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Poesia presente: Eduardo Sterzi
Por Heitor Ferraz


O poeta Eduardo Sterzi, autor de "Prosa"
Divulgação

O poeta gaúcho usa a idéia de deformação para falar da violência e do mal-estar de nossa época

Há algum tempo, numa conversa de botequim, um amigo comentava a poesia de Eduardo Sterzi, autor do livro “Prosa”. Dizia esse amigo que o livro era muito bom, que os poemas tinham altíssima qualidade, mas que faltava alguma coisa. Alguém, de brincadeira, arriscou: “Talvez falte aquele humor corrosivo, aquele mundo rebaixado dos contos da Veronica Stigger”. Claro que a comparação só faz sentido dentro de um certo meio que os conhece. Veronica e Eduardo estão juntos há 15 anos e moram juntos desde que chegaram de Porto Alegre em São Paulo. Ela é uma das melhores contistas de hoje, autora de “Trágico e outras comédias”, publicado pela 7 Letras.

A comparação ficou no ar. Sem muito sentido. Mas alguma coisa ali dava para se aproveitar como idéia: de fato, na poesia inicial de Eduardo ainda havia um apego aos temas mais elevados ou, numa outra formulação, mais “culturais”, como ele mesmo frisa. O resultado era, sem dúvida, muito bom, com poemas que poderiam figurar em qualquer antologia da poesia brasileira de hoje. Eduardo tratava da própria poesia, desviava-se por uma pesquisa sobre os mitos, tocava os limites do amor, depois mergulhava em solo estrangeiro, reverberando obras de grandes autores, e, por fim, ainda em “Prosa”, selecionava seus primeiros poemas, fortemente marcados pela influência do concretismo.

O solo das cidades estava presente, via-se filtrado por seus poemas. Mas era como se lhe faltasse ainda um outro eixo para aprofundar seus temas prediletos, como a morte e a memória turvada e complexa do homem contemporâneo. É isso que aos poucos foi surgindo, com maior intensidade, nos seus novos poemas, publicados em revistas, como a “Inimigo Rumor” ou a “Cacto”, da qual Eduardo era um dos editores, ao lado do poeta Tarso de Melo (infelizmente a revista acabou no ano passado). Estes novos poemas, ainda em organização, vão compor o seu futuro livro, cujo título, como ele mesmo conta, é “Aleijão”, e que já joga para uma deformação, já provoca o leitor de saída.

Eduardo Sterzi ainda não organizou os poemas, não os selecionou entre os seus inéditos, mas por uma pequena amostra dá bem a perceber que encontrou na violência, que nos deforma no dia-a-dia, um caminho para a sua poesia. Além disso, incorporou um certo desprendimento que antes não se via, chegando a fazer poemas curtos, resultados de puras anotações, ou poemas entremeados de vozes e frases resgatadas do cotidiano.

Para Eduardo, pelo que se percebe pela leitura de “Prosa”, o poema é mesmo um relógio suíço, sem falsificações baratas, no qual todas as partes funcionam em conjunto, sem atraso. Já nos poemas novos, o relógio continua funcionando, o óleo azeitando a parte pelo todo, mas parece que o poeta se permite agora deixar algumas arestas, um poeira aqui e ali, que fazem a máquina do verso girar de outra forma, mas ganhando em intensidade lírica.

Não deixa de ser curioso como este título novo, “Aleijão”, apesar da imensa diferença temática e de abordagem dos assuntos, aproxima-se do ambiente deformado e perverso criado por Veronica Stigger em seus contos. Nos contos de Veronica, tudo é levado às últimas conseqüências ou, dizendo de outra maneira, ao absurdo. É assim que ela transforma o trágico, ou o que seria trágico, em esgar. A deformação chega a um ponto que causa um mal-estar no leitor. Eduardo já caminha por outra área, a do lirismo, mas abre sua poesia para um encontro questionador da realidade, revelando, na deformação, o mal-estar de nossa época.

O poeta concorda com a comparação, que parece ser mesmo inevitável. “Eu e a Veronica, além de sermos um casal, somos uma espécie de instituto de pesquisa, no qual, em alguma medida, não há muito limite entre o trabalho de um e o do outro. Não há texto meu ou dela que não tenha sido lido cuidadosamente pelo outro, e sempre antes de qualquer outra pessoa. Além disso, são permanentes nossas conversas sobre o que estamos produzindo, seja em literatura, seja em crítica (literária no meu caso, artística no dela). É inevitável que haja comunicação entre os trabalhos que desenvolvemos dentro de um determinado período, que temas e soluções formais semelhantes apareçam. Além disso, vale lembrar que a maioria das experiências por que passamos, e que acabam dando origem a contos, poemas, ensaios etc., são as mesmas.”

