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entrevista
HISTÓRIA

Os gays contra o franquismo
Por Ana Paula Conde

Para o pesquisador Manuel Ángel Soriano Gil, o movimento homossexual ajudou na democratização da Espanha

Em julho de 2005, a Espanha tornou-se o terceiro país do mundo a permitir o casamento entre pessoas do mesmo sexo e a adoção de crianças por casais homossexuais. Até o final dos anos 70, a situação era completamente distinta. Durante o regime franquista (1939-1975), e até mesmo nos primeiros anos da redemocratização, gays e lésbicas eram perseguidos, controlados e enviados para as prisões de reeducação. Foi nesse contexto marcado pela repressão que o psicólogo madrileno Manuel Ángel Soriano Gil, 57 anos, iniciou sua reflexão sobre o tema e começou a escrever artigos e livros em defesa dos direitos dos homossexuais.

Formado em magistério e psicologia pela Universidade Complutense de Madrid, com especialização em psicologia clínica pela Escola Superior de Psicologia e Psicotécnica da Universidade de San Bernardo, Soriano Gil começou a atuar como psicoterapeuta no início da década de 70.

A análise dos casos acompanhados no consultório e da realidade política e social da Espanha daqueles anos o levou a publicar, em 1978, seu primeiro livro, “Homosexualidad y Represión”. Lançada pela editora Zero Zyx, a obra vendeu 3 mil exemplares numa época ainda marcada pela perseguição. Nesse mesmo período, Soriano Gil passou também a ser colaborador das revistas “El Viejo Topo”, “Ajoblanco” e “Ozono”, escrevendo artigos em defesa de gays e lésbicas.

Em 1979, ele finalizou sua tese de doutorado, intitulada “La Marginación Homosexual en la España de Transición”, mas não teve como defendê-la. O catedrático da Universidade Complutense de Madrid a considerou “muito vanguardista” para aquele momento histórico e não permitiu que fosse apresentada à banca do doutorado. O trabalho ficou na gaveta até o ano passado, quando Soriano Gil decidiu publicá-lo, como o mesmo nome (Editorial Egales). O estudo também ganhou uma edição especial de 400 exemplares, subvencionada pelo Ministério da Cultura, para distribuir nas bibliotecas municipais.

O livro reúne informações sobre as plataformas reivindicatórias dos movimentos de liberação homossexual surgidos na Espanha nos anos 70. Para o autor, o movimento homossexual do período foi fundamental para o processo de democratização da sociedade espanhola, que saía então da ditadura do general Francisco Franco (1892-1975).

Além de se dedicar à atividade reivindicatória a favor dos direitos dos gays e lésbicas, Soriano Gil é colunista da revista “Zero” e voluntário do Cogam (Colectivo de Lesbianas, Gays, Transexuales y Bisexuales de Madrid), no qual desenvolve um trabalho como psicoterapeuta voltado para soropositivos.

Na entrevista a seguir, o autor fala sobre sua obra e analisa as mudanças recentes da sociedade espanhola em relação aos direitos dos homossexuais.

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O senhor prepara um novo livro. Sobre o que trata a obra?

Manuel Ángel Soriano Gil: O livro, intitulado “Tal Como Somos”, tem uma primeira parte de fundamentação teórica, na qual trato os problemas de homofobia ainda existentes na sociedade espanhola, seguida de um estudo antropológico realizado a partir de 50 entrevistas com gays, lésbicas, bissexuais, transexuais, soropositivos, famílias homoparentais e famílias de gays e lésbicas. Nessa segunda parte, abordo todas as problemáticas e realidades atuais desses grupos. O livro tem uma linguagem clara para que possa ser entendido por todos os leitores, independentemente de sua formação cultural ou acadêmica.


Foi difícil publicar "Homosexualidad y Represión" em 1978? Naquela época já havia editoras especializadas em temáticas homossexuais?

Soriano Gil: Ele foi publicado pela editora Zero Zyx e vendeu 3 mil exemplares. Esse livro aborda vários temas referentes à marginalização homossexual na Espanha naquele momento histórico. Ele questionava e defendia o fim da Lei de Periculosidade e Reabilitação Social.

