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entrevista
POESIA

A arte da recusa
Por Carlos Adriano

“O poeta não deve ir atrás de recompensas”, diz Augusto de Campos, que lança novo livro de traduções

“Não”, “Despoesia”, “Expoemas”, “Viva Vaia”, “Poetamenos”. Os livros de poesia de Augusto de Campos sempre portaram, já desde o título, o manifesto de um programa poético-ideológico da recusa. Se sua própria poesia é “de recusa”, os livros de ensaios (como “À Margem da Margem” e “Música de Invenção”) e de traduções e estudos críticos (como “Verso Reverso Controverso” e “O Anticrítico”) também estão orientados segundo tal ética poética.

Portanto, o recém-lançado “Poesia da Recusa” (ed. Perspectiva) é congenial ao projeto de invenção pautado pela coerência cristalina e o rigor sem concessões que Augusto vem mantendo há mais de 50 anos. Este novo livro de traduções e ensaios é genial não apenas pela alta qualidade dos textos (a preciosidade das “transcriações” do artista) ou pela reunião de escritores notáveis (sem o ranço da síntese de um cânone), mas pela pertinência de um projeto raro a um contexto tão depauperado como o atual.

Na introdução, o autor baliza seu postulado: “Em defesa de Mallarmé, afirmou Valéry, certa vez, que o trabalho severo, em literatura, se manifesta e se opera por meio de recusas. A melhor poesia que se praticou em nosso tempo passou por esse crivo. Da recusa estética (Mallarmé) à recusa ética (Tzvietáieva), se é que ambas não estão confundidas numa só, essa poesia, baluarte contra o fácil, o convencional e o impositivo, ficou à margem e precisa, de quando em vez, ser lembrada para que a sua grandeza essencial avulte sobre o aviltamento dos cosméticos culturais”.

Ao se deter nos “humilhados e ofendidos da poesia”, nos “rebeldes insubornáveis” em desacordo com o sistema dominante, “Poesia da Recusa” realiza um censo sensível da falta de senso com que a sociedade esbanjou seus poetas em diversos países e épocas (“um país que massacra e menospreza seus poetas sinaliza uma degenerescência grave no seu estágio civilizatório”, escreve Augusto). Do exemplo histórico dos russos a exemplares tragédias americanas, o livro defende um radical engajamento pela vida e pela arte: “A poesia requer de nós algum instinto revolucionário, sem o qual ela não tem sentido”.

Na entrevista abaixo, Augusto de Campos continua, aos 75 anos, demonstrando seu instigante vigor de pensamento e sua consciência lúcida de posição, ensinando idéias aos mais jovens e coragem aos mais velhos. A partir de estudos e traduções de Kuhlmann, Mallarmé, Blok, Akhmátova, Pasternak, Mandelstam, Iessiênin, Tzvietáieva, Yeats, Gertrude Stein, Wallace Stevens, Hart Crane e Dylan Tomas, ele desenvolve uma série de reflexões sobre a arte da poesia, baseada em tradições mas com suas antenas sintonizadas no presente e suas raízes projetadas para o futuro.

Além de comentar os parâmetros da recusa e a “dessensibilização que tem caracterizado a recepção da poesia”, o poeta fala da responsabilidade do artista (“o pior erro que pode cometer um poeta é sucumbir a códigos ou convenções”) e de participação (“arte não é sociedade beneficente”), explica como ler poetas “sob a perspectiva do rigor ético-estético sem perder de vista a carga existencial” e o processo de “canonibalização” (“a arte mais inventiva é de mais difícil assimilação”), critica a “armação-armadura econômica” da globalização e anuncia seus próximos trabalhos. Entre outras questões inéditas, Augusto revela -num eco de “equivocábulos”?- seu interesse por uma “teoria” dos erros formulada a partir do músico Thelonious Monk (“erros corretos”, “erros errados”).

“Poesia da Recusa” aponta ainda para o não-lugar da poesia, ao propiciar um outro ângulo sobre o isolamento na chamada “torre de marfim” (Yeats sobre seu poema “A Torre”: “Agrada-me pensar neste edifício -a Torre Ballylee- como símbolo permanente da minha obra, facilmente visível por quem quer que passe a alguma distância”) ou a utopia imaginária (a “Inonia” de Iessiênin, o nome “significando ‘Outridade’, ‘Outrância’, ou quem sabe ‘Outracidade’”).

