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entrevista
POLÍTICA

A diversidade segundo Leon Chadarevian
Por Fernando Masini

Leon Cakoff, diretor da Mostra Internacional de Cinema, conta como seus pais escaparam do massacre dos armênios na Turquia

Batalhar pela liberdade de expressão, lançar olhares sobre a diversidade e tornar as pessoas mais receptivas quanto às informações que vêm de fora. Estes são os lemas de Leon Cakoff, quando ele fala sobre o papel da Mostra Internacional de Cinema em São Paulo. Em sua 30ª edição consecutiva, o evento deste ano traz mais de 400 filmes à capital paulista e espera um público de 200 mil pessoas. “Eu acho que fisicamente é impossível crescer mais do que isso”, diz Cakoff.

Responsável por fisgar tendências no mundo e apresentar nomes como o português Manoel de Oliveira e o iraniano Abbas Kiarostami ao público brasileiro, o diretor e idealizador do festival mostra indignação quando o assunto é o mercado exibidor nacional. Acredita que há má vontade do governo em criar regras para distribuir a responsabilidade de difusão dos filmes. “Falta tirar das costas da exibição em salas de cinema a responsabilidade de difusão do cinema brasileiro. Essa responsabilidade precisa ser transferida para a televisão”, diz.

Cakoff defende a legislação francesa para contornar o problema ou ao menos atenuá-lo. Exigir uma participação maior das emissoras na exibição facilitaria, na sua opinião, a aproximação do público com os filmes. “Qualquer emissora de televisão que exibir um filme faz, no mínimo, 1,5 milhão de espectadores.”

Meta alcançada por uma porção ínfima de diretores brasileiros, ainda que o número de lançamentos nacionais venha crescendo ano a ano. Na competição nacional desta edição, destacam-se “O Céu de Suely”, de Karim Aïnouz, “O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias”, de Cao Hamburger, “O Cheiro do Ralo”, de Heitor Dhalia e “Antonia”, de Tata Amaral. Uma seleção que Cakoff considera de alto nível.

“Achar que você precisa fazer um filme aos moldes de Hollywood para conquistar o mundo é um equívoco. O filme ‘Cinema, Aspirinas e Urubus’ é um bom exemplo. Você tem que se preocupar em ser autêntico. Você se atendo à particularidade do seu meio é um caminho melhor para ser universal”, afirma. É a sua recomendação aos cineastas brasileiros.

Apesar de ter nascido na Síria em 1948, Leon Cakoff é descendente de armênios. Veio para o Brasil com a família quando tinha oito anos. Por problemas com o regime militar, devido à sua atuação política, adotou Cakoff como pseudônimo, “para poder continuar escrevendo”. Seu sobrenome verdadeiro é Chadarevian. Já no fim desta entrevista, contou que seus pais foram vítimas do “genocídio” armênio e só conseguiram escapar do país porque eram crianças e foram salvos pela Cruz Vermelha.

Ao ser questionado sobre a resolução do Parlamento francês de reconhecer como genocídio o massacre dos armênios cometido pelos turcos entre 1915 e 1917, ele disse que não acha o melhor meio diplomático de lidar com a questão, pois ajudaria a gerar um “noticiário belicoso”.

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Quais são os principais critérios para a escolha dos filmes?

Leon Cakoff: Existe um critério que seria o de qualquer cinéfilo, com uma observação: tem que ser abrangente. Eu não defendo uma causa só, defendo todas as causas que forem possíveis defender.


Normalmente onde você busca os filmes?

Cakoff: Eu tenho uma rede de amigos que me ajudam com informações em praticamente todos os países do mundo. Recebo muita coisa pelo correio. E vou atrás também de algumas coisas que eu sei que estão sendo produzidas, que estão ficando prontas.


Existe algum tipo de filme que não entra na Mostra?

Cakoff: Infelizmente temos um problema físico. Eu poderia ter 2 mil filmes na seleção, toda a produção mundial, mas fisicamente é impossível. Já temos um custo de R$ 4,8 milhões para fazer o festival do jeito que ele acontece atualmente, e já é difícil fechar as contas, mesmo com o patrocínio da Petrobras, que nos garante metade do orçamento com um ano de antecedência.

