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prosa.poesia

Poesia Presente: Carlos Augusto Lima
Por Heitor Ferraz


O poeta Carlos Augusto Lima
Foto de Eduardo Jorge

O lirismo da construção e da destruição das coisas familiares em dois livros do autor cearense

O poeta Carlos Augusto Lima coleciona livros pequenos. Na estante do seu apartamento, em Fortaleza, no Ceará, entre vídeos infantis de sua filha Sofia e alguns outros livros, destaca-se uma série de livrinhos mínimos, desses que chegam a caber na palma da mão, de tão pequenos. É com certo orgulho, sentado na rede, que ocupa parte da sala, que o poeta aponta para os livros. Ele mesmo é autor de um deles, um livrinho magro, com apenas oito poemas e duas gravuras de Wladimir Fontes. Trata-se de “Objetos”, publicado em 2002, pela Alpharrabio Edições. O livro não é grampeado, nem colado. Apenas um barbante vermelho reúne, num conjuntinho, as quatro folhas dobradas com seus poemas.

Afora este livro, que teve tiragem de 200 exemplares e circulou apenas de mão em mão, de amigo em amigo, Carlos Augusto não publicou nenhum outro. O poeta não tem pressa. Não faz parte do seu ritmo lançar um livro depois do outro. Ele trabalha em silêncio e vai garimpando seus objetos poéticos. Na gaveta, como ele mesmo conta, já tem dois outros livros prontos. Um deles, “Eu Me Satisfaço com Minha Casa e o Deserto” também é bem pequeno. “Este livro tinha 14 poemas, mas agora pretendo rodá-lo com apenas seis”, conta, sem esconder um certo sorriso maroto, de quem está aprontando.

“Objetos” é um livro que descreve, em oito poemas breves, alguns objetos e utensílios de uma casa. O poeta restitui, na ausência, as coisas que afetivamente o envolviam. Como ele mesmo já destaca na epígrafe: “Para o que era, a casa”. Os poemas falam de uma cômoda, de uma estante, de mesas, de uma caneta, de uma gilete e de livros. Ele, em sua descrição, procura agregar ao objeto um mundo de afetividade e de história particular, como se pode depreender pela leitura de “cômoda”:

redemoinho de

disputas íntimas

poço

profundo em segredos

repositório

palheiro de agulhas

caixa falante

em língua de gavetas

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resumo:

tumba de utensílios


O poema gira em torno da cômoda, onde se guardam coisas leves, roupas íntimas. A cômoda foi desenvolvida a partir da antiga arca, que ganhou pés, gavetas e gavetões. Ou seja, não que o poema gire apenas em torno da etimologia da palavra “arca”, mas sua sombra está presente o tempo inteiro: é onde se guardam os tesouros da família, as coisas mais valiosas; além disso, também é “caixão”, “fundo de poço” etc. O poeta, aqui, a coloca dentro da casa, no redemoinho do mundo familiar, com suas “disputas íntimas”, seus “segredos”, sua bela “língua de gavetas” (uma das imagens mais poderosas do poema) e “tumba de utensílios”.

Com poucas palavras, ele revela um mundo contido, um repositório tensionado. Esta característica de sua poesia nos remete, de certa forma, aos poemas em prosa de Francis Ponge, o grande poeta francês do século XX, autor de “Le Parti Pris des Choses”. Sartre, ao comentar a poética de Ponge, disse que “seu esforço atual é muito mais o de pescar no fundo de si mesmo esses monstros fervilhantes e floridos e restituí-los do que o de fixar suas qualidades após escrupulosas observações”. É nesse ponto que a poesia de Carlos Augusto Lima absorve a lição de Ponge. Seus objetos não se revelam apenas na objetividade, na forma, na exterioridade deles mesmos, mas no contato com o homem, que os manuseia e deixa neles a sua marca e a sua experiência de vida.

Esse manuseio das coisas pelo homem é o que interessa ao poeta cearense. Sua “caneta” só existe na mão, como ele diz: “posse de dedos/ contorção, ginástica/ da falange/ oco mastro como/ tubo-veia/ desaguando em caractere/ de cada/ um:/ a es-/ crita/ emblema”. Os livros na cabeceira, em outro poema, não são apenas objetos fechados: eles têm vida: “na cabeceira/ tê-los olhar/ perscrutar/ mundo/ ilhas fuji/ marianne moore/ ou crença do oriente”. Eles estão ali, como “folhas intensas”, como ele anota no mesmo poema.

