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ensaio
HISTÓRIA

Para não esquecer o rei Leopoldo
Por Walnice Nogueira Galvão

Regime de terror e extermínio criado pelo rei belga na África inspirou Joseph Conrad

Os telespectadores estão calejados pela visão das terríveis imagens de fome e atrocidades que nos chegam da África. Os leitores de Joseph Conrad talvez pensem que se trata de ficção.

Arguto observador das situações de encontro de culturas, Conrad escreveu sobre os males que daí advêm. “O Coração das Trevas” (“Heart of Darkness”, 1899-1902), o texto mais terrível que saiu de sua pena, é até hoje insuperável na transfiguração dos horrores do imperialismo. Apesar de situar-se na África, levaria Francis Ford Coppola a adaptá-lo em “Apocalypse Now” (1979), filme sobre os americanos no Vietnã e a chacina a que se entregaram, ao lançar sobre um povo inerme o maior poderio bélico do planeta.

Na obra de Conrad, “O Coração das Trevas” tem-se destacado, até mudando de lugar na estima da crítica, vindo a ser considerado como o mais importante de seus romances e contos. Uma edição barata e popular como a da Penguin, tirada nos anos 90 e vendida a um dólar, transcreve a opinião da Enciclopédia Britânica que reza ser esta, dentre as estórias de Conrad, “a mais famosa, a mais fina e a mais enigmática”.

Pela voz de Marlow, narrador e protagonista de outros livros de Conrad, o leitor se inteira de uma experiência que, tarimbado homem do mar, teve na África. É Marlow quem sofre as agruras de ser marinheiro naquele rincão, enquanto procura desvendar quem é alguém chamado Kurtz, que acaba encontrando rapidamente, embora já estivesse há tempos intrigado pelo homem. Conrad, ele mesmo, trabalhara na marinha mercante e fora por breve período comandante de um pequeno barco a vapor, no rio Congo.

Porém, o tempo não desmentiria que aludia a esse rio, a Bruxelas -que chama biblicamente de “sepulcro caiado”- e ao Congo Belga, um caso ímpar de cupidez capitalista aliada a genocídio dentre os do imperialismo do final do século XIX, quanto as potências européias na Conferência de Berlim (1883-1885) partilharam entre si, no mapa, a África.

Mas para quem ainda se espanta de que a África tenha chegado ao ponto que chegou, o livro “O Fantasma do Rei Leopoldo”, de Adam Hochschild (Companhia das Letras, 1999), relata minuciosamente os passos do processo, não sendo obra nem da natureza nem de Deus. Atendo-se ao chamado Congo Belga, só eventualmente fala do restante do continente. Mas não é necessário, o Congo Belga constituindo o paradigma da monstruosidade que foi a ocupação européia. O nazismo ali tinha muito a aprender.

Há muito se sabia, por outros escritos, dos desmandos dessa colônia, exemplar para as outras. A novidade deste livro foi trazer documentos antes desconhecidos, resultantes de pesquisas feitas nos arquivos confidenciais e nos papéis inéditos do próprio rei Leopoldo.

Monarca constitucional de um país democrático e nem um pouco interessado em aventuras imperialistas, Leopoldo era pessoalmente de uma ganância ímpar, e já estava há muito tempo procurando uma colônia só para si, sem interferência do país em que reinava. A tarefa ocupou-lhe dez anos de vida. Tentou comprar alguns lagos no delta do Nilo, para drená-los e reivindicar sua posse. Anotou que era muito barato adquirir um pequeno reino na Abissínia, o qual não custaria mais que 30 mil francos. Pesquisou pessoalmente nos arquivos sevilhanos das Índias Ocidentais, em busca de bons achados. Interessou-se igualmente pelas Índias Orientais, de propriedade da Holanda. Zarpou rumo à Índia, Birmânia e Ceilão, quintal inglês, sempre à cata de alguma oportunidade. Cogitou de terras na Argentina, na província de Entre Rios e na ilha de Martín Garcia, situada na confluência dos rios Uruguai e Paraná. Fez gestões para incorporar as ilhas Fidji, as Filipinas e as ferrovias brasileiras, tentou arrendar terras em Formosa e investiu no Canal de Suez. Sua frenética inquietação nesses anos, em busca de um negócio lucrativo, não desmerece o mais ávido plutocrata.

