1
entrevista
POLÌTICA

Portugal e a síndrome de Liliput
Por Renato Mendes

Em novo livro, o filósofo José Gil aponta os medos que afligem a atual sociedade portuguesa

“Portugal, Hoje - O Medo de Existir”, o novo livro do filósofo português José Gil, é um dos diagnósticos mais lúcidos já feitos sobre a atual sociedade portuguesa. Para o autor, falta um projeto de futuro a Portugal, país acometido pela “síndrome de Liliput”. “Há qualquer coisa no português que se manifesta como uma complacência paralisante, a complacência no pequeno. É esse o nosso mundo, e o nosso mundo tem que ser pequenino, e nós nos fazemos pequeninos como nosso mundo”, diz o filósofo na entrevista abaixo.

O livro foi publicado no final do ano passado e já teve quatro reedições em três meses. Foi o primeiro escrito diretamente em português por José Gil, a quem a revista francesa “Le Nouvel Observateur”, na edição comemorativa do seu 40º aniversário, considerou como um dos “25 grandes pensadores do mundo”.

Nascido em 1939, em Muecate (Moçambique), José Gil licenciou-se em filosofia na Sorbone, em Paris, em 1968. Regressou a Portugal em 1976 e assumiu o cargo de adjunto do secretário de Estado do Ensino Superior e da Investigação Científica no quarto governo provisório do país. Em 1981, tornou-se professor convidado na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, onde é atualmente professor catedrático. Seu doutoramento, concluído em 1982, na Universidade de Paris VIII, foi feito sob a orientação do historiador da filosofia François Chatêlet.

José Gil é autor de várias obras relevantes, que tratam de filosofia, artes, dança e literatura. No Brasil, é ainda um pensador a ser descoberto e valorizado. Apenas dois de seus livros foram lançados no país: “Diferença e Negação na Poesia de Fernando Pessoa” (Relume Dumará) e “Movimento Total – O Corpo e a Dança” (Iluminuras).

Nesta entrevista, concedida em Lisboa, o filósofo fala sobre os principais conceitos de seu novo livro, analisa a vida cultural e política em Portugal e reflete sobre a União Européia, que ele diz estar se constituindo como uma “fortaleza” contra a imigração.

*

O conceito da não-inscrição que o sr. desenvolve em “Portugal, Hoje - O Medo de Existir” permeia todo o livro. O que é a não-inscrição?

José Gil: A não-inscrição é quando o acontecimento não acontece. E não acontece porque há uma espécie de buraco negro que suga o espaço público, entre o acontecimento e a vida privada do indivíduo. Por exemplo, no plano artístico e cultural, os portugueses não têm uma escala de valores para aferir o que é e o que não é importante. Eles vão buscar lá fora.

Se os filósofos Peter Sloterdijk e Slavoj Zizek começam a ser muito comentados em França, em Inglaterra ou nos EUA, então eles se tornam muito importantes aqui. Mas, afinal, qual é a importância para nós? É puramente fachada, não é uma importância real que modifica o nosso comportamento. Nós não temos a capacidade de ver o alcance de um discurso, um pensamento ou um comportamento. Não se inscrevem na nossa vida, e isso é dramático.

Conheço muitos pintores, e muito bons pintores, e eles estão todos isolados, porque ninguém lhes deu importância. A própria tipologia crítica da pintura e da literatura é, em geral, descritiva, não marca uma critica que faça avançar as coisas ou desenvolver-se. Cada um está isolado, e cada um vale por si e mais nada. A não-inscrição é isso.


A repercussão de algum fato é o sinal da inscrição?

José Gil: A inscrição é o sinal de que o fato fica marcado e transforma a história, transforma os comportamentos, a visão e a razão das pessoas. Por que é que a arte e certos pintores do século XX tiveram importância não só na historia da pintura e da cultura, mas também na própria historia social? Porque eles se inscreveram. A frase “depois de tal autor já não se pode escrever da mesma maneira” quer dizer que o tal autor foi marcante. Em Portugal, quando as pessoas assistem a espetáculos, vão às salas de referência em arte e cultura, mas depois não há nenhuma discussão.


O conceito da não-inscrição interfere ou cria uma percepção de tempo própria. O Sr. pode dizer como isso se dá?

