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prosa.poesia

Poesia presente: Aníbal Cristobo
Por Heitor Ferraz

Autor argentino, que já foi figurante de cinema e vendedor de jóias no Rio, fala de suas escolhas afetivas

Dizem que agora ele está migrando para o cinema, ainda como figurante. Não faz muito tempo, era balconista num café, em Barcelona. Estava apaixonado pelas máquinas de café expresso. Nesta época, tomava notas para um futuro romance, que não tem pressa de escrever. Para completar um pouco o seu currículo, vale lembrar que já tinha sido vendedor de jóias numa galeria do Rio de Janeiro; que já tinha trabalhado com cultura, num centro cultural de Buenos Aires, na Argentina, seu país natal; que já tinha traduzido -para o português- alguns poetas importantes, como o peruano Antonio Cisneros (“Sete Pragas Depois”, pela coleção “Ás de Colete’’, em parceria com Carlito Azevedo), ou o chileno Gonzalo Rojas.

Nascido em 1971, em Lanús, província de Buenos Aires, autor de três livros (“Teste da Iguana”, “Jet-Lag” e “Krill”, todos publicados no Brasil), atualmente reunidos no volume “Miniaturas Kinéticas” (pela coleção “Ás de Colete’’, da 7 Letras/Cosac & Naify), Aníbal Cristobo faz de sua vida um eterno deslocamento por paisagens variadas. Mas, antes de tudo, antes de ser este viajante ou figurante de cinema, Aníbal é um poeta, e como poeta um construtor de imagens e cenários poéticos. Sua poesia também traz a marca de quem faz e desfaz seus roteiros, cria espaços e coloca personagens atravessando a cena, falando frases soltas, como uma “filha do capinzal”, ou “uma garota indiana do Denver”.

Não surpreende saber pelos amigos que hoje Aníbal faz figuração em cinema. Não surpreendem suas passagens pela tela. É só um desdobramento de sua própria poesia, tão atrelada ao mundo da ficção cinematográfica, sem necessariamente citar títulos de filmes ou de diretores importantes. Sua poesia dá voz aos espaços, e estes espaços podem ter referências reais ou serem totalmente inventados. Isso não tem importância: Aníbal cria cenas e cenários, mostra a solidão do homem e o pouco que ainda lhe resta de afetividade e de contato humano. Claro que sua poesia não se amarra com este simples cordão da generalização, mas de certa forma é este ar que sua obra respira:

perto
dos amigos
, da garota que escreve
dos desertos.
(“Último Jantar em Buenos Aires”, em “Jet Lag”)

No ano passado, o poeta Aníbal Cristobo estava perdido pelo mapa da América Latina, mandando boletins semanais aos conhecidos. Esteve no Peru, fez uma viagem por dentro do país; foi para o Equador e se perdeu numa cabana, numa praia de turistas. Quando, meses depois, voltou a Barcelona com o romance incompleto, retomou o projeto de um novo livro de poemas. Entrou na faculdade e foi estudar filologia inglesa. Planos? Sim, além do livro de poemas “Krakatoa” e de “Brazilian Groove” (série de poemas dedicados aos amigos), o poeta globetrotter já começou a arrumar as malas. O destino agora é Marrocos, com uma amiga.

No final do ano passado, a partir de um modelo argentino, ele criou um blog de poesia brasileira (http://asescolhasafectivas.blogspot.com), que em poucos dias já contava com a participação de dezenas de poetas e hoje já passa a casa dos cem. O blog tornou-se a antologia mais interessante e viva da poesia que se faz no Brasil. Uma antologia diferente, pois nela não é o “mediador” do blog que escolhe poetas e poemas. É uma “curadoria auto-gestionada de poesia brasileira”, como ele a nomeia, na qual os autores escolhem três poemas próprios e mencionam poetas que gostam. São as escolhas afetivas (ou “afectivas’’, como grafa Aníbal, nesta mistura particular de línguas). Este modelo, inclusive, vem ganhando novos adeptos: além do original argentino e da boa e salutar cópia brasileira, já existem outros no Peru, na Espanha e no México (os links podem ser encontrados no próprio “asescolhasafectivas”, de Aníbal).

No depoimento que segue (escrito à noite, enquanto esperava a chegada de turistas que vinham de Perpignan), Aníbal fala de sua infância, de sua relação com a poesia (sua mãe também é poeta) e com a música popular, e de como ele, que viveu no Rio de Janeiro nos anos 90 e lá lançou seu primeiro livro, vê a poesia brasileira. Como não poderia deixar de ser, destaca e comenta algumas de suas escolhas afetivas.