E ainda aponta para o não-eu do poeta, à luz da consciência e seu tempo (Tzvietáieva: “Eu me recuso a ser. / No asilo da não-gente / Me recuso a viver.”) ou remetendo Gertrude Stein (“uma vez que não há gente existente em parte alguma exceto aqui ser gente não é uma coisa fácil e por isso as obras-primas são tão raras”) a Fernando Pessoa (“com uma tal falta de gente coexistível, como há hoje, que pode um homem de sensibilidade fazer senão inventar os seus amigos, ou quando menos, os seus companheiros de espírito?”).

O livro é pródigo em agudas análises de poemas, como “Prosa” (“talvez o mais impenetrável dos textos de Mallarmé e também uma exposição críptica de sua arte poética”), “Neste meu ofício ou arte” de Dylan Thomas (“uma profissão de fé artística das mais sombrias e sóbrias, pungentes e perfeitas da história da poesia”) e “Contra a fama” de Pasternak (“uma das mais belas reflexões sobre o tema da celebridade”, “diante das imposições e imposturas do poder e da glória”), e como se lê no elaborado escrutínio das afinidades entre Hart Crane e Thomas.

Também propicia o cotejo de métodos, como a comparação entre as traduções de “A Torre” por Péricles Eugênio da Silva Ramos (“Devo pedir à Musa que se vá, eu penso, / E por amigos ter Platão e ter Plotino, apenas, / Até a imaginação, olhar e ouvido / Poderem contentar-se só com o raciocínio e se ocupar / De abstrações; ou ser cada um escarnecido / Por uma espécie de chaleira, já ruim, no calcanhar.”) e o próprio Augusto (“Devo mandar às favas minha Musa,/ Ter Platão ou Plotino por amigo, / Até que fantasia, olho e ouvido / Cedam à mente e virem escalpelo / Da idéia abstrata; ou ser escarnecido / Por uma lata presa ao tornozelo.”).

Augusto também presta tributo a um companheiro do grande grão de invenção: “Jamais me esquecerei dos injustificavelmente esquecidos versos lapidares de Décio Pignatari: ‘somente o amor e em sua ausência o amor / decreta, superposto em ostras de coragem / o exílio do exílio, à margem da margem’.” Na entrevista, Augusto diz que “os poetas atuais ganhariam muito se conhecessem melhor a poesia pré- e pós-concreta de Décio”, reconhecendo que “suas contribuições originalíssimas e inovações parecem pouco assimiladas”.

Em seu novo livro, o poeta retoma temas caros ao seu ideário, como o mister da recusa: “A maioria das pessoas quer o consolo do entretenimento, arte fácil e descartável para descansar a cabeça, ‘esquecer da vida’, e não para problematizar-se. Mas já que a poesia insiste em não preencher esses requisitos e, portanto, não tem público e não tem valor de mercado, pode, ao menos, correr o risco de parecer desagradável, produzindo o belo através do difícil e do inominável”.

E arremata outro tema, o mistério da recusa: “O que quer, afinal, Mallarmé, com tantos enigmas? Quer, em poesia, o que querem os cientistas em suas especulações e pesquisas aparentemente inúteis. Conhecer. Conhecer-se. Romper os limites dos comportamentos e compartimentos pré-condicionados da linguagem para compreender e exprimir melhor as angústias humanas diante do enigma supremo da vida e da morte. Revitalizar a própria linguagem, dando-lhe um sentido mais puro”.

A leitura de “Poesia da recusa” é fundamental para os que se interessam pela situação do artista no mundo de hoje. Se parece cada vez mais improvável no horizonte uma “reconciliação” entre o modernismo e a indústria cultural de massa tal como proposta pelo pós-modernismo de Andreas Huyssen face aos impasses da radicalidade negativa do alto modernismo adorniano, o que a era exigiria, entre a dicotomia de um anacrônico bardo conturbado ou um vate travestido de funcionário?

Convertendo sua espantosa aventura pela “linguaviagem” em vivo paideuma de perpétuo movimento e renovação, Augusto nos brinda com as inquietações da poesia, de “garatuja inglória” (Mallarmé) a “dúctil, sutil transmembramento da canção” (Hart Crane), já que “Nutriz da vida, irrecuperável, / Irreprimível, vaza a poesia” (Tzvietáieva), pois “Inexorável, a invenção da poesia / Não pode ser mudada” (Mandelstam). Numa visão plena, a obra do poeta-artista e a obra do tradutor-poeta Augusto de Campos oferecem generosas doses de nutrição de impulso e de resistência.

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Seu novo livro, “Poesia da Recusa”, vem se juntar a outros livros relançados neste ano: “Colidouescapo”, “Teoria da Poesia Concreta” e “Balanc(e)o de la Bossa Nova” (tradução argentina do “Balanço da Bossa e Outras Bossas”). Que relação você poderia fazer entre esses livros?