É um alívio, mas é metade do orçamento, então a gente tem que correr atrás do resto. Além disso, existe uma certa quantidade de vezes que você pode exibir cada filme -em média são três vezes- e tem também o limite de espaço que nós podemos ocupar. São limitadores naturais. Isso não é uma competição para dizer “olha, agora nosso objetivo é fazer meio milhão de espectadores”. Eu acho que fisicamente é impossível crescer mais do que isso.


Nesta edição da Mostra, existe alguma tendência de destaque, alguma região ou país com produções significativas que você privilegiou?

Cakoff: Se tem, sinceramente eu não percebi. Há destaques naturais, fizemos até um livro sobre cinema político italiano dos anos 60 e 70 porque é uma coisa que foi muito marcante para o Brasil. É a primeira vez que se junta essa temática, com estes filmes. A primeira vez que se dá importância realmente a eles. Fico muito feliz de ter conseguido fazer isso com a parceria da editora Cosac Naify.

É um brinde para os cinéfilos e para a história do cinema também. No ano passado, foi o Manoel de Oliveira; no ano retrasado, a gente dedicou livros ao Amos Gitai e a Abbas Kiarostami. Fora isso, estou lançando mais dois livros. Um de crônicas, “Ainda Temos Tempo”, que saiu no mês passado, e “Cinema Sem Fim”, que vai ser lançado no final da Mostra, em comemoração aos 30 anos do evento.


O que você pensa dos filmes nacionais que serão exibidos na Mostra?

Cakoff: Acho de altíssimo nível. E, para coroar esta safra, a Petrobras criou um prêmio de difusão de R$ 400 mil para longa-metragem de ficção e R$ 200 mil para documentário.


Não falta algo para o cinema nacional emplacar no mundo, ser reconhecido em termos de qualidade, como tem ocorrido ultimamente com o cinema argentino?

Cakoff: É uma questão autoral, não técnica. Por exemplo, achar que você precisa fazer um filme aos moldes de Hollywood para conquistar o mundo é um equívoco. O filme “Cinema, Aspirinas e Urubus” é um bom exemplo. Você tem que se preocupar em ser autêntico. Se ater à particularidade do seu meio é um caminho melhor para ser universal.


Na sua opinião, o Estado cumpre bem o papel de financiar o cinema brasileiro ou ainda falta investimento público?

Cakoff: Não sei se falta investimento, mas faltam ações em outras áreas. Por exemplo, falta tirar das costas da exibição em salas de cinema a responsabilidade de difusão do cinema brasileiro. Essa responsabilidade precisa ser transferida para a televisão.


De que forma se daria isso?

Cakoff: Com um decreto presidencial (risos). Na França, é assim. É o maior país co-produtor do mundo graças à arrecadação conseguida sobre os assinantes de televisão paga e sobre o faturamento comercial das emissoras. É uma pequena porcentagem, mas um grande dinheiro, para fazer um fundo de produção.

Aí, esse fundo de produção precisa ter regras, tem que ter uma boa porcentagem de novos cineastas todo ano para poder dar chances a todos. É só pegar a lei francesa. E isso é bom para a televisão porque ela se auto-alimenta com a própria produção. Assim, vamos parar de reclamar que o filme só fez 10 mil espectadores no cinema. Qualquer emissora de televisão que exibir um filme faz, no mínimo, 1,5 milhão.


Seria também um meio mais popular de difundir os filmes.

Cakoff: Claro. Por que obrigar o cinema a passar um filme que o público não quer ver? É uma ingerência, uma atividade econômica. Mas você não consegue intervir no bolso do espectador, você não pode obrigar o espectador a tirar dinheiro do seu bolso e comprar um ingresso para o cinema.

A culpa nem sequer é do realizador. O realizador não pode ser penalizado por um filme que não faz sucesso. Essa é uma mentalidade pobre, provinciana. A responsabilidade é do governo, que não cria as regras para a difusão cultural. Neste caso, teria a ajuda da televisão.


A gente vê hoje uma produção relativamente grande de filmes nacionais e muitos não conseguem espaço de exibição.

