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estante

Adélia Borges



1. Bagagem, de Adélia Prado (Record)

É a poesia da segunda-feira, não do domingo; do ovo frito, não do estrogonofe; das coisas miúdas, não do grandiloqüente. Claro que muitos escritores brasileiros já tinham praticado ou pregado a poetização do cotidiano antes dela -dos modernistas a Mário Quintana-, mas em Adélia Prado a transformação do ordinário em extraordinário é soberba, não fosse esse um adjetivo que ela abominaria. A notar, ainda, a sensualidade que ela empresta à religiosidade.


2. The Design of Everyday Things, de Donald Norman (Basic Books)

Uma obra fundamental não só para quem se interessa por design, mas interessante também para quem está mergulhado num mundo de objetos high-tech de difícil compreensão e manuseio -ou seja, todos nós.

O autor começou a reparar no tema ao perceber sua própria incapacidade de “lidar com as coisas simples da vida diária”. Uma vez, quando estava atrapalhado acertando seu novo relógio digital, um amigo comentou: “Para entender essas coisas é preciso ser graduado em engenharia pelo MIT”. Acontece que Norman de fato tinha formado em Engenharia Elétrica pelo MIT (Massachusetts Institute of Technology), em 1957, depois se tornara doutor em psicologia matemática pela Universidade da Pensilvânia e já era um craque da psicologia cognitiva.

No entanto, sentia-se desajeitado e incompetente por não saber manusear adequadamente os produtos à sua volta. O livro mostra que a tecnologia digital produziu “caixas pretas”, em que não há relação evidente entre os comandos e as funções que eles acionam, e prega a ênfase numa dimensão humana da tecnologia.


3. Um Lugar Chamado Brick Lane, de Monica Ali (Rocco)

A visão só aparentemente ingênua de uma mulher muçulmana no olho do furacão: a Londres pós-11 de Setembro. Romance de estréia da jovem escritora Monica Ali, combina como poucos a observação atônita do mundo com a comovente transformação da personagem principal, Nazneen, uma imigrante bengalesa de 18 anos que se muda para Londres por causa de um casamento arranjado por sua família com um homem de 40. Como pano de fundo, o conflito cultural entre Ocidente e Oriente e a relação entre homem e mulher.


4. Universos da Arte, de Fayga Ostrower (Campus)

Best seller -a edição que tenho é a 19ª!- num tema considerado árido, “Universos da Arte” é a transformação em livro das aulas do curso de arte que Fayga Ostrower deu a operários de uma gráfica carioca nos anos 1970. Interessada da democratização do acesso às artes visuais e no estímulo ao olhar crítico das pessoas, Fayga não foi apenas uma de nossas maiores artistas visuais, mas uma esgrimista do texto. Tanto suas gravuras, desenhos, pinturas, tecidos, ilustrações quanto seus escritos e falas reafirmam uma convicção que ela mesma enunciou: “A beleza da arte é uma verdade profunda que nunca perde o misterioso poder de penetrar em nosso mais íntimo ser e de nos consolar”.


5. O Velho e o Mar, de Ernest Hemingway (Bertrand Brasil)

Como todo mundo tem que escrever -ao menos uma carta ou, vá lá, um e-mail de vez em quando-, e a maioria acha que escrever bem é enfeitar o texto com adjetivos, a leitura de “O Velho e o Mar” deveria ser obrigatória, como um tratamento profilático. O embate entre o velho pescador e o enorme marlim no oceano é uma ótima oportunidade para entrar em contato com o estilo “ossos e veias” do mestre Hemingway. Ele mostra como fazer mais com menos, em seu modo quase cortante de tão enxuto.


6. Nas Tuas Mãos, de Inês Pedrosa (Planeta)

Na nova geração de ficcionistas portugueses, vale prestar atenção em Inês Pedrosa. “Nas Tuas Mãos”, romance vencedor do Prêmio Máxima de Literatura em Portugal, alterna formas narrativas para mostrar a vida de três mulheres, de três gerações. Sob o pano de fundo das transformações da sociedade portuguesa e das colônias africanas desde os anos 30, o texto entrelaça solidão e melancolia, colocando em questão o que, segundo a autora, seria uma prodigiosa invenção do século 20: a intimidade. Uma correspondente, na literatura, à música pungente do Madredeus.


7. Campo Geral - Manuelzão e Miguilin, de Guimarães Rosa (Nova Fronteira)

A descrição do maravilhamento do menino da roça míope ao colocar óculos pela primeira vez é o que de mais próximo eu entendo por epifania. Miguilim somos todos nós, cada um com a sua “dor de ser o que se é”, e o Mutum, pé de serra perdido nos cafundós, o mundo que nos foi dado viver. O livro fala do estranhamento e da boniteza de enxergar a natureza (humana, inclusive) e a vida. Para ser lido e relido, guardado com cuidado na mesa de cabeceira.


8. Cinzas do Norte, de Milton Hatoum (Companhia das Letras)

Como os outros livros do autor, uma vigorosa e cinematográfica narrativa amazônica/ universal. Um soco no estômago, pungente como a nossa Amazônia, triste e forte. Mais do que merecedor do recém-conquistado Prêmio Jabuti de romance (2006).

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Adélia Borges
É jornalista, curadora especializada em design e professora de história do design na Faap. Desde 2003, dirige o Museu da Casa Brasileira, em São Paulo.

 



 
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