José Gil: Com certeza que há um tempo próprio da não-inscrição: é o tempo da repetição e do adiamento permanente. O que era característico do Portugal do tempo da ditadura de Salazar, que deveria ter sido completamente transformado, voltou aos comportamentos e a vida portuguesa. Não há apetência para a ação porque eu não vejo o efeito da minha ação, há uma série de barreiras que faz com que o tempo e a dimensão do futuro estejam quase ausentes do nosso presente.

O que é uma sociedade que se desenvolve em permanente movimento? É uma sociedade que tem inscrito no seu presente a dimensão do futuro como projeto, nós somos um projeto no futuro. Os portugueses não têm projeto. Você dir-me-á que tudo mudou com o novo governo socialista do primeiro-ministro José Sócrates, que o Sócrates tem um projeto para modernizar Portugal. Mas repare que toda a gente diz que o Sócrates só faz leis, que só diz que faz. Até o presidente da República já cobra resultados. Não há resultados, e mais uma vez não se inscreve.

Esta política reformista, saudada como nova e diferente, é que vai provocar uma mudança, pelo menos está ameaçada a falhar. E está ameaçada a falhar em função da inércia da não-inscrição, a força da inércia de uma temporalidade que quer a repetição do mesmo, mas do mesmo sem mudança e sem dimensão do futuro na nossa vida. Isso está no nosso inconsciente pessoal e individual, bem como na estrutura própria da nossa sociedade.


Os portugueses não entendem o que foi a ditadura porque não falaram sobre ela e ainda não falam, não a inscreveram em suas vidas. Será que a Revolução dos Cravos foi uma oportunidade perdida para que esse período de obscurantismo não se inscrevesse?

José Gil: O regime salazarista era um regime que rebentava com toda a iniciativa pessoal, não havia liberdade. Eu vivi durante dois anos em Portugal sob Salazar e era impossível, ninguém tinha um futuro desenhado, ninguém podia sonhar se não sonhos irreais e utópicos, para compensar a falta do que se lhes dava como possibilidade real na vida.

Se foi uma ocasião perdida, foi porque mais uma vez as forças de não-inscrição foram mais fortes do que a necessidade de inscrever e pensar. Toda gente, exceto oposicionistas e exilados, estava comprometida. Depois havia aquele hábito, que é uma estrutura de não-agir, de não-inscrever e de deixar brancos. Portanto, a solução mais fácil para descanso intelectual e moral era deixar a ditadura como qualquer coisa que passou irremediavelmente, acabou e sobre a qual não temos mais que pensar.

Quis se fazer uma cruz sobre o salazarismo, sobre a ditadura, sobre a guerra colonial. Esta cruz sobre a guerra colonial teve conseqüências drásticas, com imensos soldados traumatizados constituindo associações clandestinas após o 25 de Abril, porque ninguém queria pensar a guerra colonial. E foi uma ocasião perdida, pois que mais uma vez as forças da não-inscrição agiram. “Não vamos julgar a polícia política”, dizia.

Eu não estou a fazer apologia do sangue e de uma revolução do sangue, estou a mostrar a necessidade, como você disse, de pensar, repensar e inscrever o que foi o salazarismo. Ora, o salazarismo foi tão pouco inscrito em nossas vidas que os nossos filhos não sabem às vezes quem foi Salazar, não sabem que houve em Portugal a mais longa ditadura da Europa do século XX.


O sr. identifica como “circuito do pequeno” a necessidade do português em transitar entre pequenas coisas ou idéias, investir nelas e logo desinvestir, conectar-se e desconectar-se. Uma das conseqüências desse comportamento é a síndrome de Liliput, como o sr. diz.

José Gil: Há qualquer coisa no português que se manifesta como uma complacência paralisante, a complacência no pequeno, que se manifesta nos diminutivos. Há portanto uma dimensão afetiva que faz com que o pequenino seja bom -“small is beatifull now, small is good”-, nós imediatamente entramos em simbiose.