Na década de 1870 o assunto quente era África. Afora as antigas possessões portuguesas em Moçambique e Angola, bem como o domínio inglês e bôer na África do Sul, só pequenas porções fora daí eram ocupadas pela Inglaterra, França e Espanha: 80 % do continente ainda não pertenciam a nenhuma potência européia e eram submetidos a chefes nativos. Situação intolerável de qualquer ponto de vista, geraria a famosa Partilha da África entre os europeus. Antes disso, Leopoldo saiu na frente.

Tendo, ao cabo de dez anos de investigações, feito finalmente mira onde daria resultados, Leopoldo deu mostras, como daria a vida toda, de um enorme talento, apropriadamente maquiavélico, para a conspiração, a dissimulação, a fraude em larga escala, a mentira piegas. E uma falta de escrúpulos raramente igualada, mesmo numa história de governantes tipo Nero. Foi assim que ele se dedicou devagar a construir uma reputação de filantropo defensor dos africanos.

Começou por convocar em 1876 a Conferência Geográfica, com 24 líderes de outras nações, exploradores estrangeiros e 13 belgas, todos recebidos nababescamente e hospedados pelo próprio rei no Palácio Real, em Bruxelas. O único ausente era o mais famoso de todos, Stanley, que há vários meses desaparecera no ermo africano sem deixar rastro.

Leopoldo pediu o auxílio dos presentes para sua obra: o estabelecimento de uma cadeia de postos “hospitalares, científicos e pacificadores” nas vastidões ignotas da África Central, tendo por objetivo ostensivo abolir o tráfico de escravos. E aproveitou o ensejo para obter a anuência de todos os presentes para a fundação da Associação Internacional Africana, ele mesmo sendo eleito presidente por aclamação. O destino do novo organismo é o que se veria subseqüentemente: desativado em silêncio, surgiria em seu lugar, com nome quase igual para ninguém perceber a diferença, a Associação Internacional do Congo, empresa privada de Leopoldo.

No ano seguinte, o explorador Stanley ressurge, tendo ido e voltado ao longo do curso do rio Congo desde o Oceano Atlântico até o Índico, percorrendo 11 mil km em dois anos e meio. Desbravara a bacia do grande rio e mapeara seu curso, pela primeira vez.

Do que fôra o périplo, o diário de Stanley presta contas, com candura que toca as raias da desfaçatez (involuntária): “Atacamos e destruímos 28 cidades de bom tamanho e umas três ou quatro vintenas de aldeias”. De fato, Stanley conduziu sua expedição de reconhecimento como se fôsse uma guerrra de conquista, deixando tranqüilamente em sua esteira mortandade e extermínio, resultante de uma política de terra arrasada. Seu próprio séquito de carregadores era arrastado através de fome, sede, doenças e penúria até à morte, sendo exigência sua que o carregador caísse morto sob o fardo e não o abandonasse para morrer sossegado. A viagem foi marcada por deserções e rebeliões de seus homens, a quem Stanley acorrentava para que não o abandonassem.

Stanley era um gênio para a autopromoção. Ele mesmo agraciado com pendor para a mistificação e vocação para cavalheiro de indústria, tinha talento sobrando, a ponto de poder dar lições a Leopoldo. Em Londres, meta de seu regresso, esperava-o uma verdadeira apoteose, sua viagem sendo anunciada por artigos que escrevia para os jornais. Leopoldo logo intuiu estar ali seu homem. Aguardando-o ansiosamente de volta e enviando emissários para interceptá-lo em Paris, Leopoldo acabou por contratá-lo por cinco anos, graças sobretudo ao desinteresse que a Inglaterra, a essa altura senhora de um império “onde o sol nunca se punha”, demonstrou pelas descobertas de Stanley. Parceria perfeita e destinada a uma missão sem par.

O que o ardiloso rei Leopoldo percebera através de Stanley é que o rio Congo, um dos maiores do mundo, formava com seus afluentes uma enorme rede natural de comércio colonial, ou seja, de penetração mercantil e de escoamento de matéria-prima. Como se viria a concretizar, o território de 3,3 milhões de km equivalia ao tamanho de 75 Bélgicas, ou pouco mais que uma Índia. Tudo isso seria, mediante uma estratégia militar e ideológica de uma inteligência perversa mas rara, açambarcado por Leopoldo como sua propriedade pessoal e privada.

