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BIBLIOTECA

Livros como máquinas
Por Luisa Duarte


Exposição "De Repente Livros", na galeria A Gentil Carioca, no Rio
Alessandro Buzas/Divulgação

Galeria no Rio reúne as obras preferidas de 37 personalidades e se transforma em sala de leitura

“Se considerarmos que toda ação de um homem, não apenas um livro, de alguma maneira vai ocasionar outras ações, decisões e pensamentos, que tudo o que ocorre se liga indissoluvelmente ao que vai ocorrer, perceberemos a verdadeira imortalidade, que é a do movimento: o que uma vez se moveu está encerrado e eternizado na cadeia total do que existe, como um inseto no âmbar” (Friedrich Nietzsche, “Humano Demasiado Humano”, Fragmento 208).


No lugar de manifestações de arte contemporânea, livros. A Gentil Carioca, galeria dirigida pelos artistas Laura Lima, Ernesto Neto e Marcio Botner, transformou o seu espaço, na última exposição do ano intitulada “De Repente Livros”, em uma sala de leitura. Convidaram 37 artistas, críticos, curadores, antropólogos, músicos e escritores para colaborarem emprestando cinco livros que lhes fossem caros. E também, se possível, uma cadeira, uma poltrona, na qual se sentissem confortáveis para exercer o ato da leitura. O que vemos no sobrado ao lado da praça Tiradentes, no Rio de Janeiro, é uma biblioteca efêmera com cerca de 180 livros, que na sua maior parte percorre gêneros como filosofia, literatura e teoria da arte.

Um projeto recente da artista Marilá Dardot, intitulado Biblioteca de Babel, também nos colocava dentro de uma grande sala de leitura, mas, se ali tratava-se de uma obra concebida por uma artista, e os proprietários dos livros eram mantidos anônimos, já na galeria A Gentil Carioca não estamos diante de um “trabalho de arte”, e ao lado de cada prateleira há uma ficha técnica que revela o dono dos livros e os respectivos títulos das obras.

Daí o resultado diverso que a mostra proporciona para os que conhecem aqueles donos, pois este espectador/leitor é tomado por uma curiosidade de caráter voyeur, como se estivesse tendo a chance de partilhar um repertório que tende a ficar guardado na esfera privada, mas que influencia a realização de obras públicas. Esta me parece ser uma das questões colocadas em jogo por “De Repente Livros”: trazer à baila um inventário de saberes, referências que fazem parte da vida criativa de atores da nossa cultura. Livros que entram no imaginário de cada um deles e que, de alguma forma, influenciam suas produções.

A generosidade e o desapego implicados na disponibilização dos livros -objetos que simbolizam saber, logo poder- é sinalizada no e-mail impresso que acompanha a estante do curador e crítico Paulo Herkenhoff, no qual ele diz: “Vivi uma época em que alguns críticos não faziam nota de rodapé para que os autores que liam ‘não fossem apropriados e reduzidos pelos críticos diluidores’. Aos poucos ia-se descobrindo uma passagem de Wittgenstein parafraseada daqui, um conceito de Deleuze acolá, ‘protegidos’ nesse estranho mundo medieval de controle da circulação da informação em pleno final do século XX (ademais, ainda vivíamos sob uma ditadura...). Nessa mesma época, Michel Foucault veio ao Rio e fez uma conferência na PUC sobre o modo como o saber é forma de poder, instrumento do poder. Foi pensando nesta memória da retenção da informação pública (afinal, um livro é uma informação pública, propriedade da cidadania na ordem mundial), que pensei em enviar livros que não li. Não conheço estes cinco livros mais do que o visitante da Gentil Carioca. Não tenho, pois, a posição hierárquica superior reservada ao que sabe. Dos cinco livros, três me foram presenteados. Não foram inicialmente uma escolha minha, mas escolho-os, por sua qualidade, para presenteá-los, como informação disponível, ao leitor-espectador-ativo”.

A pertinência de uma mostra desta natureza pode ser encontrada justamente neste ato de abertura para a troca de referências e na conseqüente possibilidade de desenharmos uma espécie de “anatomia do gosto” de um conjunto de agentes da cultura. Sabendo que tal gesto encontra implicações políticas, como sinalizou Herkenhoff, assim endossam os artistas/galeristas no texto de apresentação da mostra: “Esta é a primeira edição do projeto de uma sala de leitura e discussões, que poderá ser reeditado e ampliado, e que vem dando continuidade à mostra ‘Educação, Olha!” e ao projeto “Camisa Educação”, com a nossa insistência de que basicamente todas as dificuldades econômicas, sociais e políticas que enfrentamos em nosso país, diante das pressões internas e externas, só poderão algum dia ser melhor enfrentadas se fizermos pesados investimentos em educação. Somos seres culturais, só a cultura poderá nos dar poder e capacidade para enfrentarmos este novo milênio que entra em seu sétimo ano”.

