2

A Partilha da África fora feita, naturalmente, sob o signo da civilização, e por isso acompanhada de campanhas pela extinção do comércio de seres humanos. O papel de liderança de Leopoldo pesou na escolha de Bruxelas para sediar a Conferência Anti-escravista, convocada pelas grandes potências, em 1889. O objetivo manifesto do conclave era combater o tráfico de escravos. Para tanto, o anfitrião apresentou seus velhos planos -oriundos de seus próprios desígnios de exploração comercial, mas travestindo-os de logística para combate ao tráfico de escravos-, que implicavam no erguimento de uma verdadeira “Linha Maginot” de postos fortificados, frota de barcos a vapor, estradas e ferrovias. Ofereceu, sob aplausos generalizados, o novo Estado Independente do Congo para executar os planos. Solicitou em troca apenas, para financiá-los, o direito de cobrar impostos alfandegários sobre tudo o que fosse importado. Conseguiu aprovação, sem que ninguém percebesse que acabava de assestar um golpe de morte no livre comércio que tanto apregoava.

Obteve tremendo empréstimo do Parlamento belga, em troca de fazer testamento, deixando o Congo… para a Bélgica!

Prometera a Stanley o posto de administrador supremo do Congo, mas, mantendo-o na folha de pagamento, passou a tergiversar: negociara com os franceses a marginalização de Stanley, que defendia os interesses britânicos.

Leopoldo implantou no Congo uma economia de confisco. Os nativos, que caçavam elefantes e comerciavam as presas desde tempos imemoriais, e nisso tinham sua principal fonte de renda, foram proibidos de entregar o material a outrem que não os agentes reais. O pagamento se fazia em bugigangas, já que o dinheiro, qualquer dinheiro, era proibido na colônia.

A sabedoria do sistema estava em pôr em funcionamento uma cadeia de comando, que ia de Leopoldo até o soldado nativo, passando por toda uma hierarquia de funcionários grandes e pequenos, brancos no alto e negros em baixo, remunerados na base de porcentagens: quanto maior a repressão, maior o lucro. Foi com o marfim que começou a rolar pelo Congo um banho de sangue, que a exploração da borracha engrossaria.

O objetivo principal do confisco, desde o início, era naturalmente o trabalho. Nada na África funcionava para os brancos sem um enxame de carregadores: não havia meios de transporte, nem sequer estradas, nem ainda barcos a vapor para navegar nos rios. Esses carregadores em geral iam agrilhoados e conduzidos a chicote. Afora as orientações de condução, a punição usual para qualquer infração eram as chibatadas, que freqüentemente causavam a morte dos carregadores, depauperados pelo esforço, pela fome e pelas doenças. Crianças e mulheres não eram poupadas. Os africanos morriam como moscas.

É de admirar como, na alvorada do século XX, Leopoldo conseguiria implantar um regime de terror desses, praticamente nas barbas do mundo. Hoje pode-se estudá-lo porque, como bons burocratas que eram, tudo foi documentado à exaustão e arquivado, mesmo a correspondência pessoal do rei e os diários pessoais dos funcionários belgas no Congo. Na época, afora os missionários pertencentes a várias igrejas, cuja entrada ninguém podia impedir -pois era para converter os pagãos que a obra civilizadora hipocritamente se apresentava- , apenas duas pessoas perceberam incialmente do que de fato se tratava.

Dois homens foram decisivos, dois britânicos, o inglês Morel e o irlandês Casement. Morel era um obscuro escriturário na companhia de navegação inglesa Elder Dempster, proprietária dos navios que iam e voltavam do Congo. No porto de Antuérpia, começou a observar que esses navios voltavam abarrotados de marfim e borracha, mas nunca levavam nada além de armamento e soldados. Não havia troca mercantil, portanto: nada saía da Bélgica para pagar o que era tirado do Congo. A resposta só podia ser uma, e era a escravidão, já que tiravam tudo e não pagavam nada nem ninguém.

Sua obrigação funcional incluía a comparação dos registros das cargas que entravam no porto com as declaradas pelo governo belga. Descobriu que a diferença era astronômica, implicando que o governo belga falsificava os relatórios e embolsava a diferença.