A certa altura, através de Stanley, o rei tinha fechado tratados de aliança com 450 régulos africanos da região, pagando a um jurista de Oxford para redigir os contratos em termos impecavelmente legais. Os régulos, que não sabiam ler e assinavam com um X, cediam-lhe em caráter perpétuo a posse da terra e seus bens, bem como direitos sobre caça, pesca, minérios, produtos florestais e mais o trabalho que fosse requisitado. E aqui está a chave para a escravização que se verificou. Em troca, os chefes recebiam, nos termos escritos de próprio punho por Stanley, “tecidos finos, paletós de librés, fardas com alamares vistosos (...), sem esquecer algumas garrafas de gim”.

Enquanto isso, Leopoldo se desdobrava para garantir aos europeus e norte-americanos que suas iniciativas escancaravam o livre comércio para todos e a emancipação dos negros de qualquer escravização. Lembremos que a grande campanha britânica de meados do século tinha sido a anti-escravista, que obrigara um relutante Brasil a proibir o tráfico de escravos em 1850. Essa era a bandeira que Leopoldo empunharia, para convencer os outros a reconhecerem oficialmente “sua” colônia. Ele, que se revelaria um craque das relações públicas, se apresentaria como o paladino de uma missão humanitária e filantrópica.

Sem credibilidade na Europa, iniciando à época a Partilha da África, Leopoldo foi bater à porta dos Estados Unidos, calculando corretamente que, se um país de peso fizesse o que ele queria, os outros acabariam por segui-lo. Pagou secretamente intermediários a soldo para fazer lobby em Washington, a exemplo dos que financiava nos países europeus, além de jornalistas, com resultado compensador. O governo americano logo reconheceria a colônia de Leopoldo; e mal levaria um ano, como previsto, para que todos os países europeus fizessem o mesmo.

Enquanto estabelecia tratados com europeus e norte-americanos garantindo o livre comércio no Congo, outros unilaterais com os chefes nativos iam amarrando seu próprio monopólio.

No fim do ano de 1894, a 15 de novembro reúne-se a famosa Conferência de Berlim, que procedeu à Partilha da África. No conclave, três dos países tinham representantes pagos do bolso de Leopoldo, enquanto Stanley, ele mesmo ainda recebendo seu salário do rei, integrava a delegação americana. Aliás, ele era, naquela imensidão de plenipotenciários acorrida à residência oficial de Bismarck, na Wilhelmstrasse, em Berlim, o único que conhecia a África. A avidez com que eles se atiraram sobre a África fizeram-no lembrar-se, conforme comentaria mais tarde, dos negros ao se atirarem com suas facas sobre a caça abatida. Stanley foi muito adulado por todos, inclusive por Bismarck, e defendeu até o fim a causa de Leopoldo, que dali saiu com o “Estado do Congo” oficialmente reconhecido, até com esse nome, no discurso de encerramento proferido por Bismarck. Embora Leopoldo não estivesse presente, à menção de seu nome os participantes o ovacionaram de pé. Concordaram com tudo, de um lado porque acreditavam na versão do “livre comércio”, e de outro porque estavam mais interessados nas zonas costeiras e não naquele imenso território no interior que Leopoldo ambicionava.

Logo desapareceria também a Associação Internacional do Congo, que substituíra a Associação Internacional Africana, composta por delegados de vários países, e subsistiria apenas o Estado Independente do Congo, instituído por decreto real em 29 de maio de 1885 e tendo até hino nacional.

Estabelecido institucionalmente, o rei arregaçou as mangas e entregou-se a sua tarefa predileta, a de ganhar dinheiro. Inicialmente, o marfim foi a mina que explorou. Era objeto de coleta, que os nativos já faziam, e bastava impor a eles o tributo em espécie. O marfim, nessa época, era valorizado no mercado internacional e alcançava altos preços. Os instrumentos materiais de dominação foram aqueles fornecidos pela revolução industrial. Estes seriam: o barco a vapor, que serviu à penetração ao longo dos rios feita pelo imperialismo no mundo inteiro, da África à Índia e à Sibéria; e as armas de repetição inventadas no final do século, primeiro o rifle de repetição, que dava 12 tiros sem recarregar, e logo depois a metralhadora.

 
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