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prosa.poesia

Sua Excelência, Dona Lebre Vereadora
Por Wilson Bueno

Uma fábula inédita do autor de "Cachorros do Céu"

Romualda, o horrível nome da Lebre; e era, outra vez, uma vez.

Cansada de peticionar a seus pares rigorosa investigação com vistas a descobrir quem sistematicamente boicotava fosse dado o nome de La Fontaine a badalada avenida da Floresta, decidiu Romualda -que os íntimos chamavam Romú-, proceder, ela mesma, minuciosa diligência para chegar ao autor, ou autores, de tão teimoso embaraço.

Correu a Lebre ao cartório de notas e ofícios a fim de que fosse expedida urgente carta precatória a Paris. Empenhada estava em tirar uma certidão negativa sobre o probo ainda que remoto passado de nosso homenageado.

Movia-lhe o propósito de, com isso, quem sabe, convencer a Câmara de que a homenagem, ademais de justa, premiava alguém que devotara toda existência a construir um verdadeiro zôo de palavras. Sem jamais extrair disso qualquer vantagem. Além do que os bichos deviam a ele mais que fama, a eternidade.

Igualmente inúteis acabaram se revelando certidões negativas, carimbos, selos, assinaturas reconhecíveis em Nice, em Dijon ou na Calábria. A petição de Romualda junto a seus pares esbarrava -e isto ela acabou descobrindo bem mais tarde-, sabem vocês em quem? No Macaco, é claro.

Claro hoje em dia, bem entendido, porque antes da investigação levada a efeito por Romualda, nossa vereadora, o mistério era só um mistério, nas galerias e em plenário. Chegou a pensar, antes disso, nossa lebre edil, pudesse pesar sobre o fabuloso fabulista alguma feia mancha biográfica, tamanhas as tantas dificuldades.

Nada, nada. Era só a vingança da Formiga, que de cachos e babados com o Macaco, presidente da edilidade, não conseguia engolir, mesmo trezentos anos depois, que La Fontaine a tivesse trocado pela Cigarra. Borralheira, ela, a Formiga, ainda hoje; e, do símio, agora, escrava.

Era inverno e, por aquilo, ou por isso mesmo, provida e saciada, a Floresta inteira cantava.

Ah, o Macaco!

(Publicado em 3/12/2006)

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Wilson Bueno
É escritor, autor, entre outros títulos, do livro de fábulas "Cachorros do Céu" (ed. Planeta), que esteve entre os finalistas do prêmio Portugal Telecom de 2006.

 
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