*

Como surgiu seu interesse pela poesia?

Aníbal Cristobo: Minha mãe escreve poemas: esse foi meu primeiro contato. Ela tinha publicado um livrinho, em 1977, chamado simplesmente “Poemas”, e o fato de ele ter sido impresso na mesma gráfica das edições de Mafalda era algo que me inspirava muita confiança. Acho que com dez anos, mais ou menos, também já ouvia com freqüência alguns discos que ela tinha de Nicolas Guillén recitando os poemas do “El Gran Zoo”.

Essa foi uma boa porta de entrada, pois trazia um universo animal, apresentado em forma de zoológico, que é um tipo de formato muito familiar para um garoto; mas ao mesmo tempo os poemas não se esgotavam nisso, mas propunham jogos de imaginação -não entendia muitos deles, mas nem por isso deixavam de me fascinar, como a apresentação da professora-girafa e outros que agora não me lembro.

Também havia em casa um livro de poesia universal bastante enigmático, do qual logo decorei o poema “O Corvo”, de Edgar Allan Poe, numa tradução tão barroca que eu não sabia o sentido de muitas das palavras do texto. Porém, minha primeira grande descoberta poética foi o livro “Trilce”, de César Vallejo. Nesta época, minha mãe freqüentava um café de artistas, onde se encontravam pintores, músicos, escritores etc.

Era a época da volta da democracia na Argentina e se vivia um clima de muita intensidade. Então, neste café, que eu às vezes ia e onde, com muito carinho e muita benevolência, me deixavam ler meus primeiros rascunhos, fiz contato com vários poetas pouco conhecidos, mas que tinham propostas muito sólidas e interessantes. E eu misturava este mundo com “Trilce”, que, como disse antes, teve um impacto enorme em mim, porque descobri algo que me deixou muito feliz: que a linguagem não era um discurso subsidiário de uma realidade de outra ordem, mas era o acontecimento em si. “Trilce”, ainda que por momentos tenha uma narração bastante evidente de acontecimentos pontuais, foi o livro que me revelou a materialidade da linguagem e seu potencial libertador.


Entre os poetas jovens brasileiros, é comum surgir como influência marcante a música popular. No seu caso, a música teve alguma importância?

Cristobo: Em 1982, com a Guerra das Malvinas, e um ano depois, com o retorno da democracia, a música deu um salto muito importante na Argentina: por causa do conflito com o Reino Unido, as rádios tocavam muitas canções espanholas, coisa que antes era impensável. Entre tantos grupos e solistas, teve um -e me refiro a Luis Alberto Spinetta- que sem dúvida mudou para sempre a minha sensibilidade e minha relação com a poesia e a música.


Por quê?

Cristobo: O caso de Spinetta é curioso porque grande parte do interesse estava no fato de que, como ele tem uma voz extremamente nasal e algo afetada, eu não conseguia entender grande coisa do que diziam suas letras. Estas, ao mesmo tempo, eram em alguns momentos tão disparatadas que ninguém tinha vergonha de inventar o trecho que não conseguia escutar direito. Quase sempre a frase resultava provável em suas canções. Mais de uma vez, com alguns amigos, comparei nossas “versões” de alguma letra do Spinetta.

Por fim, muitos destes inventos terminavam por seu exatamente isso: inventos. Já que não era mais o Spinetta o autor destes versos, a gente tinha de aceitar que nós mesmos éramos os criadores daquelas letras. Este era um caminho de criação na qual não se tinha consciência de estar criando, ou seja, não gerava uma tensão, e a criação deixava claro que cada um de nós tinha um imaginário próprio. Bom, esta é uma reflexão que faço hoje, não posso dizer que todos nós tivemos a mesma experiência, claro.


No final dos anos 90, você veio morar no Brasil. Por que você decidiu morar aqui?

Cristobo: Cheguei ao Rio de Janeiro de um modo muito imprevisto e por acaso, como devia ser. Em Macchu Picchu, em janeiro de 96, conheci uma carioca que estava viajando com seu namorado pelo Peru e pela Bolívia. Poucos dias depois, ela voltou para o Brasil e eu continuei viajando com o namorado dela, atravessamos praticamente o continente de oeste a leste num barco, até chegar em Belém do Pará, e depois São Luís do Maranhão, Goiânia e finalmente Rio de Janeiro.

