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três palavras

Nelson de Oliveira

As palavras são fórmulas mágicas adormecidas, são amuletos endiabrados, são deuses delirantes. Os xamãs, os alquimistas e os escritores talentosos conhecem seus segredos. Minhas palavras prediletas são as que encerram novos sentidos. São as que, mergulhando fundo na irreverência, despertam a fantasia e a imaginação. A seguir apresento três criaturas carismáticas, da breve “Genealogia de Meus Deuses Vocabulares”.


Estroboscópio

Deus da vida e da morte, da luz e das trevas, Estroboscópio é o primogênito da opulenta Estrambótica e de seu meio-irmão, o perverso Hipertexto. Entre os astecas, os mitos e as lendas em torno desse deus orgulhoso, onipotente e onipresente, eram contados e encenados pelos sacerdotes nos dias ímpares. Para Santo Agostinho, Estroboscópio, sempre em busca de picanhas malpassadas e tintos italianos (do Barbudo e do Barbitúrico, principalmente), simbolizava a fome devoradora e o desejo insaciável. Foi traído, assassinado e devorado por seus três filhos: Oxidação, Chauvinista e Esquizofrênico.


Forrobodó

Deus do céu e da terra, do mundo espiritual e do mundo material, Forrobodó foi gerado no décimo oitavo dia da criação do universo. Holerite e Heterossexual, seus pais, eram inimigos ferozes, que, deslumbrados com a beleza do Sol recém-criado, baixaram as armas e se entregaram livremente ao intercurso carnal. Antes do casamento, as virgens babilônias costumavam louvar em jejum, durante três dias e três noites, a virilidade transcendental de Forrobodó. Para Freud e Jung, o deus das vidas passadas e futuras está no cerne do complexo de Esperanto. Foi destronado e morto pelos elfos Girafa e Girassol, no milésimo aniversário da inauguração da Grande Muralha da China.


Paralelepípedo

Entre os imperadores da dinastia Ming, era o deus supremo e o mais vingativo, filho de Metempsicose e Estrelato. Quando Esculacho, filho de Enxaqueca, deus da medicina, instruído pelo centauro Opróbrio na arte de curar as doenças, descobriu o segredo para ressuscitar os mortos, foi fulminado por Paralelepípedo. Entre os antigos egípcios, Paralelepípedo representava o conhecimento total, o único detentor do segredo da criação e da extinção. Na doutrina mística de Ptolomeu, esse deus representava a curvatura priápica do círculo cósmico.

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Nelson de Oliveira
É escritor e doutorando em letras na USP. Publicou mais de 20 livros, entre eles "Subsolo Infinito" (romance), "A Maldição do Macho" (romance) e "Algum Lugar em Parte Alguma" (contos).

 
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