1
estante

Mario Vitor Santos


1. O Jogo da Amarelinha, de Julio Cortázar

O esfacelamento levado ao limite, na figura de um (?) personagem desenganado, atravessando tempo e geografia, em que se misturam histórias sem nexo, personagens sem continuidade, ficção feita de crítica da arte e de reflexão filosófica, a narrativa feita sempre depois da desintegração, com os fragmentos de um relato que talvez já tenha sido uno e parece ter explodido. Um livro de estranheza e assombro, com um personagem problemático, Horácio Oliveira, que reflete em meio ao caos e destitui a última ilusão da “literatura”, a protagonista real. Vista como jogo, ela perde todo o interesse e torna-se irresistível.


2. O Escorpião Encalacrado, de Davi Arrigucci Jr.

Talvez o melhor livro já feito sobre a obra de Julio Cortázar, o trabalho de Arrigucci foi escrito na forma de ensaios de fôlego, com prosa de grande poeticidade e clareza. O resultado é forte o suficiente para dar conta de Cortázar e de um grande arco da produção literária e da análise da cultura, especialmente no crucial século 20. A obra de Cortázar é vista como o século: o entroncamento de vertentes que vão desde o surrealismo, o maneirismo até o chamado “realismo fantástico” latino-americano.


3. Williams: A Streetcar Named Desire, de Philip C. Kolin

Esse livro oferece a primeira história contínua das montagens de “Um Bonde Chamado Desejo”, desde a estréia, em 1947, até 1998, com ênfase no processo “colaborativo” de Tennessee Wiliams, Elia Kazan e Jo Mielziner na encenação da Broadway. Os capítulos abordam as montagens de diferentes diretores, como Luchino Visconti (Itália), Ingmar Bergman (Suécia), Jean Cocteau (França) e Laurence Olivier (Inglaterra). Forma-se então um painel das possibilidades interpretativas da peça, que se tornou um ícone, varrendo a cultura do pós-guerra com sua potência erótica subversiva e liberalizadora. Alargando a ficção, revolvendo as entranhas da mentalidade do público, proibida em diferentes partes e versões, transformando o sonho em padrão para a arte e o comportamento das massas.


4. Ilíada, de Homero, tradução de Haroldo de Campos

Uma tradução de enorme importância, com grande fidelidade formal ao original. Cada palavra do grande poema oral parece ter recebido uma carga elétrica, que ativa seu poder de impacto. A tradução de Haroldo de Campos faz justiça à criatividade poética e a polissemia do “original homérico”. Árdua no início, a leitura evolui logo para o deleite, quando o leitor se apropria dos ritmos, os epítetos e os jargões. A edição, bilíngüe, com o texto em grego, é um portento.


5. Miasma - Pollution and Purification in Early Greek Religion, de Robert Parker

Um levantamento clássico das formas de poluição na sociedade grega antiga e também das formas de purificação destinadas a remediar o contágio. A purificação é vista como um estado de separação, expressão do desejo de ordem. O próprio tempo é articulado pelos ritmos de limpeza ritual e a conseqüente renovação. A obra questiona a atitude geralmente distante dos pesquisadores diante das crenças e dos hábitos rituais, em qualquer época.


6. Deuses do México Indígena, de Eduardo Natalino dos Santos

A história americana se distende e povoa. O criterioso trabalho encara o conhecimento indígena para além de referências européias como “mito” e “fábula”. Santos está preocupado com a relação entre interações culturais e unidade histórica. Interessante é a predominância de um controle rigoroso do tempo entre as culturas mesoamericanas, a demonstrar que a idéia de fábula, perdida num passado incontrolável, não parece se aplicar às abordagens convencionais dessas tradições. A própria categoria de “deuses” presente no título é descrita como limitada e eurocêntrica para explicar a relação entre as vivências dessas populações e as entidades que criaram.


7. Ulisses, de James Joyce

Joyce dizia querer fazer uma obra que incluísse e dissesse tudo. Conseguiu produzir uma enciclopédia em que freqüentemente o que está fora é mais importante. “Ulisses” parece seguir rigorosamente as marcas do relógio, quando de fato distende a cronologia de várias formas, para colocar as ações dos personagens na interseção de duas ordens contrastantes do tempo literário. É o que diz Don Gifford em seu “Ulysses Annotated”, obra que transforma a leitura da obra-prima joyceana numa experiência ainda mais totalizante, que aí inclui o não-dito.


8. Certeza do Agora, de Juliano Garcia Pessanha

“Se eu, no entanto, me atrevo a abrir a boca para falar de filosofia, é porque me encontro protegido pela visita filosófica do infinito. É porque aos quatro anos, na avenida Angélica, tendo repetido muitas vezes a palavra NUNCA, eu me horrorizei diante da incalculabilidade da duração do eterno e porque na incalculabilidade da duração do eterno e no correlato horror-aniquilação que constituíram minha primeira formulação, eu não descobri nenhuma infinitude positiva nem qualquer substância gorda que me sustentasse, mas, ao contrário, descobri apenas minha precariedade e minha completa fragilidade, tornei-me então uma pessoa intrinsecamente filosófica, e é uma pessoa intrinsecamente filosófica aquela que está na situação de dizer tudo sem negociar absolutamente com nada e com ninguém, pois seu único antecedente, seu único rodapé e seu único mestre é o grito do primeiro despertar.”

O trecho acima foi extraído de “Certeza do Agora” (Ateliê Editorial), celebração autobiográfica de Pessanha, um escritor ”romântico” que louva o abismo e o desespero como formas de impulso à rendição criativa diante do que existe.

.

Mario Vitor Santos
É jornalista, diretor-executivo da Casa do Saber.

 
1