É esse o nosso mundo, e o nosso mundo tem que ser pequenino, e nós nos fazemos pequeninos como nosso mundo. Isso vem do Salazar, lembre-se que havia uma exposição, e que ainda existe, com o nome “Portugal dos pequeninos”. O pequenino era necessariamente e ontologicamente bom, havia como que uma infantilização, era uma representação daquilo que era Portugal, antes de mais uma representação emblemática e simbólica. O pequenino é um mundo enclausurado dentro de uma afetividade autocomplacente, o que faz com que uma vez chegado aí, exista como que um pequenino pathos que acaba com o sentido.

O pathos faz como que uma síntese da inteligência portuguesa -estou a dizer coisas que não disse no livro. O sentido nasce de uma imposição analítica, uma sociedade em progresso analisa cientificamente, filosoficamente e tecnologicamente; mas, se você sintetiza, se você vive em uma sociedade que gosta de sínteses, gosta de ter tudo e todo mundo pequenino, o avanço não é possível. Isso também é a síndrome de Liliput: nós somos pequeninos e temos que ser pequeninos. Isto é muito mal porque mutila as ambições que podemos ter de nós próprios, se bem que tudo isso esteja mudando em Portugal.


Para Deleuze, "a filosofia é a arte de formar, inventar, fabricar conceitos". O seu livro é repleto deles. Por que são tão importantes?

José Gil: Eu não sei se eles são importantes. Vou ao Deleuze, o conceito é certamente o resultado de uma criação, o que interessa não é dizer e repetir o que os outros disseram, o que me interessa é poder pensar e, se puder, pensar numa maneira que eu não fui buscar, que não vejo em outra pessoa. Se os conceitos dos outros não me satisfazem, eu tenho que inventar conceitos para compreender. Ora, na minha relação com Portugal era muito necessário que eu pudesse compreender o que estava a viver eu próprio, e para isso era necessário pensar.

Pensar é criar sentido. Precisamente uma das barreiras que esta sociedade impõe aos seus indivíduos é a de não pensar, é o tal enclausuramento do sentido. Não pensar, não criar novo, e sobretudo não pensar a partir da existência portuguesa. Como se a existência portuguesa não tivesse dignidade filosófica para se poder pensar. Como se tudo isso no fundo fosse, como diz Eça de Queiroz, uma choldra.


O que pensar atualmente da obra de Deleuze?

José Gil: Como diz alguém que escreveu livros sobre Deleuze, e que muito novo morreu no ano passado, François Zourabichvili, “nós não pensamos ainda Deleuze”, portanto nós não sabemos ainda o que é que ele trouxe. Se bem que já saibamos que Deleuze seja um filósofo conhecido do Japão até os EUA. Há uma importância que se estende muito para além do domínio da filosofia, que vai aos artistas, que vai aos bailarinos, que vai aos arquitetos. Tenho aí revistas de arquitetura deleuzeana de Nova York. Há um fenômeno atual de desenvolvimento, portanto não se pode falar ainda totalmente de pós-deleuzenismo. Nós estamos em pleno deleuzenismo.

Agora, há perigos, quando há um pensamento tão forte e diferente, porque ele nos obriga a pensar a diferença precisamente. Entre outras coisas, ele nos obriga a pensar em movimento, quando toda a filosofia tradicional leva-nos a pensar num fundamento único, numa unidade de pensamento. Ele vai mostrar que o pensamento é profusão de diferenças, movimento de diferenças, que isso mesmo é a criatividade, a invenção e uma maneira de viver, que enfim nós podemos criar a partir de um movimento, que é a nossa própria relação com o que nos é dado do mundo como forças. É um pensamento de forças.

Digamos que o pensamento tradicional da história da filosofia é antes de tudo um pensamento com idéias estáticas, conceitos estáticos, ao passo que os conceitos de Deleuze são conceitos-força, conceitos em que as próprias forças formam o movimento do conceito. De onde a dificuldade em entrar em Deleuze. Ele quis, sobretudo, que os conceitos tivessem um movimento que não os afastasse da vida, mas que integrasse o movimento da vida nos movimentos dos próprios conceitos, e isso é uma novidade.

Em geral os conceitos estão lá para designar o que é a vida, os conceitos dele têm a ambição de pertencer e de se misturar com a vida, se bem que seja pensamento. Isso faz com que o pensamento dos afetos, o pensamento do corpo, o pensamento do que é pensar, sofra uma remodelação radical com a filosofia de Deleuze.


O que há de interessante na filosofia atual?

 
1