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política
SISTEMA DE DEFESA

O medo que a França não vê
Por Vladimir Safatle

Vitória do direitista Sarkozy para presidente mostra que país fracassou em seu “republicanismo”

Fim da divisão esquerda/direita, desejo de mudanças radicais, consciência da necessidade de abandonar as ilusões do Estado de Bem-Estar Social: não faltaram análises para tentar explicar a recente vitória de Nicolas Sarkozy nas eleições presidenciais francesas.

No entanto, a grande maioria de tais análises foi pródiga em evitar, a todo custo, o verdadeiro significado de sua ascensão ao poder. Sarkozy foi apresentado à opinião pública mundial como uma espécie de Margaret Thatcher retardatária, única força capaz de portar a grande chama da flexibilização do trabalho em um país adormecido. Mas Sarkozy é muito mais que isto. Ele é o verdadeiro paradigma de uma nova direita que procura retomar as rédeas da política mundial.

Deixemos de lado seu programa econômico, todo ele fundado em diminuição radical de impostos para os ricos e desmantelamento da rede de assistência social, ou seja, aumento da desigualdade social e renúncia fiscal que levará certamente à degradação dos serviços públicos.

Nada disso é novo. Trata-se do velho receituário de direita aplicado em todos os países centrais com resultado medíocres. Na própria França governada pelo partido de Sarkozy há cinco anos, pesquisas demonstram como a maioria da população jovem não acredita que terá um padrão de vida superior ou idêntico ao de seus pais.

Se a economia não é a novidade desta coreografia requentada é porque o inovador está em outro lugar: em um discurso securitário martelado incessantemente. Há uma articulação interessante entre flexibilização e segurança, ou seja, entre insegurança econômica e paz social armada que fornece a chave para a compreensão da nova direita.

De fato, Sarkozy conseguiu a proeza de transformar a segurança na questão política central, isto em um país onde os níveis de violência ainda estão muito abaixo do que encontramos, por exemplo, nos EUA, e onde os índices de homicídio e assalto a mão armada são ridículos se comparados ao Brasil.

Mesmo assim, o medo foi elevado à condição de afeto político decisivo. Elevação feita pela pessoa menos indicada para o feito, já que, na gestão de Sarkozy como ministro do Interior, a violência urbana aumentou em 14%, sem esquecer que foi exatamente graças a suas declarações racistas que a França entrou em quase estado de sítio em 2005.

Mas de nada adiantou lembrar tudo isto porque, como no caso de Bush Júnior, não se trata exatamente de diminuir a insegurança (quem pode dizer sem rir que o mundo está mais seguro depois da guerra ao terrorismo?). Trata-se de construir um inimigo, de dar visibilidade e instrumentalizar politicamente um medo difuso que permeia o tecido social.


De onde vem o medo?

Sim. De onde vem este medo? Essa questão nos leva ao coração das estratégias retóricas próprias à nova direita mundial. Notemos, inicialmente, que, contrariamente à estratégia de Bush, o inimigo agora não é externo, mas interno. São os imigrantes (principalmente árabes) que vivem nas periferias. São estes mesmo imigrantes que pretensamente colocariam em risco a unidade e calma do país com seu sectarismo religioso e comportamental, seus véus e sua violência.

Dessa forma, Sarkozy pode realizar o sonho de toda direita: esvaziar um conflito social ao transformá-lo em conflito cultural, em choque de civilizações. Ao invés de vermos o conflito como oposição entre o Estado e os imigrantes pobres, com empregos precários, vivendo de maneira segregada em grandes periferias de concreto e sem representação política alguma (vale a pena lembrar que não há sequer um árabe na Assembleia Nacional francesa, sendo que eles são mais de 10% da população), a direita quer nos fazer acreditar que o que está em jogo são nossos valores liberais contra o comunitarismo sectário.

Daí porque a peça-chave do programa de Sarkozy é a criação imediata de um bizantino Ministério da Imigração e da Identidade Nacional. O jogo é ainda mais desonesto porque feito em nome da laicidade e do “republicanismo”. Trata-se de afirmar coisas como, por exemplo: “A identidade do nosso Estado é laica, republicana e tolerante, por isto não podemos aceitar que tais valores maiores sejam colocados em risco pela presença de fundamentalistas intolerantes entre nós. A fim de defender a tolerancia, sejamos então intolerantes contra os intolerantes”.