Foi uma viagem fantástica e improvável, que até hoje não sei como pôde acabar bem: viajávamos quase sem dinheiro, fazendo amigos pelo caminho, caras que moravam no subúrbio de São Paulo, fanáticos por Raul Seixas, pessoas assim. Inicialmente tinha pensando em passar apenas uns dias na “cidade maravilhosa”, mas a coisa foi se arrastando e terminou com um casamento e mais cinco anos de residência no Brasil.


Você já conhecia a poesia brasileira?

Cristobo: Conhecia um poema... Acho que de Manuel Bandeira, chamado “O Bicho”, bastante terrível, que falava de um homem que procurava comida numa lata de lixo. E pelo “Diario de Poesía”, tive a oportunidade de ler uma entrevista e alguns poemas de Ferreira Gullar, Haroldo de Campos, Armando Freitas Filho e Ana Cristina César. Mas meu contato no país com a poesia brasileira foi muito desconcertante: o primeiro livro que me recordo de ter lido era de Paulo Leminski e se chamava “Distraídos Venceremos”.

Eu estava preparado para muita coisa, mas não para isso. Então, decidi mergulhar para valer na poesia brasileira contemporânea, a qual, não sei se naquela época eu tinha certeza disso, me parecia ser algo informe, que se prestava a qualquer tipo de projeto. E foi o que fiz. Travei contato com Ferreira Gullar, Sebastião Uchôa Leite, Armando Freitas Filho, Carlito Azevedo, Waly Salomão...

Na verdade, meu trabalho era mais detetivesco: passava horas na Biblioteca Nacional lendo os contemporâneos -lembro-me de uma tarde em que me diverti muito com um livro de José Paulo Paes-, ou olhando as livrarias, folheando as revistas. Depois, graças a Suzana Vargas, consegui alguns telefones. O projeto, ainda que não tivesse nenhuma finalidade, era bonito. Consistia em entrevistar os poetas, fazer traduções... Era um dossiê bastante consistente. Parte disso acabei publicando aqui e ali na Argentina, de forma fragmentária. Levei esse projeto com muita dedicação e seriedade, ficava frustrado quando não conseguia traduzir de forma satisfatória um poema.


Foi neste período que você publicou aqui, em edição bilíngüe, o “Teste da Iguana”, que saiu pela 7 Letras. Como foi a recepção desse livro?

Cristobo: Não tenho muito claro de como foi a recepção do livro, na verdade. Eu estava entusiasmado porque Armando Freitas Filho me tinha levado à 7 Letras e tinha convencido o Jorge Viveiros de Castro a editar meu livro. Ao mesmo tempo, percebi que Carlito Azevedo também gostava do que eu escrevia, Sebastião Uchôa Leite também demonstrou simpatia pelos meus poemas. Waly chegou a elogiar alguns. Porém, quando o livro foi lançado, não saiu nenhuma resenha, ninguém comentou nada. Acho que o único que escreveu algo a respeito foi o Léo Martinelli, mas o artigo não chegou a sair.

É verdade que a edição era bem pequena, mas, como era meu primeiro livro e eu acreditava que havia entregando algo interessante, achei que teria alguma repercussão. Minha sensação, no entanto, é que acabou sendo ¬¬mais importante -sempre dentro dos limites do que é a difusão de poesia de um desconhecido de 25, 30 anos- o que fui publicando na revista “Inimigo Rumor”. Talvez pela minha proximidade com este projeto não tinha muita consciência do alcance. Só fui perceber isso depois, quando fui apresentado pelo Felipe Nepomuceno ao Arnaldo Antunes e ele me disse: “Aníbal Cristobo? Ah, sim, conheço seus poemas da ‘Inimigo’”. Foi só aí que me dei conta de que as revistas podem ter um nível de penetração que o livro não tem, porque um desconhecido não vai ler o seu livro, mas pode ler o seu poema na revista em que saíram poemas de autores que ele gosta e conhece.


A gente percebe na sua poesia uma presença do elemento ficcional. Ela às vezes parece ter um pé no cinema e no romance. Você acha que a ficção influenciou sua maneira de escrever poemas?

Cristobo: Sim, eu me sinto muito atraído pelo livro de poesia como um relato ficcional. Descobri isso num livro de Fernando Kofman, chamado “De Bell a Campana” -que é um livro que, mediante uma série de poemas, coloca em ação determinados personagens, digamos que há uma trama, um desenlace, uma tensão que percorre todo o livro e que, não obstante, permite que cada poema seja lido como uma unidade de sentido em si mesmo. Não me imagino escrevendo poemas que dizem algo como “Hoje acordei triste”.

 
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