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em obras
SOCIEDADES

Lar e pátria
Por Lisette Lagnado

Depois da 27a. Bienal de São Paulo, Ahlam Shibli já é artista confirmada para a Documenta 12, de Kassel

As fotografias reunidas sob o título “Eastern LGBT” faziam parte de uma pesquisa ainda embrionária quando conheci pessoalmente Ahlam Shibli na primeira semana de abril de 2006. Naquela época, ela estava expondo a série “Trackers” no Museu de Arte Contemporânea de Herzliya. Minha viagem tinha o objetivo de pesquisar a cena artística da região para a 27a. Bienal de São Paulo.

Ahlam Shibli, não obstante, havia sido convidada em reunião curatorial numa etapa anterior. Portanto, nosso encontro já era uma discussão acerca do projeto a ser apresentado para a Bienal, uma vez que essa edição teve como pré-requisito que todo artista apresentasse um trabalho inédito, ao lado de uma obra anterior, formando assim uma espécie de “mini survey” -uma estratégia que seguimos com rigor para evitar o déjà-vu da maioria das bienais, mas também para mostrar a abrangência do percurso do artista e fomentar projetos experimentais.

Face a face, numa mesa de café, Ahlam e eu iniciamos uma relação delicada, prestes a desmoronar na primeira palavra em falso: eu havia abolido as representações nacionais para a Bienal de São Paulo, e o desejo da artista era aparecer como nascida em Haifa, Palestina. Ao falar da diferença entre “house” e “home”, a artista não podia prever a ressonância que estas duas palavras gerariam numa interlocutora tão próxima e distante: de pais judeus sírios, eu nasci e vivi mais de 13 anos na República Democrática do Congo e, por motivos políticos, me mudei com minha família para o Brasil.

Incentivei o desenvolvimento da série “Eastern LGBT” por vários motivos. Um deles, porque, logo depois de “Trackers”, me parecia difícil que ela fizesse algo tão bom, envolvendo novamente soldados -para quem não sabe, “Trackers” trata de descendentes de palestinos já cidadãos israelenses que servem o Exército de Israel. Depois, busquei evitar o clichê da crítica aos territórios ocupados pela lente da “vítima”.

Ahlam Shibli é uma artista dotada de uma fala exuberante e idéias sempre devidamente fundamentadas. Com uma determinação incansável, em qualquer série que desenvolva, “house” e “home” serão seu leitmotiv. Recorrente em seu discurso, o termo “narrativo”. De fio em agulha, este gênero, a narrativa, que parecia banido da contemporaneidade, volta agora quase como uma tentativa de transmitir experiências que pertencem a um único enunciado: como se sentir “em casa” (“at home”)? Sua experiência não anda de boca em boca (Walter Benjamin), mas de imagem em imagem. Sabemos qual o poder de uma imagem no mundo atual.

Em “Eastern LGBT”, esta casa é o corpo. Cada um tem seu próprio corpo e é livre de fazer o que bem entender com ele. Somos responsáveis por ele, devemos cuidar dele -Michel Foucault que o diga com sua “História da Sexualidade”! Só que esse corpo, ao contrário do que aprendemos com os filósofos, não nos pertence. Em qualquer religião, só estamos aqui pela vontade de um “mestre do universo”. As decisões permitidas para agir sobre esse corpo esbarram em vários tabus, alguns ligados à higiene e à alimentação, a maioria carregando consigo orientações relativas às práticas sexuais. O corpo é social, mas é antes demais nada divino -assim, tanto Deus, como a sociedade que reproduz seus ensinamentos, determinam os limites do que podemos fazer de nós mesmos. A ética entre os homens tem leis previstas para cada caso.

Para ficar apenas nas três religiões monoteístas, o homossexualismo, em suas diversas modalidades, é proibido e deve ser punido. Estranho, alienado de seu próprio desejo e agonizando de culpa, o corpo sofre a impossibilidade de realizar sua comunhão (“home”) no encontro com um parceiro do mesmo sexo: esta é uma casa “incômoda” para viver. A escolha individual se impõe, e o debate agrega valores que desequilibram a noção de “casa” e, mais grave, de “pátria”.

