1
entrevista
BIOPOLÍTICAS

O pavor da carne
Por Ilana Feldman

Para a antropóloga Paula Sibilia, o corpo é cada vez mais vivenciado como imagem a ser consumida visualmente

A antropóloga argentina Paula Sibilia, radicada no Brasil, tem se dedicado à árida tarefa de escavar o solo sempre pantanoso do presente. Debruçando-se sobre nossas paradoxais e polimorfas práticas socioculturais, a autora de “O Homem Pós-Orgânico - Corpo, Subjetividade e Tecnologias Digitais” (Ed. Relume Dumará) dá continuidade, em uma de suas mais recentes pesquisas, à investigação dos discursos e saberes hegemônicos que têm feito da valorização e da capitalização do corpo um imperativo que se ramifica por todos os âmbitos da vida.

Em “O Pavor da Carne - Riscos da Pureza e do Sacrifício no Corpo-imagem Contemporâneo”, tese de doutorado apresentada em setembro de 2006 ao Instituto de Medicina Social da UERJ, Sibilia nos alerta que tal valorização do corpo não se restringe a sua “cotação” no mercado, ao hedonismo programado, nem aos discursos midiáticos e publicitários; nem mesmo o desenvolvimento da tecnociência contemporânea, pautada por tendências fáusticas de recusa ao envelhecimento da carne e ultrapassagem do humano, pode ser tomado como única justificativa.

Antes, segundo a autora -também professora do Departamento de Estudos Culturais e Mídia da UFF-, a valorização de nossa inefável corporeidade assenta-se sobre um paradoxo inextrincável. Pois, se de um lado o corpo é adorado e valorado como um “capital” pessoal que devemos incessantemente administrar, de outro, ele é rejeitado e desprezado em toda sua organicidade, adiposidade e viscosidade material. Viria daí o imperativo da pureza e do sacrifício, que, através das práticas bioascéticas (como dietas, musculação e cirurgias plásticas) e das tecnologias de digitalização e “lipoaspiração” da imagem, engendram um recente fenômeno: a lipofobia.

Tal lipofobia legitima uma série de condenações morais que recaem sobre certas aparências e certas práticas corporais -como ser gordo ou sedentário, por exemplo-, estigmatizadas como negligentes e vinculadas a uma ausência de “força de vontade”, autodeterminação ou motivação, isto é, a uma má “gestão de si”. Nesse contexto, um “mau gestor-de-si” dificilmente seria aprovado em uma dinâmica de seleção de candidatos para grandes companhias. O que implica dizer que a contemporânea “gestão-de-si”, amalgamada pela privatização das biopolíticas, guia-se por valores empresariais de custo-benefício, pela negociação dos riscos e, sobretudo, pela responsabilização individual.

Do mesmo modo, é a lipofobia que avaliza a cada vez mais evidente construção e digitalização do corpo como uma imagem, virtualizada e descarnada, objeto de design exclusivamente desenhado para o consumo visual. Assim, é no âmbito da produção de um corpo-imagético, e no contexto de um planeta “linkado” pelos fluxos do capital transnacional, que este projeto -estético, asséptico e tecnocientífico- de sociedade vigora, em consonância com um neognosticismo de inspiração digital que pretende “virtualizar” o corpo humano, ultrapassando os limites de sua materialidade orgânica.

Desafiando clichês do pensamento e os lugares-comuns sobre o corpo, Sibilia se pergunta, ao final de sua tese, quais seriam as implicações desta valorização extrema do mercado das aparências, que, desprezando a viscosidade orgânica tipicamente humana, procura desesperadamente um corpo visível, puro e “perfeito”; um corpo-imagem decalcado das imagens ideais emanadas pela mídia, pelo marketing, pela publicidade. Um corpo cuja desejada perfeição imaterial só pode contentar-se com um outro ideal, o de uma “felicidade lipoaspirada”.

*

Depois de tantas mortes por anorexia no Brasil e no mundo tem havido uma culpabilização exclusiva do mundo da moda e uma conseqüente auto-isenção por parte da mídia, sobretudo a publicitária. É legítimo culpabilizar apenas o mundo fashion ou se está fugindo dos pressupostos que conformam a questão?