Essa lei permitia que qualquer pessoa, pelo fato de ser homossexual, pudesse ser encarcerada em um reformatório penal com o objetivo de ser “curada”, mediante terapias de modificação de conduta. Essa lei foi modificada em janeiro de 1979, e excluiu os homossexuais do âmbito de aplicação da mesma. O livro também faz um estudo antropológico, social e religioso da marginalização homossexual na cultura judaico-cristã. Por último, faz referências aos primeiros movimentos a favor dos direitos homossexuais na Espanha.


A tese "La Marginación Homosexual en la España de Transición" foi escrita em 1979. Por que o senhor decidiu transformá-la em livro 25 anos depois de finalizada?

Soriano Gil: Guardei-a entre meus papéis e quando voltei a lê-la, em 2005, considerei que como memória de um momento da história da Espanha podia ser interessante. Não modifiquei o texto original. Talvez, um dos valores resida justamente nisso: em falar de uma realidade que está escrita em seu próprio momento histórico.

Escrevi uma introdução, explicando aos leitores a história da tese, e a fiz chegar a Mili Hernández, da editora Egales e dona da livraria Berkana, especializada na temática homossexual. Ela não teve dúvidas em publicá-la imediatamente. A acolhida tem sido extraordinária.

Há dois aspectos que considero fundamentais na minha tese de doutorado: por um lado, reúno todos os movimentos de liberação homossexual da Espanha de transição com suas plataformas reivindicativas; por outro, desenvolvo um estudo sobre as distintas técnicas psicoterapêuticas aplicadas naquela época para tratar a questão homossexual (terapias de modificação de conduta, terapias psicanalíticas e rogerianas). Também abordo questões referentes à marginalização homossexual de uma perspectiva social, antropológica e religiosa, e reúno uma abundante bibliografia sobre homossexualidade publicada até 1979.


Esses grupos participaram de alguma forma do processo de transição para a democracia?

Soriano Gil: Os movimentos de liberação homossexual dos anos 70 e 80 são a base de toda a trajetória política a favor dos direitos homossexuais. Não cabe dúvida que as mudanças da sociedade espanhola foram propiciadas em boa medida pelo trabalho desenvolvido por eles.


Um dos objetivos do livro é mostrar as ações dos movimentos homossexuais daquela época aos jovens? Por que considera importante que eles as conheçam?

Soriano Gil: Os jovens estão bastante alheios à realidade social e política da Espanha franquista e dos primeiros anos da transição da democracia na Espanha. Felizmente eles não viveram a repressão daqueles anos. Essa realidade tem duas leituras: uma positiva, pois não sofreram perseguição, batidas policiais e a ameaça da Lei de Periculosidade e Reabilitação Social, e outra que, se não me atrevo a qualificá-la como negativa, considero de desconhecimento de uma realidade importante; e isso não é bom.

Oxalá isso não aconteça mais, porém ainda existem atitudes homofóbicas em um pequeno setor reacionário da Espanha. Se fosse pela vontade deles é bem seguro que tentariam erradicar todas as conquistas e reivindicações conseguidas nesses anos pela comunidade homossexual em matéria de igualdade de direitos.


Espanha, que tinha uma Lei de Periculosidade e Reabilitação Social até o fim dos anos 70, é o terceiro país do mundo a ter uma lei que permite o casamento entre pessoas do mesmo sexo e a adoção de crianças por casais homossexuais. Agora, há um projeto de educação cívica que pretende apresentar o modelo homoparental de família de forma igualitária aos estudantes. O que explica esse salto qualitativo para com a aceitação de gays e lésbicas?

Soriano Gil: Os gays e lésbicas começaram a conquistar espaço na sociedade espanhola em 1979, com a anulação da Lei de Periculosidade e Reabilitação Social. Depois, veio a promulgação do Novo Código Penal de 1995, o chamado Código da Democracia, e, por último, a Lei de Matrimônio para pessoas do mesmo sexo, em julho de 2005. Podemos dizer que são três datas importantes, que nos falam das mudanças conquistadas na sociedade espanhola. A Espanha converteu-se em referência para muitos países, especialmente os latino-americanos, onde, hoje em dia, os homossexuais ainda são perseguidos.