Contra uma sociedade repressora, surge outra noção, a de “comunidade”. É preciso sair de sua casa familiar, para fazer comunidade com pessoas que partilham as mesmas escolhas. Ora, que a família não seja mais um lar de felicidade e que “nightclubs” e outros “inferninhos” possam representar um ninho possível -eis a dessacralização que a geração dos anos 1960 investiu com a força de uma libido revolucionária no que diz respeito aos comportamentos (Herbert Marcuse, “Eros e Civilização”). Donde a pergunta: como o trabalho de Ahlam Shibli se diferencia dessa chave para ganhar singularidade?

Pensando bem, seu depoimento sobre “Trackers” serve perfeitamente para explicar a série “Eastern LGBT” -embora sejam fotografias mostrando o ser humano em outra posição na sociedade, a questão de fundo é a mesma: “(...) the price to be paid by a minority to the majority, perhaps in order to be accepted, perhaps to change its identity, perhaps to survive or perhaps to achieve all of this and more”.

A câmera de Ahlam Shibli não recua. Suas fotografias apresentadas na 27a. Bienal de São Paulo deram uma abrangência maior para a estrita definição da casa como lugar, território, residência. “Eastern LGBT” reconhece que o “drive” sexual também pertence ao vocabulário afetivo ligado à palavra “home”. A constituição de uma família é a base para legitimar as relações sexuais. Deus não criou a mulher para o homem?

Segundo a artista, “nós todos precisamos ter um vínculo com uma comunidade” -mesmo que esta comunidade tenha de ser encontrada em outros países. É quase uma idéia de “exílio voluntário” para poder realizar o desejo de uma casa chamada “corpo”. Diante dos problemas de legalização da Palestina, a artista dá mais um nó na difícil tarefa compreender o sentido de uma pátria. Por que Ahlam Shibli não menciona a pátria, mas usa uma palavra, “home”, que lhe serve de sinônimo e ao mesmo tempo lhe permite uma distância?


Este artigo é publicado simultaneamente na revista online “Contemporary Art from the Islamic World” (http://universes-in-universe.org/eng/islamic_world/)

(Publicado em 2/3/2007)

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Lisette Lagnado
É curadora da 27ª Bienal de São Paulo, crítica de arte e editora de Trópico e da seção "em obras" desta revista. Foi coordenadora do Arquivo Hélio Oiticica (Projeto HO e Instituto Itaú Cultural). Publicou "Leonilson - São Tantas as Verdades" (DBA), entre outros.

1 - Depoimento da artista: LGBT é um código usado por organizações de apoio que significa Lésbica, Gay, Bissexual, Transgender. Este trabalho lida com pessoas de países orientais que tiveram de abandonar seu lar porque nas sociedades em que vivem não podem se comportar como se sentem. Somente no estrangeiro, e às vezes apenas em clubes nos fins de semana, encontram condições que lhes permitem ser o que são. As 37 fotografias de "Eastern LGBT" foram tomadas em 2004 e 2006, em Zurique, Barcelona, Tel Aviv e Londres.


2 - Ahlam Shibli é uma das artistas convidadas para a Documenta 12, de Kassel (Alemanha), que ocorre entre os dias 16 de junho e 23 de setembro de 2007.


3 - Lisette Lagnado foi curadora-geral da 27a. Bienal de São Paulo. O comitê curatorial era constituído de Rosa Martínez, Cristina Freire, Adriano Pedrosa e José Roca, enquanto Jochen Volz atuou como curador convidado.


4 - Cf. Ulrich Loock: “Ahlam Shibli. Resisting Oppression”, in Camera Austria, 93, 2006, Seite, pp. 41-51.


5 - Em português, a palavra “casa” deriva etimologicamente em “casal”, “casamento”... sem contar a “casa da sogra”. O artista José Leonilson (1957-1993), morto de aids, deixou dois desenhos com inscrições que remetem a questões parecidas com as de Ahlam Shibli. Num deles, o corpo é apresentado com um “templo”; em outro, o corpo é o invólucro de uma “montanha interior protetora” -instâncias divinas e geográficas.

 
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