Augusto de Campos: É pura coincidência. Os dois primeiros já estavam entregues às editoras em anos anteriores. É natural que o cinqüentenário da Exposição Nacional de Arte Concreta seja um momento propício para relançar a “Teoria” (quarta edição, depois de 20 anos). A nova publicação de “Colidouescapo” foi uma decisão surpreendente do editor da Amauta, a quem há pouco tempo eu mostrara o livro, cuja primeira edição (de autor) saiu há 35 anos atrás. O “Balanço” argentino também coincidiu.

E acaba de ser lançado “Quase-Borges + 10 Transpoemas”, que contém uma entrevista com Borges e a tradução (artística) de 10 dos seus poemas, nº 100 da coleção Memo, do Memorial da América Latina. Sorte minha… Mas restam várias outras obras, que eu gostaria de publicar ou de republicar, algumas ampliadas, como as antologias de Pound e Cummings.


No que você está trabalhando no momento?

Augusto: Tenho dois novos livros, prontos, ainda sem editor definido, um dedicado a Emily Dickinson e outro a August Stramm. E outros projetos de tradução de poesia. Penso em organizar um “Música de Invenção 2”, com estudos publicados esparsamente e ainda não reunidos em volume, não só os sobre música erudita, mas também os sobre música popular, de Robert Johnson e Billie Holiday a Caetano e Arrigo Barnabé. Mas dá trabalho e não sei se terei saúde e fôlego para fazê-lo tão cedo.

Colaboro com meu filho Cid Campos num CD de música infantil, que incluirá vários poemas de Lewis Carroll e Edward Lear traduzidos por mim, alguns ainda inéditos. Não ligo muito para a minha própria poesia. Se vier, tudo bem. Mas acho que já disse quase tudo o que tinha para dizer. Valéry: “Poeta, me dizem, e eu não compreendo”.


“Poesia da recusa”, por sua maravilhosa e contundente “amostragem” de poetas insubordinados e belos poemas, já é uma resposta eloqüente, com exemplos e modelos; mas queria perguntar: que conselhos você daria a um jovem poeta para manter-se íntegro em sua poesia e atento ao seu “tempo de pobreza”?

Augusto: Não me sinto capaz de dar conselhos a ninguém. Mas gosto de relembrar (para mim mesmo) o de Schoenberg: “Todos os caminhos levam a Roma, menos o do meio”. E o de Pound, aos jovens: “Curiosidade, curiosidade…”. Meu lema é: “Radical sem ser fanático, aberto sem ser eclético”.


Como o poeta e ensaísta Augusto de Campos responderia, hoje, a duas questões formuladas no mesmo ano de seu nascimento (1931) em dois ensaios citados em “Poesia da recusa”: como ler (a propósito de “How to Read” de Ezra Pound) e como escrever (“How to Write” de Gertrude Stein)?

Augusto: Continuo a achar que o critério estético e, nele embutido, o da “invenção”, (inventores, mestres, diluidores) é o mais eficaz, tanto para ler como para escrever com intuitos literários -não para excluir escritores, mas para compreendê-los de perspectiva crítica. “A técnica -disse Pound- é o teste da sinceridade. Se a técnica é dispensável para se dizer alguma coisa, é porque essa coisa é de valor inferior”. Mas ele disse também: “A paixão é tudo”. É claro que essa perspectiva não é fixa e imutável. Comporta alterações e variantes, em termos de momento histórico, uma dialética de linguagens e erros relativos de enfoque (justificáveis ou não).

Tenho pensado muito numa “teoria” dos erros, “apud” Thelonius Monacus, i.é Thelonious Monk. Questionado por seu aborrecimento após um bem-sucedido concerto que acabara de dar, o grande pianista teria exclamado: “I made the wrong mistakes”. Os “right mistakes” são os que se provam necessários para uma drástica mudança de rumos, em função de propostas consistentes de um autor. Os “wrong mistakes” são os que se revelam “erros” definitivos -equívocos de avaliação, irremissíveis, suscitados por idiossincrasias ou incompreensões. Às vezes a distinção é sutil.

“Erros corretos”: a importação de Poe por Baudelaire e Mallarmé para criarem a poesia moderna e a indiferença de Pound por ele (“the Age demanded”) para recriar a poesia moderna. “Erros errados”: A campanha de Pound contra o “Finnegans Wake”. A sua rejeição da obra mais inovadora de Joyce (“work in regress”, segundo Pound) foi um desmando que o futuro desmentiu. Outro: a aposta de Pound em Wyndham Lewis como grande pintor e/ou escritor.

 
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