1
livros
LITERATURA

O ano Juan Rulfo
Por Denise Mota

Nas duas décadas de sua morte, o escritor mexicano é tema de exposições, conferências e novas edições

Após duas décadas de sua morte, completados neste ano, Juan Rulfo (1917-1986) -nome máximo das letras mexicanas- volta às estantes da terra natal. Depois da versão definitiva dada pela família do escritor à sua obra-prima, “Pedro Páramo” (1955) se fará acompanhar em outubro por um livro que analisa a trajetória literária e fotográfica de Rulfo e de uma exposição que apresenta registros do autor de Jalisco ao longo de seus 68 anos de vida.

O “Pedro Páramo” definitivo obtido depois de meio século resulta de um processo de revisão e comparação que os herdeiros de Rulfo empreenderam ao lado de estudiosos dos textos do autor e com o propósito de reparar uma insatisfação nascida com o escritor ainda em 1954, ao término do período que lhe havia sido concedido para entregar o relato.

Rulfo foi bolsista do Centro Mexicano de Escritores em duas ocasiões: 1952-53 e 1953-54. Neste período, concluiu ´El Llano en Llamas’ (´Chão em Chamas’) e ´Pedro Páramo’, respectivamente. Para cumprir os prazos da bolsa de 1953-54, entregou em agosto ao Centro a cópia a papel-carvão de sua obra, que nesse momento estava intitulada ´Los Murmullos’, repleta de correções, riscos ou acréscimos feitos de seu punho. Meses depois, remeteu ao Fundo de Cultura Econômica o original datilografado da cópia entregue ao Centro, não só com as mesmas correções feitas na cópia, mas com um número maior de modificações. Explica seu filho Juan Francisco Rulfo: “Esse original, ele o entrega possivelmente no final de 1954, por pressões da mesma editora (não fosse por isso, possivelmente teria feito algumas outras mudanças) e já com a clara intenção de que essa versão chegasse aos leitores”.

Quase cinco décadas mais tarde, a viúva do escritor, Clara Aparicio, pediu à editora os originais de ambos os livros, matriz de onde começa a ganhar vida o “Pedro Páramo” do qual se tem conhecimento agora. Ao revisá-los com Víctor Jiménez, diretor da Fundação Juan Rulfo, e compará-los com as obras editadas pequenas diferenças são percebidas. “Consistiam em que em alguns casos, poucos, dois ou três, não se havia respeitado a separação de fragmentos tanto em ´Chão em Chamas` como em ´Pedro Páramo`, elemento importante em sua obra. Também existiam alguns erros no uso das aspas, em alguns travessões, vírgulas ou pontos e na escrita de algumas palavras”, detalha Francisco Rulfo. “Essas propostas de mudança foram feitas em consenso com estudiosos da obra de meu pai, como Alberto Vital e José Carlos González Boixo. Foi um processo longo, que levou mais de um ano. Isso não significa que quem leu a obra anteriormente tenha agora outro livro em mãos. São diferenças tão sutis que em nada modificam sua leitura e que somente são importantes para um estudioso de sua obra.”

Apesar de os ajustes serem pequenos, é esse “Pedro Páramo” que a família Rulfo irá respeitar daqui para a frente, para as próximas traduções que se façam do livro. “É desejável que no futuro edite-se considerando essas mudanças, ainda que não dê como resultado uma leitura diferente”, afirma Francisco Rulfo.


Ano Rulfo

Após a edição definitiva de “Pedro Páramo”, mostrada ao México no final do ano passado, este ano trouxe e traz à luz outros lançamentos relacionados a Juan Rulfo, acompanhados entusiasticamente pela família e pela fundação que leva seu nome.

Em janeiro, 62 fotos realizadas pelo escritor foram expostas no Museu de Arte da Brigham Young University, em Utah (EUA). A mostra deu início a um ciclo de seis meses com a apresentação de filmes e conferências relacionadas ao universo de Rulfo.

Ainda no início do ano, a Cidade do México sediou o lançamento de um livro com parte da obra fotográfica de Rulfo, entre os quais registros inéditos (“Juan Rulfo. Fotógrafo”, ed. DGP e Conaculta – Consejo Nacional para la Cultura y las Artes), fruto da investigação e com seleção de imagens do britânico Andrew Dempsey.

Em abril, o Instituto Cervantes e o Instituto Cultural Mexicano de Nova York organizaram em Washington, junto com a Fundação Juan Rulfo, uma série de projeções de filmes e uma mesa-redonda -da qual participaram, entre outros, o escritor Carlos Monsiváis e Alberto Vital, biógrafo de Rulfo- para apresentação das novas edições do escritor desenvolvidas pela Editorial RM.

