de longe, isto é, fora do front de batalha, para usarmos uma imagem que quase poderia ser usada mesmo ao pé da letra. E, de onde limpa janelas, o sujeito ejeta um pensamento desvairado, no meio de alguma metrópole, por conta de uma angústia, de um medo de não estar sendo percebido por ele mesmo e pouco se projetar.

Este “coração sem planos”, mais que uma expressão periférica, acessória, é fundamental ao poema, pois coloca em pane os rumos da compreensão, abatendo sua extensão metonímica, não é o amor, não é a ética, não é a coragem, não é a acessibilidade, a vida, mas apenas (sem plano de fuga ou de visão) terremoto.

Mesmo em momentos mínimos, Angélica consegue arranjar beleza, como no lirismo delicado e triste dos apenas dois versos de “versus eu” (p.43): “lá embaixo um samba que não me chama
pois não conhece o meu nome”
.

Em muitos outros momentos a poeta demonstra a qualidade de sua poesia, seja com extremo humor (em “Família vende tudo”), seja na graça iconoclasta de “Estatuto do desmallarmento” (“minha senhora, tem um mallarmé em casa?/ você sabe quantas pessoas morrem por ano/ em acidentes com o mallarmé?”), ou ainda quando escreve “vamos nos livrar de ezra pound?” (p.38), ou no excelente “Na banheira com gertrude stein”. Ainda assim, sobra espaço para poemas como:

AS BRUXAS de bruxelas
batem panelas
pra espantar as baratas tontas
que vivem nas pontas
dos sapatos delas

Um poema que acerta em outro alvo (o público infantil) e mantém o nível da mesma maneira.
Deixemos à parte as porções de falácias que correm pelo resenhário soturno (e tão atraente quanto uma corrida de lesmas) e esqueçamos bobagens menos importantes como (sem dúvida falarão, ah se falarão!) dos poemas em que trata com tanto amor e humor do lesbianismo (buscando erigir multiculturalismos toscos que causam só sonolência) ou o “parentesco” com a poesia marginal brasileira dos anos 70 (demonstrando a famigerada miopia óbvia de credos “ainda-modernistas”, ou, se preferirem, decrépitos sem crédito que –quase- todos acreditam), em seu teor maligno e estagnizante).

Nada disso! Aqui a poesia tem outro trato, outro foco, outro rebolado e mesmo havendo a pimenta destes característicos citados a temperar o trabalho, que não é passível de tais limitativos. A poesia de Angélica Freitas tem coração e cérebro, é simples sem ser simplória. Pegue-se, pois, o livro e encante-se quem puder!


Deslocamentos e geometria

“Crianças cor de romã entram no vagão
O oliva da nuvem chumbo ficando pra trás da manhã
E a seda azul do papel que envolve a maçã
As casas tão verde e rosa que vão passando ao nos ver passar
Os dois lados da janela
E aquela num tom de azul quase inexistente, azul que não há
Azul que é pura memória de algum lugar"
(Caetano Veloso)

Já em “20 Poemas Para o Seu Walkman”, de Marília Garcia, o caminho é outro (ufa!). Operando minuciosos deslocamentos de idéia de dentro de sua sintaxe e de seu ritmo infartado, os poemas, desfrutando dos sabores da prosa (não somente nos poemas em prosa propriamente ditos da seção “Encontro às cegas”, mas em todos os poemas do livro), deixam no leitor uma sensação de multiplicidade informativa, forjando-o a uma árdua busca de foco -como se, num grande centro de qualquer país, o sujeito, ao pedir informações a qualquer transeunte e este lhe despejasse uma quantidade enorme de opções, ao final das contas absorvesse apenas “trechos” das informações e se arriscasse a cumprir seu itinerário com o risco de percorrer paisagens não imaginadas, criando assim escaldantes desertos por onde propor, a si mesmo, miragens.

Portanto, mais que viagens, deslocamentos. Esta poesia se faz de deslocamentos que constroem uma estranha ordem, uma peça geométrica que sangra, pois força sua própria estrutura a respirar. E mesmo se pensarmos em viagem, o trabalho aqui é de um sujeito viajante e não um sujeito turista: o viajante dispensa limites e concorre ao perigo, conquanto que o turista mapeia (literalmente) toda sua trajetória, impondo-lhe uma precisão, uma falta de surpresa, um tédio. Podemos notar essa idéia de deslocamentos sinuosos em poemas como “Svetlana”, que abre o conjunto:

na véspera de sua partida para
ny, emmanuel hocquard datilografa
um poema de george oppen
em sua máquina de escrever
underwood n. 3 é como svetlana querendo voltar
para barcelona
aqui não fico
mais nem um dia dizia no café
com nome grego que
lhe fazia falta ver as coisas
invisíveis daquela cidade e seu marido
na contramão carregando
no braço o menino sem língua,
tentando alcançar o que
aparecia do outro lado do mar
se alguém ainda viria
para ajudá-los
nesta época
do ano a tormenta não costuma
demorar (o poema era em inglês)
e tinham medo de se perder,
ela dizia, por isso a distância,
ritmo de degrau seguindo
cortado, por isso
o modo de andar e
o ziguezague do avião sempre que saíam juntos.
tinham medo e todos os dias fazia
algo para evitar. depois queria
encontrá-lo na rua,
perdido, como um acidente:
cruza uma esquina e vê. desligou
a chamada na hora
precisa, a voz cortada outra
vez antes de seguir
pelas ramblas.

Observamos ainda que o deslocamento se torna ambíguo, porém se afirma claro nos procedimentos construtivos do poema (como as elipses bem feitas que forjam, sempre, um efeito dúbio). Essa profusão de conversas num café é o “acidente” de que fala uma das “personae” do poema. E assim parecem se dividir por todo o conjunto, tangíveis, claro, pelo desencontro (às vezes fantasmagórico, como em “ver a paisagem/ sem ela e precisar o tamanho da ausência/ com poucos dados” (p. 47), em que os versos recebem grossa espessura de significação.

Já, caminhando mais à frente, na seção “Le pays n’est pas la carte”, no poema “Um carrossel na cabeça”:

 
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