Paula Sibilia: Não acho que seja honesto culpabilizar apenas o mercado da moda, embora os desfiles constituam um elemento importante nessa “roda viva” que glamouriza o modelo de beleza “magro”, contribuindo de forma privilegiada para a exposição e o enaltecimento desse padrão. É claro que a mídia e a publicidade também colaboram na disseminação desse modelo. De todo modo, acredito que o fenômeno extrapola a responsabilidade exclusivamente midiática.

Trata-se de um problema bem mais amplo: vivemos imersos numa atmosfera sociocultural que incita à reprodução na própria carne dessas imagens corporais expostas na mídia. O que acontece na nossa cultura é inédito, embora em todas as sociedades tenha vigorado certo padrão de beleza que se impõe como modelo a ser desejado ou até mesmo imitado. A particularidade da nossa cultura contemporânea, cada vez mais globalizada e atravessada pela irradiação midiática das diretrizes do mercado, é que esses padrões se “democratizaram”.

Isso significa que, graças à expansão do mercado de produtos e serviços de embelezamento nas últimas décadas, a beleza se tornou um valor à disposição de “todo o mundo”: algo que pode ser conquistado individualmente. Já em meados do século XX, as mensagens publicitárias afirmavam que toda mulher podia ser bela. Hoje em dia, toda mulher deve ser bela, magra e jovem -e, cada vez mais, todo homem também deve ser belo, magro e jovem. Acredito que o nó deste problema reside nessa tirania do padrão de beleza obrigatório que vigora entre nós, propulsionado pela mídia e pelo mercado num jogo de forças muito complexo. Conclusão: isso não se resolve regulando o índice de massa corporal das moças que desfilam nas passarelas da moda.


Afinal, o que é o corpo? E quais as implicações da cultura somática sobre nossa auto-imagem?

Sibilia: O termo “corpo” aceita múltiplas definições, dependendo do que queiramos enxergar ou compreender através dessa conceituação. Na cultura contemporânea, os corpos humanos são cada vez mais vivenciados como imagens. O corpo de cada um é arduamente trabalhado para ser exibido e observado, como uma imagem para ser consumida visualmente.

Nesse sentido, o atual “culto ao corpo” implica também um certo desprezo pela espessura carnal do organismo humano, já que rituais como a musculação, as cirurgias plásticas e os regimes dietéticos podem ser praticados visando à construção de um corpo sem organicidade. Desenha-se, assim, um corpo descarnado, um corpo desprovido de todo sinal de viscosidades orgânicas. Pois esse corpo pensado idealmente como uma imagem se torna bidimensional: é um tipo de corpo que sonha com perder a sua espessura orgânica, que ambiciona ultrapassar a sua materialidade para se tornar não-carnal.


Por que o corpo está no centro das biopolíticas contemporâneas?

Sibilia: Esta preocupação contemporânea com a imagem do corpo evidencia certos deslocamentos do eixo em torno do qual as subjetividades se constroem. Como conseqüência dessas sacudidas, a verdade sobre o que cada um é não se oculta mais no cerne da nossa interioridade psicológica -naquele magma denso e misterioso, oculto “dentro” de nós-, mas, cada vez mais, passa a se expor na superfície da própria pele.

Há um deslocamento do eixo central que alicerça a experiência de si, implicando fortes mutações nas formas com que nos construímos como sujeitos. Em vez daquelas subjetividades tipicamente modernas, pacientemente elaboradas no silêncio e na solidão do espaço privado (um tipo de caráter introdirigido), proliferam de maneira crescente as personalidades alterdirigidas: voltadas não mais para “dentro de si”, porém para “fora”, para se expor ao olhar dos outros.

Por isso se trata de modos de ser “exteriorizados”, subjetividades que se constroem visando provocar determinados efeitos no olhar alheio, a fim de atingir o cobiçado campo da visibilidade. Estas novas modalidades subjetivas e estes novos tipos de corpos assim construídos, de alguma maneira são mais afinados e compatíveis com as demandas da sociedade contemporânea.


Modernamente, como você apontou, éramos definidos por nossa interioridade, no sentido de um espaço íntimo e privado localizado “dentro” de cada indivíduo; espaço interior em torno do qual as subjetividades eram laboriosamente definidas por seus conflitos e zelosamente alicerçadas por seus segredos. Este paradigma, hoje, provoca até certa graça e, para muita gente jovem, é de difícil compreensão. Você vê essa mudança como um deslocamento ou uma ruptura?