É tarefa da galeria de arte expor e trabalhar seus artistas, e nisso a Gentil vem cumprindo seu papel há três anos, acolhendo projetos de caráter muitas vezes experimental e mostrando para o Rio a produção de artistas emergentes de outros Estados do país. Mas, se a galeria possui a vontade de atuar em uma escala ampliada dentro do seu contexto político-social, é o momento de se pensar estratégias que fizessem com que este evento efêmero se desdobrasse em ações de caráter mais duradouro.

Em duas visitas feitas à mostra foi possível constatar que a biblioteca “funciona”: leitores atentos, conversas sendo travadas (em voz baixa), uma conhecida historiadora da arte, que havia emprestado seus livros, usava a galeria/biblioteca como local de estudo. Ou seja, parece haver demanda para proposições como essa. Note-se ainda que este tipo de situação provoca visitas mais prolongadas à galeria, o que transforma o local num ponto de encontros, trocas, debates, e não apenas no momento de abertura da exposição, mas ao longo dos outros dias de funcionamento do espaço.

Quem sabe possamos apostar mais em encontros como este lançado pela Gentil Carioca? A disponibilidade dos 37 convidados em emprestarem os seus livros pode indicar uma disposição solidária, mesmo que numa escala micro, num meio marcado por um alto grau de competitividade, que gera, muitas vezes, posturas individualistas. Fato que faz com que experimentemos ainda hoje algo semelhante, mesmo que por motivos distintos, com o que Herkenhoff descreve no início de seu e-mail, ou seja, uma retenção de conhecimento, com vias a preservação de um suposto -e muitas vezes pequeno- poder.

Torna-se incontornável, diante de uma exposição cujos livros são os protagonistas, e questões de ordem política vêem à tona, citar a obra do artista suíço Thomas Hirschhorn presente na 27° Bienal de São Paulo. Sua instalação “Restaure Agora” apresenta dezenas de livros de filosofia lacrados com fitas adesivas; ferramentas; fotos de corpos mutilados e vídeos. Tudo em um ambiente caótico. Nas palavras do artista, em entrevista publicada em Trópico, “Restaure Agora” possui uma clara intenção de chamar a atenção para o caráter transformador que os livros possuem, tanto quanto os utensílios, colocando ambos em pé de igualdade em seu trabalho: “As ferramentas que estão lá, nós as temos -vamos utilizá-las, utilizemos os martelos, os parafusos, furadeiras, os pé-de-cabra e utilizemos os livros de filosofia- para consertar, bricolar, tampar, construir, mas também para quebrar (as desigualdades), para lutar (contra o racismo, os ressentimentos), para lutar contra (as injustiças), é essa a mensagem de “Restore Now”: nós temos as ferramentas (é por isso que a responsabilidade é universal!), passemos à ação!”

Ao final deste artigo, o leitor tem acesso à lista com os livros da exposição e seus respectivos proprietários. Nota-se a previsível reincidência de Borges, Guimarães Rosa e Calvino na ficção, bem como a de Deleuze na filosofia. Senti falta de Proust, não lembrado em nenhuma das 37 estantes.

Assim, insiro o autor francês nas palavras de Deleuze, no seu livro “Proust e os Signos”, por meio de uma passagem que ecoa as palavras de Hirschhorn, a respeito da convicção no poder de gerar novas ações, com a ajuda dos livros: “A ‘Recherche’ não é apenas um instrumento de que Proust se serve ao mesmo tempo que o fabrica. É também um instrumento para os outros, e cujo uso eles devem aprender: ‘eles não seriam meus leitores, mas leitores de si mesmos, meu livro não passando de uma espécie de lente de aumento, como os que oferecia a um freguês o dono da loja de instrumentos ópticos em Combray, o livro ao qual eu lhes forneceria meios de se lerem’. (...) E não é apenas um instrumento: a ‘Recherche’ é uma máquina. A obra de arte moderna é tudo o que se quiser, isto, aquilo ou aquilo outro; é mesmo de sua natureza ser tudo o que se quiser, ter a sobredeterminação que se quiser, desde que funcione: a obra de arte moderna é uma máquina e funciona como tal”.


As obras da mostra “De Repente Livros”

Ana Torres: “Grande Sertão: Veredas”, de João Guimarães Rosa; “Ficções”, de Jorge Luis Borges; “Assim Falou Zaratustra”, de Friedrich Nietzsche; “Cem Anos de Solidão”, de Gabriel Garcia Marquez; “Ulisses”, de James Joyce

André Sant’anna: “Roteiros do Terceyro Mundo”, de Glauber Rocha; “A Menina Sem Estrela”, de Nelson Rodrigues; “Grande Sertão: Veredas”, de João Guimarães Rosa; “A Negação da Morte”, de Ernest Becker; “Uma Temporada no Inferno & Iluminações”, de Rimbaud

Angélica Lopes: “Os Miseráveis”, de Victor Hugo; “A Tragédia da Rua das Flores”, de Eça de Queiroz; “Sangue Azul”, de Jane Austen; “A Menina do Narizinho Arrebitado”, de Monteiro Lobato; “Os Amores de Angélica”, de Anne e S. Golon