Alguns setores da sociedade espanhola são contra o casamento homossexual. Esse direito já está consolidado na sociedade? Há risco de retrocesso?

Soriano Gil: Alguns setores mais conservadores do Partido Popular (PP), juntamente com a alta hierarquia da Igreja Católica, manifestaram sua posição contrária à lei que permite o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Algo parecido se sucedeu na Espanha quando se aprovou a Lei do Divórcio e se descriminalizou o aborto.

Não parece possível que essas posturas intransigentes possam voltar a ter espaço em nossa sociedade democrática. Porém, ainda assim, a memória histórica é imprescindível para que a comunidade homossexual espanhola não se esqueça das atrocidades que, ao longo da ditadura franquista, sofreram tantos gays, que agora estão na terceira idade. É preciso lembrar, como o povo judeu faz com o Holocausto nazista, no qual também foram exterminados milhares de homossexuais marcados com um triângulo rosa.

Contudo, as posturas que o partido PP mantém são bastante contraditórias. Frente ao conservadorismo recalcitrante de alguns de seus militantes, o prefeito de Madrid, Alberto Ruiz-Gallardón, e a deputada e ex-ministra de saúde Célia Villalobos, entre outros líderes do partido, lutam pela igualdade dos direitos de gays e lésbicas.

Recentemente, o próprio prefeito de Madrid, casou na prefeitura madrilena um militante do PP e seu namorado, sem ouvir os proclames do cardeal de Madrid e de alguns militantes do próprio partido. Sinceramente, creio que o casamento de casais homossexuais é um direito inalienável já plenamente consolidado na sociedade espanhola.


Uma pesquisa realizada pelo Cogam, em colaboração com a Universidade Autônoma, revelou os seguintes números: 28% dos adolescentes consideram a homossexualidade uma doença, 32% dos rapazes e 15% das moças acham correto tratar com desprezo os homossexuais, e 28% dos rapazes e 10% das moças acreditam que gays e lésbicas não devem mostrar afeto em público. Como o senhor analisa esses números frente aos avanços da sociedade espanhola? Como mudar essa realidade?

Soriano Gil: A pesquisa nos fala da necessidade urgente de educar a nossa juventude para que esse número minoritário, embora significativo, de pessoas deixe de considerar a homossexualidade uma doença, pare de achar normal tratar os gays com desprezo e possam se descontaminar da homofobia que aprenderam com suas famílias.

A perseguição escolar que sofrem alguns adolescentes, gays e lésbicas já chega à luz pública e está sendo enfrentada. Cada vez se permite menos esses fatos. Os educadores e as famílias não estão dispostos em consentir vexações e agressões físicas a estudantes indefesos que sem razão alguma padecem da perseguição de seus iguais.


O que ainda é necessário fazer para assegurar a igualdade de direitos dos homossexuais na Espanha?

Soriano Gil: É preciso ir além das leis que defendem a plena igualdade de direitos com respeito aos heterossexuais. É necessário contar também com uma educação social que elimine todas as fobias para com os grupos mais desfavorecidos e a homofobia com gays e lésbicas.


Como o senhor analisa a posição da Espanha frente à política aplicada em outros países da Europa?

Soriano Gil: A posição da Espanha em relação a outros países da Europa em matéria de igualdade de direitos com respeito a gays e lésbicas é, sem dúvida alguma, das mais avançadas, juntamente com Holanda e Bélgica. Em países da Europa Oriental, Polônia, por exemplo, ou em nosso vizinho Portugal, a realidade social, todavia, está bastante distante de alcançar a igualdade para gays e lésbicas.


Qual é a relevância de incluir a questão de preferência/orientação sexual no artigo sobre a Declaração Universal de Direitos Humanos. É importante para dar visibilidade ao movimento?

Soriano Gil: É muito importante incluir a questão da preferência/orientação sexual no artigo segundo da Declaração Universal de Direitos Humanos. A visibilidade, ou a “saída do armário”, é fundamental. Na Espanha, a maior visibilidade se dá no grupo gay; a visibilidade do grupo lésbico é significantemente menor. É uma questão ainda não resolvida por elas.


(Publicado em 31/12/2006)

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Ana Paula Conde
É jornalista e mestre em ciência política pela Universidade Federal Fluminense.

 
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