Sobre “Objetos”, o crítico e poeta Manoel Ricardo de Lima, que durante alguns anos dividiu com Carlos Augusto uma página de literatura no suplemento “Vida & Arte”, do jornal “O Povo”, do Ceará, escreveu que “a casa é sempre a mesma, andamos nela em visitas quase esporádicas. Passa a importar não o onde da casa, mas o sentido que ela tem a partir dos objetos que a compõem e que, mais fortemente, estão de fato presentes apenas na consciência que os inventa. Uma espécie de ‘carrego comigo’, uma temporalidade visitada. Talvez como a organização da biblioteca: um espaço que se visita, e não um espaço que se habita, diria Barthes. A memória que se esvaece, a memória que não houve. Há um entre, um intervalo”.

O outro lado dessa moeda é o livro inédito “Eu Me Satisfaço com Minha Casa e o Deserto”. Este livro poderia ser considerado uma segunda parte de “Objetos”. Agora, o poeta transpõe a soleira da casa e encontra a cidade. A epígrafe se compõe, como se fosse um segundo verso, com a epígrafe do livro anterior: “Para o que era, a cidade”. Sempre a marca do que já não existe mais (“o que era”). Porém, ao registrar no poema, estas coisas passam a existir num jogo, como se existissem dentro e fora do tempo. E até mesmo o registro do presente, como se nota nos poemas, já traz a marca da destruição, ou seja, do passado destruído e reconstruído em surdina. Este destino em raiz apresenta-se de saída, no primeiro poema: “São canais de sombra/ marquises lápides/ soterro/ para calamitosa/ balbúrdia”.

O próprio poeta explica este movimento de construção e destruição representado nos poemas desses dois livros: “Veja bem, moro num lugar que possui uma relação estranha com a memória, no dizer de patrimônio, coisa fixa. Estamos o tempo todo destruindo e construindo os lugares. Nosso patrimônio é a memória do lugar de morar, a rua, as construções afetivas desse lugar. Não temos ‘grandes narrativas’, a história é recente, nem grandes fluxos de imigrantes. Nossa narrativa é do lugar comum, do homem mais que comum. Como as coisas que eu escrevo. Não tenho grande ‘narrativas internas’, mas só aquilo que se resume entre a casa, a escola, a rua. Mas que grande universo, não? Há um movimento dentro desse universo: os poemas sobre o quarto, a casa paterna; depois, no outro livro, trato de uma outra ‘casa’, numa dimensão simbólica muito maior, que é a cidade”.

Entre os andaimes armados pelos versos, o poeta quase sempre pula uma linha, como se procurasse representar também um certo silêncio que constitui a sua poesia. Este silêncio que leva o leitor a uma certa contemplação deste mundo que não se fixa. Ou ainda, a esta noção dolorosa de que tudo é efêmero e passageiro. Até mesmo nos momentos de maior prazer, como no poema “azul”, no qual Carlos Augusto fixa, em sua poesia, uma brincadeira com crianças em uma piscina caseira:

netuno

colosso divindade

hidra maré

nas submersas correntes

borbulhos e ondas

uma piscina plástica

algazarra

quanta batalha naval

revolvendo

abatidos indefesos

alguns

mergulhados no silêncio lago


Usando sempre pouco, deixando apenas uma estrutura, que modifica a sintaxe da língua, o poeta cria uma atmosfera entre o festivo e o doloroso. Há algo de melancólico neste momento alegre, de água movimentada. Ele parte do que é grande (“netuno”, “colosso”, “divindade”) para chegar ao menor, ao diminuído, com estes “alguns” abatidos e indefesos. Como se o olhar fosse colocando as coisas no seu lugar, fosse diminuindo e diluindo a imagem inicial até que sobrassem apenas alguns brinquedos no fundo da piscina, já esvaziados da suposta e falsa grandeza inicial.

Carlos Augusto Lima nasceu em Fortaleza, em 1973. Sobre seus pais, ele mesmo conta: “Eles me ensinaram a lidar com a diversidade, com o respeito e a generosidade para com as pessoas. Mas não poderia ser diferente. Meu pai é pai branco cearense, e minha mãe era negra baiana. O pai branco, semi-letrado; a mãe negra, de anel no dedo; o pai branco, transando umbanda; a mãe negra, ex-freira”.

Dentro deste ambiente, diz, a leitura tinha uma importância enorme. Seu pai, quando Carlos Augusto aprendeu a ler, costumava comentar com os amigos, com uma pontada de orgulho, que seu filho já lia o jornal. E sua mãe, que era bibliotecária em escola pública, muitas vezes lhe trazia alguns livros para ler: “Da bolsa de minha mãe surgiram os clássicos, as adaptações infantis e muitas outras coisas. Todo um universo despontava da bolsa de minha mãe.”