Sibilia: Eu acredito que se trata de um deslocamento muito complexo, não apenas desse eixo espacial da interioridade (daquele espaço interior e oculto) onde se hospedava a verdade sobre si, que se desloca gradativamente em direção à epiderme visível do corpo, mas também um deslocamento do eixo temporal em torno do qual as subjetividades modernas se construíam.

Nesse sentido, perde também peso o forte papel desempenhado pela história pessoal da cada sujeito, algo igualmente fundamental na modernidade: um passado individual com espessura semântica, capaz de explicar e dar sentido ao eu presente. É por isso, também, que hoje é possível reivindicar a capacidade de mudar com tanta facilidade e com um entusiasmo sempre renovado. Refiro-me à capacidade de “virar outro e começar uma nova vida”, após operar uma série de transformações na aparência visível do corpo.

Trata-se, então, de um movimento muito complexo de deslocamento dos eixos em torno dos quais as subjetividades modernas se construíam, uma transformação que pode implicar uma verdadeira ruptura nas formas de construção de si. Acredito, contudo, que ainda estamos vivenciando essa transição, essa mudança de regime e, portanto, o processo está em pleno andamento.


Haveria como escapar ao paradoxo do corpo adorado e simultaneamente rejeitado?

Sibilia: Sim, eu acredito que não apenas “haveria” como sem dúvida “há” muitas formas alternativas de vivenciar a própria subjetividade encorpada, e de lidar com os outros sujeitos fugindo destas configurações padronizadas. Sempre houve (e confio que sempre haverá) uma enorme riqueza de experiências individuais e coletivas que fogem dessas formas hegemônicas de assujeitamento.

Porém, o modelo de beleza que vigora na sociedade contemporânea é cada vez mais tirânico e universalizado, pois a gradativa “democratização” da beleza artificial que agora pode ser comprada e conquistada, decorreu numa responsabilização individual e até mesmo numa obrigação de encarnar o padrão vendido como ideal. Um imperativo que não aponta apenas às moças em idade de procurar marido, mas que abrange gradativamente todas as mulheres e todos os homens, de todas as idades e grupos sociais.

Contudo, uma das formas mais eficazes de burlar essas tiranias consiste em colocá-las em questão: discutir seus fundamentos e questionar seus sentidos -inclusive e, sobretudo, seus sentidos fortemente políticos.


Diversos cirurgiões plásticos se colocam como artistas renascentistas, capazes de criar sua “obra perfeita” -perfeição, evidentemente, pautada pelos modelos clássicos de beleza. Não obstante, são eles que sugerem e definem, com base em seus critérios e padrões estéticos, aquilo que deve ser alterado, ou “corrigido” (como eles dizem). Ao mesmo tempo, geneticistas contemporâneos empreendem uma corrida para a catalogação genética, com a conseqüente seleção dos genes por parte dos consumidores, interessados na possibilidade de escolha das características fenotípicas, daquelas ligadas a aptidões e dos antecedentes familiares de possíveis doenças hereditárias. Que tipo de mentalidade está pautando a tecnociência, com quais implicações para as definições de “natureza” e “beleza”?

Sibilia: Tanto nos discursos da genética como nas propostas da cirurgia plástica aparece um grande sonho da tecnociência mais recente: uma vontade de ultrapassar certos limites que antes se consideravam intransponíveis. As fronteiras que separavam o natural do artificial estão sendo redesenhadas, e há um impulso “fáustico” de superação desses limites outrora rígidos, com o intuito de recriar tecnicamente aquilo que a natureza fez “torto” ou “imperfeito”.


Você cita dados alarmantes sobre a “epidemia” de obesidade, que já está afetando nada menos que 35% da população infantil mundial, ou uma em cada três crianças. De modo ainda mais assustador, nos Estados Unidos já há 120 milhões de adultos a cima do peso -o que equivale a 65% da população do país-, das quais 61 milhões são considerados obesos. Não obstante, a “ressaca da festa consumista”, como você diz, implica o incremento de uma parcela da população mundial que cotidianamente morre de fome: 24 mil pessoas por dia, 11 crianças por minutos. Qual a relação entre o velho fantasma da fome e a “epidemia” da obesidade? E, nesse sentido, como situar a lipofofia?

 
1