Cakoff: Porque fica no gargalo da exibição. Isso que é equivocado. Descarregar tudo em cima dos cinemas e ainda com obrigatoriedade… É um absurdo. E ainda obrigar a cobrar meia-entrada. Por que não obriga uma padaria a fazer, na segunda-feira, pão doce, na terça-feira, brioche, pão de lingüiça... e vender tudo pela metade do preço para estudantes, aposentados? Os supermercados também!... Por que não? É uma atividade econômica independente, privada.


De certa forma, a Mostra ajuda nesse papel de exibição?

Cakoff: O papel que a Mostra cumpre é de estimular a curiosidade e o olhar sobre a diversidade, além de batalhar pela liberdade de expressão. Tornar também as pessoas mais receptivas à informação. Cinema é informação também. A Mostra tem um trabalho de difusão que não pára só com o evento. Tem um programa que exibe os filmes na TV Cultura que vai para o Brasil todo. Lançamos livros. Eu faço o que eu posso. A gente faz um trabalho de difusão pela inteligência no cinema.


Você nasceu na Síria, e a sua família é de origem armênia. Gostaria de saber o que você pensa da decisão do Parlamento francês de reconhecer como genocídio o massacre dos armênios pelos turcos durante a Primeira Guerra Mundial?

Cakoff: Eu não sou belicista, vai fazer já um século que a Turquia não quer reconhecer isso, então acho que não é por aí. Isso só ajuda a gerar um noticiário belicoso. Não acho a melhor das diplomacias. Agora, da mesma maneira, não se pode esquecer o genocídio contra judeus e outras minorias na Segunda Guerra.

Os meus pais foram vítimas do genocídio de 1915. Só escaparam vivos porque eram crianças e tinham seis anos de idade. Depois foram expulsos e chegaram na Síria, onde eu nasci. Nesse período, a Cruz Vermelha tentava pelo menos salvar a pele de crianças e idosos. Foi genocídio. É claro que houve genocídio dos armênios. A Turquia é um regime muito fascista, ainda há resquícios do Império Otomano. Agora, eu não sou belicista, eu sou pela paz. Só lamento a posição da Turquia, claro.

Nem por isso vou deixar de apresentar bons filmes turcos na Mostra. Temos o melhor cineasta da Turquia aqui na Mostra. Percebe o que eu quero dizer? Eu não estaria fazendo um trabalho há 30 anos se eu hasteasse uma única bandeira. Eu tenho independência ideológica. É lógico que tenho minha opinião pessoal e, quando tenho a oportunidade de falar sobre isso, eu vou lá e digo, como estou falando agora. Nem por isso vou ser radical e sectário e não vou deixar de selecionar um bom filme turco. E, por acaso, eu recusei um filme armênio este ano por uma série de motivos de qualidade, motivos técnicos.


Você pode falar qual filme foi?

Cakoff: Não vou dizer, não posso. Porque ele pode estar melhor no ano que vem. O filme estava inacabado.


É curioso o escritor turco, Orhan Pamuk, receber o Nobel de Literatura bem no meio dessa polêmica. Ele chegou a ir a julgamento nos tribunais turcos sob acusação de ter ofendido a identidade nacional, ao reconhecer o “genocídio”.

Cakoff: É o que eu estou dizendo, a Turquia é um país fascista. As pessoas têm medo, assim como a gente tinha medo aqui no Brasil durante o período fascista.


Você adotou o pseudônimo de Cakoff e deixou de usar seu sobrenome verdadeiro, Chadarevian. Por que isso aconteceu?

Cakoff: Eu tive que mudar de nome para poder continuar escrevendo.


Por causa da censura?

Cakoff: É, por causa do regime militar. Isso foi em 1970. Mas eu tenho os dois nomes, não me incomoda. Quem está perto, sabe que eu sou Chadarevian também. Não tem problema nenhum. Eu não fundei uma dinastia (risos). Meus filhos se chamam Chadarevian, não se chamam Cakoff. Foi um problema pessoal que eu tive, mas pelo menos eu cumpri meu exílio aqui no Brasil ativamente, como diz o Arnaldo Jabor, no prefácio do livro “Ainda Temos Tempo”.

Publicado em 21/10/2006

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Fernando Masini
É jornalista.

 
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