A poesia, diz ele, só chegou mesmo mais tarde. E veio, como para muitos de sua geração, através da música. “O gosto pelo punk me colocou em contato com um circuito alternativo via fanzines: coletivos anarquistas, gravadoras de garagem, bandas, pessoas interessantes, comunidades alternativas tardias, livrarias obscuras, publicações literárias marginais e, claro, poesia”. Depois disso, lembra, veio a faculdade de letras e o mestrado, concluído agora, na Universidade Federal do Ceará, sobre a poesia de Cacaso (Antônio Carlos Brito).

Sua geração acabou tendo uma presença importante no cenário cultural de Fortaleza. Nos anos 90, ele e Manoel Ricardo de Lima (apesar do sobrenome e da amizade que os une, não são parentes) fizeram parte da equipe de colaboradores do suplemento “Vida & Arte”, de “O povo”, onde puderam escrever sobre tudo que acontecia na literatura do país.

Eles criaram um espaço com liberdade onde comentaram e discutiram boa parte da produção literária brasileira contemporânea -principalmente, sobre a poesia, paixão declarada dos dois. Um espaço, diga-se de passagem, há anos apagado das páginas dos jornais do eixo Rio-São Paulo, que, desde os anos 80, passaram a se dedicar tão somente à função de “divulgadores” dos lançamentos do mercado editorial, nada mais (leia entrevista abaixo).

Além disso, Carlos Augusto também participou do núcleo de literatura do Alpendre, um espaço cultural criado por nove amigos e que explorava vários meios artísticos, como o videoarte, a dança, o teatro e a literatura, e que é dirigido por Alexandre Veras. Atualmente, o poeta trabalha como coordenador da área de literatura do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, o mais importante centro cultural do Ceará. Para esse trabalho, Carlos Augusto levou sua paixão por poesia e pelos livros-objetos. Desde o ano passado, quando começou, ele já conseguiu editar cinco “plaquetes” juntando poesia e artes plásticas. Cada uma traz trabalhos de um poeta em diálogo com o trabalho de algum artista plástico. É a paixão pelos livrinhos que reaparece.

Com toda a calma do mundo, sem ter pressa em publicar, Carlos Augusto já anuncia, aos amigos, um novo livro: “Ao Redor o Mundo Descolore”. Recentemente, num encontro em Florianópolis, ele pode ler vários poemas desta nova coletânea: poemas mais longos, nos quais sua linguagem extremamente delicada e lírica vai compondo e recompondo o universo das experiências cotidianas, mantendo a corda tensa da poesia. Como ele mesmo diz, ao falar sobre sua poesia e sobre a vida nas cidades em tempo de PCC e crime organizado, “o nosso olhar é tenso; no entanto, vivemos, é uma necessidade, saber lidar com esse nosso estado de inquietude, com nossas tensões; a poesia pode ser um rastreamento de tudo isso”.

***

Entrevista com Carlos Augusto Lima:
“O que me resta dizer é ampliar os silêncios”


Você não é um poeta apressado. Escreve pouco, com tempo e calma. Tem até agora apenas um livro publicado, que é “Objetos”. Tem dois prontos, mas não editados. É uma opção sua?

Carlos Augusto Lima: Esse movimento (ou ausência de movimento) está baseado em duas coisas. A primeira diz respeito a um problema que aflige e amarra todo mundo que escreve, principalmente poesia, no país, que é a dificuldade de bancar um livro. É ainda uma coisa muito cara, e não basta apenas mandar para a gráfica, existe a dificuldade de fazer esse livro circular minimamente, de criar um circuito, conexões para que o trabalho seja lido, discutido. Esses problemas são de ordem prática.

A outra coisa tem, sim, a ver com um projeto particular. Além de publicar pouco, eu escrevo muito pouco. “Objetos” possuía apenas oito poemas. “Eu Me Satisfaço Com a Minha Casa e o Deserto” (ainda inédito) tinha 14 poemas, e agora pretendo rodá-lo com apenas seis. Os livros têm esse caráter do mínimo, do pouco, porque, veja bem -essa é uma questão antiga-, publicar um livro com 40 poemas, ou uma plaquete com um poema só, no Brasil, é quase a mesma coisa, assim como publicar 150 exemplares, ou mil exemplares.

 
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