Já Casement era o cônsul britânico no novo Estado do Congo, e Joseph Conrad foi seu hóspede quando por lá passou. O cônsul encontrava-se portanto in loco e começou a achar tudo muito estranho. Por isso, fez uma jornada de investigação pelo interior do Congo e publicou um relatório, que causou muitos danos. Uma de suas revelações, e que tornariam Leopoldo famigerado, foi a prática da amputação de mãos, efetuada até em crianças pequenas e ilustrada por fotos fornecidas pelos missionários, como castigo aos que não cumpriam suas cotas de fornecimento de borracha. Mais tarde, o encontro entre Morel e Casement, um na Europa e outro no Congo, teria conseqüências notáveis, determinando a estratégia a seguir.

Morel contou tudo a seu patrão na Elder Dempster, o qual foi a Bruxelas e voltou com a resposta de que haveria uma reforma e os excessos seriam punidos. E ofereceu outro posto, com salário maior, a Morel. Pressionado de todos os lados, Morel acabou por demitir-se e consagrar-se à missão de denunciar aquilo. Tinha 28 anos e passaria a vida entregue à causa.

Tornou-se um publicista e agitador, editando um jornal, fazendo comícios e interessando pessoas. Aproveitou o rescaldo da campanha anti-escravista, de que a Inglaterra fora foco. Conseguiu aliados importantes em seu país -parlamentares, membros do clero, lordes e gente proeminente como sir Arthur Conan Doyle, o criador de Sherlock Holmes- e nos Estados Unidos; neste último, Mark Twain, que falou do Congo e dedicou-lhe escritos.

Leopoldo negava tudo e, sempre que confrontado, falava de excessos “naturais”, que uma nova reforma coibiria. Enquanto isso, construía castelos e mais castelos, com a fortuna provinda dos escravos africanos que locupletava seus cofres.

A morte de Leopoldo em 1908 -na cama e riquíssimo- resultou no esvaziamento parcial da oposição, que foi o primeiro amplo movimento por direitos humanos do novo século XX. Embora o trabalho forçado persistisse, agora o Congo Belga pertencia à Bélgica, conforme o testamento do rei, e ficava mais aberto à fiscalização. E, se esse território tinha sido alvo de denúncias terríveis por tanto tempo, as práticas colonialistas das outras potências européias no continente africano apenas copiaram os métodos de Leopoldo. Não foi à toa que Joseph Conrad deu a Kurtz, afora seu nome germânico, uma ancestralidade pan-européia, ao especificar que seu pai era meio-francês e sua mãe meio-inglesa: “Toda a Europa contribuiu para produzir Kurtz”. Sem esquecer seus numerosos talentos de homem cultivado, como pintor, como escritor, como músico, como líder e como orador. Seu famoso “Relatório”, com a recomendação manuscrita no imperativo (“Exterminar todos os brutos!”), tinha sido solicitado pela Sociedade para a Supressão dos Costumes Selvagens, transparente testa-de-ferro do rei. E Leopoldo quase conseguiu: os cálculos giram em torno de 10 milhões de mortos, mais que o Holocausto.

A Primeira Guerra Mundial viria transformar o panorama. Aos poucos tudo seria esquecido, restando um clássico da literatura como marco contra a desmemória e a pesquisa moderna como apetrecho para desenterrar documentos secretos. O cinema também colaboraria. O documentário franco-belga de Thierry Michel, “Mobutu, Rei do Zaire” (1999), analisa minuciosamente a trajetória dessa cria de Leopoldo. Por 30 anos, Mobutu reproduziu os métodos de seu mentor, no despotismo de terror que reintroduziu no Zaire, ex-Congo Belga, e até na mania de colecionar castelos: quando foi deposto tinha seis na Côte d´Azur.


(Publicado em 16/4/2007)

.

Walnice Nogueira Galvão
É professora titular de literatura na USP. Foi responsável pela edição crítica de "Os Sertões" (Ática), de Euclides da Cunha. Publicou 22 livros, entre eles "No Calor da Hora" (Ática), "O Império de Belo Monte" (Fundação Perseu Abramo) e "O Tapete Afegão - Ensaios Reunidos" (ed. Lazúli, no prelo).

 



 
2