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CINEMA

Patricio Bisso retorna em filme de Babenco
Por Denise Mota


Figurino de Patricio Bisso para o filme "El Pasado", de Hector Babenco
Patricio Bisso/Divulgação

Multiartista cria os figurinos de “El Pasado” e aguarda filmagens de uma comédia que escreveu sobre Cuba

O próximo filme de Hector Babenco, “El Pasado”, terá nos créditos um dos nomes mais interessantes da vida cultural brasileira dos anos 80: o argentino Patricio Bisso. Ator, diretor, letrista e ilustrador, Bisso viveu quase três décadas no Brasil, onde criou personagens famosos na época, como a sexóloga Olga del Volga. No começo da década de 90, mudou-se para a Argentina e desapareceu da cena artística brasileira. “Não queria saber mais nada das ribaltas, me tranquei em casa”, diz em entrevista ao Trópico.

Para a nova produção de Babenco, o multiartista está mergulhado em um de seus métiers favoritos: a concepção dos figurinos. Um dos desafios do trabalho, segundo descreve Bisso, é deixar Gael García Bernal (protagonista do filme) mais alto, para que se equipare à altura das atrizes que o acompanham. A baixa estatura de Gael, longe de ser encarada como um problema, rende um elogio divertido, tipicamente “bissoniano”, ao ator mexicano: “Dizem que quem é baixinho...”.

Além de voltar a trabalhar, depois de 20 anos, com o diretor de “O Beijo da Mulher-Aranha” (1985) -filme em que também concebeu o vestuário, além de atuar no papel de Greta, personagem que integra o mundo do fantasioso presidiário Molina (William Hurt)-, Bisso acompanha o andamento de um roteiro que fez para ser filmado por Hollywood.

Ao lado de Bobby Houston (vencedor do Oscar de melhor curta documentário em 2005, “Mighty Times: The Children´s March”), o artista escreveu uma comédia sobre cubanos que decidem escapar da ilha a bordo de um carro velho transformado em balsa. Na trama, os emigrados são integrantes de uma casa noturna de Havana, e os sonhos de consumo da personagem central se manifestam numa estética em que “tudo vira uma espécie de musical da Fox, com aquelas coisas que as pessoas como eu gostam de ver no cinema”, descreve Bisso. “Meu universo de bobagens e futilidades continua intacto na minha cabeça. Tanto faria morar aqui, em Buenos Aires, ou acolá, em Hollywood, já estou estragado, sem jeito de me recuperar.”

Fiel à munição dada por sua criatividade, a narrativa que surge da pena de Bisso é puro nonsense com acento latino e, tendo o verniz de Hollywood por cima, ele já avisa que a Cuba que emerge do roteiro não tem nada a ver mesmo com a realidade, algo que não o preocupa em absoluto. “Enquanto os personagens não disserem ‘gracias’ quando a cena é no Rio, já está ótimo, não acha?”, graceja o roteirista, que não tem precauções contra nenhum tipo de cinema, a não ser os “filmes independentes com câmera na mão e nada na cabeça, sem falar nos figurinos pobres!”.

O roteiro concentrou as atenções do artista no ano passado, enquanto estava morando em Los Angeles. Agora o projeto está nas mãos dos estúdios americanos, e Bisso vai aos poucos recuperando “a vontade de fazer alguma coisa de novo” no lado de baixo do Equador.

O fascínio pelas vestimentas e o dom para o deboche estão incólumes. Mas duas outras marcas que pontuaram a trajetória do ator não fazem mais parte dos seus planos: vestir-se de mulher e viver no Brasil.

“Todas as micagens que eu possa ter feito eram apenas brincadeiras da juventude, não queria continuar me vestindo de mulher de velho. Fica feio! Não quero achar que tudo aquilo foi tão importante assim”, afirma, referindo-se à carreira em solo brasileiro. “Homem vestido de mulher foi coisa que existiu no teatro de todos os tempos. O que agradou no Brasil foi que a personagem Olga del Volga tentava ser uma mulher de verdade, não uma bichinha que usava salto alto, e ponto.”

Apesar de “perceber que o Brasil dá de dez” na Argentina, “em todos os quesitos”, Bisso diz não ter mais ânimo para refazer a enorme mudança que levou para a Argentina. “Foram dois caminhões enormes, trouxe até uma caixinha de grampos que achei que não ia encontrar aqui!”, conta.

Indagado sobre se vê reconhecimento em seu trabalho depois de tantos anos de carreira, especialmente no Brasil, prefere responder a partir de outro ponto de vista, o das experiências que hoje já não lhe atraem. Não só os vaivéns da produção cultural brasileira, mas também as dificuldades que encontrou para montar projetos são lembranças que Bisso descarta repetir. Seu filme “Olga del Volga”, por exemplo, foi aprovado para captar R$ 1,5 milhão, mas nunca saiu do papel, impasse que até hoje o entristece. “Posso saber fazer muitas coisas, mas conseguir dinheiro não é uma delas”, afirma. “Quem sabe dentro de alguns anos faça um revival de mim mesmo com o show ‘Louca pelo Canelone’?”. E pondera: “Virei o que se diz uma verdadeira lenda viva!”.

Sua “lenda” vive igualmente no rincão natal, onde em 1982 trabalhou na trilha sonora de “Pubis Angelical” -filme com músicas compostas por Charly Garcia- e, em 1991, atuou em “Naked Tango”, longa-metragem de Leonard Schrader em que Bisso fazia um cabeleireiro, produção para a qual também desenhou os figurinos.

A Argentina tampouco lhe entusiasma. “Após a última crise (por enquanto), a Argentina está vivendo uma espécie de boom, mas ele é apenas turístico. Tudo aqui permanece numa espécie de limbo, e as pessoas em geral tentam imaginar que estão fazendo alguma coisa de interessante. Vivem abrindo novas lojinhas de ‘design’, os restaurantes são todos ‘comme il faut’, as ruas estão sempre limpinhas, mas desafortunadamente falta aquela ‘bagunça’ criativa que tem no Brasil, o que pode irritar às vezes, mas é muito estimulante”, descreve o figurinista, que passou muitas horas de sua ex-“vida de aposentado” como espectador das obras culturais argentinas.

“Todas as coisas ‘modernas’ que me forcei a ver não passam de espetáculos com essa modernidade requentada que não me diz nada. Ainda bem que tem a minha mãe: o meu programa favorito ainda é ficar em casa escutando os absurdos que ela comenta quando vê o que está passando na TV”, diz. “Mas não sejamos cruéis, as conversas na casa das pessoas são sempre brilhantes, de alto nível. Imagine que eu fico só escutando!”, comenta.

Bisso comemora, no entanto, os avanços sociais que frutificaram da popularidade midiática de personagens a um só tempo masculinos e femininos. “Acredito que hoje em dia ninguém mais se espanta quando dois homens se dão um beijinho que seja”, diz. “Embora ache que na Argentina estejam exagerando. Na novela das dez, eles enfiam a língua como se o mundo fosse acabar. Será que todas as crianças já estão dormindo?”, indaga.

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Denise Mota
É jornalista. Vive em Montevidéu.

 
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