Anna Dantes: “D. Quixote”, de Miguel de Cervantes; “Edições Perigosas”, de John Dunning; “Poesias ou isto ou aquilo & Inéditos”, de Cecilia Meireles; “A Fera na Selva”, de Henry James; “O Tempo e o Vento - O Retrato” e “O continente”, de Erico Verissímo; “Ter e Manter”, de Philipp Blom

Arto Lindsay: “The Moro Affair”, de Leonardo Sciascia; “Memoirs of na Egotist”, de Stendhal; mangá

Camila Ponte: “Dias e Noites de Amor e de Guerra”, de Eduardo Galeano; “As Cidades Invisíveis”, de Italo Calvino; “Contos Fluminenses”, de Machado de Assis; “Distraídos Venceremos”, de Leminsky; “O Estrangeiro”, de Albert Camus

Carlos Garaicoa: “História Universal da Infâmia”, de Jorge Luis Borges; “A Revolução dos Bichos”, de George Orwell; “Desonra”, de J.M. Coetzee; “Cocinar de Cine”, de Xabier Gutiérrez e Juan Miguel Gutiérrez; “Sob o Sol-Jaguar”, de Italo Calvino

Carlos Zílio: « Le Livre du Connaisseur de Cigare », de Zino Davidoff ; « Delire et Rêves dans la "Gradiva" de Jensen », de Sigmung Freud ; « A Imaginação”, de Jean- Paul Sartre; “Poesias Completas”, de Manuel Bandeira; “Idea », de Erwin Panofsky ; «La vie de Cézanne »

Cecília Cotrim: “Mille plateaux », de Gilles Deleuze/Felix Guattari ; “Monter Sampler”, editado pelo Centre Pompidou; “Regist(R)os”, de Artur Barrio; “Nós contemporâneos 17”; “Cancioneiro Jobim - Obras Escolhidas”

Chacal: “Estrela da Vida Inteira”, de Manuel Bandeira; “Nuvem Cigana”, de Bernardo Vilhena; “Oswald de Andrade - Trechos Escolhidos por Haroldo de Campos”; “O Que É Comunicação Poética”, de Décio Pignatari; “Poesia Marginal”, de Chacal e outros

Cildo Meireles: “Uma Temporada no Inferno”, de Rimbaud; “Brás Cubas”, de Machado de Assis; “A Metamorfose” e “O Processo”, de Kafka

Claudia Saldanha: “Negrinho do Pastoreio”, de Paulo Werneck; “Tratado de Pintura”, de Leonardo da Vinci; “El Amor en los Tiempos del Cólera”, de Gabriel Garcia Marquez; “A Clockwork Orange”, de Anthony Burgess; “Todos os Nomes”, José Saramago

Cristina Pape: “Paraísos Artificiais - O Ópio e o Poema do Haxixe”, de Charles Baudelaire; “O Dalai Lama Fala de Jesus”; “As Aventuras de Alice”, de Lewis Carrol; “Orlando”, de Virginia Woolf; “Microbiologia”

Daniela Labra: “El Túnel”, de Ernesto Sábato; “Os Dragões Não Conhecem o Paraíso”, de Caio Fernando Abreu; “Teatro”, de Samuel Beckett

Eugenio Valdés: “The Hours - Visual Arts of Contemporary Latin America”; “Le Parc Lumière - Obras Cinéticas de Julio le Parc » ; “Guerra y Páz - Simpósio sobre a Situação Social, Política e Artística na Colômbia”; “Nauman- Kruger- Jaar/ Daros Latin America”; “Emotions Abstracted”, de Louise Bourgeois

Fausto Fawcett: “O Profeta Tricolor”, de Nelson Rodrigues; “Breviário de Decomposição”, de Cioran; “Sexus”, de Henry Miller; “Barra Pesada”, de Octávio Ribeiro: “A Laranja Mecânica”, de Anthony Burgess; “The Rolling Stones Concise”; “Tesouro da Juventude – Vol. VI”

Fernanda Gentil: “Desonra”, de J.M. Coetzee; “Frankenstein”, de Mary Shelley; “Witchcraft Oracles, and Magic Among the Azande”, de E. E. Evans- Pritchard; “O Aleph”, de Jorge Luis Borges; “Os Irmãos Karamázov”, de Dostoiévski

1 - Esta exposição ocorreu na Galeria Vermelho, SP, em 2005, e na Fundação Joaquim Nabuco, Recife, em 2006. Mais informações sobre a mostra no site www.galeriavermelho.com.br


2 - Trecho de texto assinado por Laura Lima, Ernesto Neto e Marcio Botner para apresentação da exposição “De Repente Livros”.


3 - Entrevista de Thomas Hirschhorn concedida à curadora da 27° Bienal de São Paulo, Lisette Lagando, publicada em "Trópico": /tropico/html/textos/2803,1.shl


4 - G. Deleuze, "Proust e os Signos", Forense Universitária, 2003, p. 137

 
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