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três palavras

Cristina Freire

1. Correspondência

A escrita é uma forma de correspondência das palavras com as idéias. Pautar um método de trabalho pelas correspondências é articular o visível ao possível de outras fontes, nem tão esperadas assim. Gosto de pensar nas correspondências. O design de um carro com uma receita. O projeto de uma casa com uma forma de falar. Uma nota musical com um perfil de um rosto.


2. Público

Quando se trata de pessoas, deve ser sempre tratado no plural. Não é apenas um público, mas muitos que se aglomeram numa cifra estatística. Opinião pública é força para os indecisos. A tal “coisa pública”, tão repetida nos discursos oficiais, na realidade não é algo já dado, mas implica num exercício de apropriação, não é algo que é, mas se torna.


3. Memória

Diferentemente da história, não é exata. Não se resgata, mas se elabora a partir do presente. Há a memória oficial, cheia de datas e bustos comemorativos e a memória coletiva, que fica subterrânea e pode vir à tona em meios propícios, há, ainda, a memória individual, movida pelos afetos, fonte de todas as neuroses. Se há dois séculos as histéricas sofriam de reminiscências, como diagnosticou Freud, qual é a neurose que corresponde ao nosso tempo?

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Cristina Freire
É docente, curadora do Museu de Arte Contemporânea (MAC), da Universidade de São Paulo, e  co-curadora da 27ª Bienal de São Paulo, crítica e professora de artes. Escreveu, entre outros, "Poéticas do Processo" (Iluminuras) e "Arte Conceitual" (Jorge Zahar Editor).

 
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