Não será a primeira vez na história que nossa tolerância servirá de fumaça para esconder o fogo de nossas paixões intolerantes. Até porque, se a preocupação é mesmo com o fundamentalismo, que tal começarmos pela Polônia? Sim, a mesma Polônia que inaugurou o fundamentalismo católico ao tentar passar leis que proíbem homossexuais de lecionar em escolas e que visam criminalizar mulheres que fazem aborto, mesmo em caso de risco de vida.

A mesma Polônia, governada por um partido “teológico-politico”, que acredita agir em nome dos valores sagrados da religião, da família e da pátria, e que agora usa a desculpa da descomunistização para limpar das universidades, da mídia e da política aqueles que não aderem aos seus programas.

Neste novo contexto político, vale sempre a pena lembrar que o medo é o afeto mais facilmente deslocável que conhecemos. A clínica psicanalítica e a psicologia conhecem inúmeras situações nas quais um medo em relação a certos grupos, objetos ou congêneres é produzido como defesa contra um outro medo, muito mais aterrador e profundo, que diz respeito a algo que preferimos não enxergar.

Podemos dizer que vemos algo semelhante ocorrer no campo político. A fragilização crescente do trabalho e dos rendimentos provoca uma angústia social que, ao invés de se tornar motor para uma dinâmica de conflitos de classe, vem se transformando em medo do outro. Contribuiu para isto as décadas de insistência da direita na criação do amálgama falso entre imigrante e vagabundo que se aproveita dos programas de seguridade social. Só que podemos colocar aqui: “O que a Europa fará de seu medo quando mandar embora o último imigrante?”.

No entanto, Sarkozy sabe que não haverá “último imigrante”, até porque o jogo consiste em perpetuar o medo. Dessa forma, ele poderá ser, como bem definiu o líder verde Noel Mamère, ao mesmo tempo o bombeiro e o piromaníaco, aquele que, através do acirramento de divisões, provoca o caos e propõe a ordem. Quem sabe isto não lhe permitirá um dia governar através de um idílico Estado de exceção permanente? Nunca é bom esquecer: o ensaio geral já foi dado em 2005.

Por fim, vale ainda um comentário a respeito da frase de Sarkozy que fechou sua campanha presidencial: “Eu quero virar a página de Maio de 68”. Por quê? “Porque Maio de 68 nos impôs o relativismo moral e intelectual. Os herdeiros de Maio de 68 impuseram a idéia de que tudo se equivalia, que não havia diferença alguma entre o bem e o mal, entre o verdadeiro e o falso, entre o belo e o feio”.

Em outras épocas, antes do aparecimento de Bush Júnior, um candidato que se via como arauto do bem, do verdadeiro e do belo sequer era levado à sério. Sobre a ladainha do relativismo, talvez Sarkozy prefira o tempo em que as escolas ensinavam educação moral e cívica e lutavam desesperadamente para esconder as barbáries da “civilização francesa” nas guerras coloniais. Quem sabe ele não pedirá ajuda a Bento XVI para reformar o currículo escolar e introduzir duas novas disciplinas: “Culpabilização da sexualidade I e II” e “História dos vencedores”. Por fim, é óbvio o primarismo intelectual nesta “análise” a respeito de Maio de 68. Ninguém nunca foi relativista neste sentido.

O interessante dessas colocações é o tamanho do esforço necessário para acreditar nelas. Pois alguém, como Sarkozy, que anda de braços dados com Johnny Halliday (uma espécie de Elvis Presley-Asterix) e outras estrelas de baixo calibre da música francesa não pode estar falando sério quando reclama da impossibilidade de distinguir o belo do feio. Por outro lado, até as pedras sabem que ninguém fala sobre o verdadeiro e o bem em política sem interesses inconfessáveis por trás.

Mas devemos então nos perguntar: por que a Franca quer desesperadamente crer no que não é mais passível de crença? Novamente, porque ela tem medo.

A crença aqui é apenas um sistema de defesa. Ela tem medo de acordar e descobrir um país que fracassou em sua tentativa de integração, em seu “republicanismo”. Medo de ter de enfrentar a verdadeira mudança, esta que toca nossos valores e ilusões mais profundos. Cabe às forças de esquerda compreender esta nova dinâmica dos afetos no interior da política, a fim de desativá-la. Pois este novo campo politico de batalha veio para ficar.


(Publicado em 14/5/2007)

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Vladimir Safatle
É professor do departamento de filosofia da USP e professor-visitante das Universidades de Paris VII e Paris VIII. É também autor de "A Paixão do Negativo: Lacan e a Dialética" (Unesp, 2006) e "Cinismo e Falência da Crítica" (no prelo), entre outros.

 



 
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