Em outubro, Juan Rulfo ocupa novamente as prateleiras mexicanas com um novo livro, volume com cerca de 600 páginas que reunirá artigos, estudos e ensaios, inclusive do próprio escritor, sobre aspectos diversos de sua obra literária e fotográfica. Intitulado “Tríptico para Juan Rulfo – Poesía, Fotografía, Crítica”, será lançado pela Editorial RM e trará mais uma vez imagens capturadas pelo autor que nunca antes haviam sido publicadas, segundo o presidente da Fundação Juan Rulfo, Victor Jiménez.

Também no final deste ano, um livro-catálogo e uma exposição levarão a Reggio Emilia, na Itália, o olhar do autor jaliscience sobre as paragens e os tipos humanos de sua terra.

Mas nem só de comemorações se ocupa a família do mestre mexicano. Se, com o tempo e com a ação de estudiosos e dos herdeiros de Rulfo, desvaneceram-se controvérsias a respeito da autoria de “Pedro Páramo” -uma versão da concepção do romance atesta que o autor teria contado com a “ajuda” de seus editores e companheiros para obter a originalidade estrutural que tornou singular a obra-, o nome do escritor voltou desfavoravelmente à baila.

Durante a última edição da Feira Internacional do Livro de Guadalajara, em novembro, poeta espanhol Tomás Segovia, o vencedor do Prêmio Juan Rulfo, galardão oficial do evento, referiu-se ao patrono da premiação de US$ 100 mil como alguém que “não foi um grande estudioso”, o que causou o desligamento do evento literário por parte da família do autor.

“As razões pelas quais solicitamos a retirada do nome do meu pai desse prêmio são: o abandono dos propósitos originais da premiação; e permitir, não sabemos por que obscuros motivos, acesso à determinação desse prêmio -e ao nome de meu pai- a um grupo com características patológicas que busca apropriar-se e controlar o setor cultural no México e que sempre manteve uma atitude muito beligerante contra meu pai”, diz Francisco Rulfo.


Reminiscências de Francisco Rulfo

Quando Juan Rulfo concluiu “Pedro Páramo”, Francisco -hoje com 55 anos- era pouco mais que um bebê. As memórias que têm do pai, portanto, são difusas, remotas, formadas por pedaços de lembranças e sensações relacionadas não só à atmosfera na qual vivia Juan Rulfo, mas ao mundo que deixou registrado nos dois únicos livros de ficção que publicou. “As recordações que tenho desses anos são muito escassas. Quando terminou ´Pedro Páramo’, eu tinha três anos, razão pela qual talvez o que eu tenha sejam recordações imaginárias, como a de estar caminhando pelo campo com meus pais e minha irmã, ou do ambiente escuro onde meu pai tinha seus livros...”, conta.

A efervescência intelectual e a simplicidade do autor são, estas sim, marcas que Francisco Rulfo têm bem marcadas na memória. “Desde pequeno meu pai tinha grande inquietação para conhecer outros lugares, regiões que lhe ocultavam os altos montes que rodeavam seu povoado; assim ele se expressa em uma das cartas que escreve à minha mãe quando eram namorados. Essa inquietação foi permanente e o levou a conhecer em detalhes grande parte do território nacional, assim como ao estudo de sua geografia e história”, afirma.

Segundo Francisco, seu pai “era alguém de uma inteligência e de uma cultura assustadoras”. No entanto, fazia sempre o esforço de apresentar-se como alguém simples, para não se impor a seu interlocutor. “Minha principal lembrança sobre meu pai não se reduz a um momento, mas a uma grande soma deles. Prevalece em mim a imagem de alguém muito generoso.”


“Não sei se porque para mim isso sempre está presente, ou pela proximidade a ela, mas é difícil desligar-me da obra literária de meu pai e poder considerá-la um trabalho alheio e valorizá-lo como qualquer outro. Rulfo sempre foi meu autor preferido, assim como distingo sua obra fotográfica e a identifico entre as de outros fotógrafos. Seus textos têm algo, seja nas frases, nos fragmentos ou na narração completa, que nos surpreendem porque ele os identifica com as circunstâncias ou com os afãs da vida. E com a riqueza de uma linguagem que penetra até a mais profunda das sensações”, diz o filho do escritor. “Com grande freqüência, me acontece que, ao ler um livro da biblioteca de meu pai, encontro algo que me faz lembrar muito de sua obra, e isso me remete ao que afirmou um acadêmico alemão, André Stoll: ´En ´Pedro Páramo`, está contida toda a literatura`.”

.

link-se

Mais informações sobre o livro “Tríptico para Juan Rulfo – Poesía, Fotografía”, podem ser obtidas no seguinte site - http://www.clubcultura.com/clubliteratura/clubescritores/juanrulfo/fundacion.htmX

.

Denise Mota
É jornalista. Vive em Montevidéu.

 
1