Mas, para falar de sua trajetória poética, será necessário comentar o seu primeiro livro, “Prosa”, publicado em 2001, em Porto Alegre, pelo Instituto Estadual do Livro. Nele já se encontram as marcas próprias de sua poesia e de sua pesquisa exigente. Como já notava na apresentação o crítico João Alexandre Barbosa, o título era uma provocação do autor: um livro de poemas chamado “Prosa” não deixa de ser uma aparente contradição. E levanta a poeira do hibridismo dos gêneros literários, da difícil classificação do que é ou não poesia e, principalmente, se ainda é possível fazer poesia nos tempos de hoje. O autor não traz resposta, mas lança a questão, ironicamente, desde a epígrafe, retirada de um poema do poeta Paul Celan, que diz “ainda há/ Canções a cantar além/ dos Homens”.

Porém, a provocação, como diz Eduardo, não pretende ser leviana: “Esse título, afinal, concentra preocupações teóricas que à época (final dos anos 90) já me obcecavam, e com as quais ainda hoje estou lidando na minha tese de doutorado sobre a ‘Vita Nova’, sobre este livro no qual Dante recupera os sonetos e canções escritos ao longo dos dez anos precedentes, envolvendo-os numa moldura narrativa exegética em prosa”, conta o poeta (leia entrevista abaixo).

Logo no primeiro poema do livro, chamado “Música”, a questão reaparece, formulada assim:

a musa voluptuosa
pede passagem

e lhe damos –
prosa:

qualquer imagem
vale mais

que a floração sentimental de uma
rosa:

gás lacrimogêneo,
luto, melancolia,

estrofe, catástrofe,
catarse:

deposita-se, linear
(limpa e suja como um verso)
pela praia pedregosa da palavra
– esta espuma.


O poeta já questiona seu material de expressão, como se percebe pelos primeiros versos onde há um choque entre a musicalidade (“a musa voluptuosa”), marcada por assonâncias, com o “pede passagem” e a repetição da oclusiva bilabial surda, o “p”, que parece reter a música melíflua que queria se encaminhar. Este freio se completa com os dois versos seguintes: “e lhe damos –/ prosa:”. Há aí uma parada entre “damos” e “prosa” marcada por uma mudança de verso e por um travessão. Como se o poeta suspendesse a resposta e a jogasse, depois, na cara do leitor, ironicamente.

Como ele mesmo explica, durante uma troca de e-mails sobre sua poesia, “ ‘Música’, aqui, é a música como figura da poesia, especialmente da poesia lírica, ou seja, de uma das formas de poesia em que a ‘musa voluptuosa’ encontra ‘passagem’ ”.

Ele conta também que a expressão “musa voluptuosa” foi retirada de uma tradução da “República” de Platão, “precisamente aquele texto em que pela primeira vez se põe ‘em xeque’ a poesia a partir de uma crítica filosófica”: “Fui procurar o livro na estante e ali o trecho todo diz assim (é Sócrates quem fala no diálogo): ‘Em matéria de poesia não se devem admitir na cidade senão os hinos em honra dos deuses e os elogios das pessoas de bem. Se, pelo contrário, admitires a Musa voluptuosa, o prazer e a dor serão os reis da tua cidade, em vez da lei e desse princípio que, de comum acordo, sempre foi considerado o melhor: a razão’. É claro que Platão, que era também um grande poeta além de filósofo, está certo: a poesia e a arte têm de fato este poder de desestabilização. E é justamente por que têm este poder que devem ser acolhidas na cidade por vir, na cidade não mais de Deus ou dos homens, mas nesta cidade ‘além dos Homens’ (ou seja: posterior a catástrofes, também ela catastrófica, traumatizada), nesta Cosmópolis que vamos ter de construir -nós que já não somos exatamente humanos depois de tanta inumanidade- em alternativa ao Império que está se oferecendo pronto para nós. Esta ‘música’ que acaba se revelando também ‘prosa’ -ou, segundo a imagem com que termino o poema, ‘esta espuma’ mallarmeana que se deposita, ‘limpa e suja como um verso’, ‘pela praia pedregosa da palavra’ -é uma das formas potenciais (e, pois, impossíveis) destas ‘Canções a cantar além / dos Homens’ das quais fala Celan na epígrafe”.

É essa consciência do “desejo e da impossibilidade da poesia”, como nota João Alexandre Barbosa, que a poesia inicial de Eduardo parece explorar. Será uma poesia da procura e do embate, do desejo de cantar a natureza e da sua inutilidade (“rouxinóis/ e bem-te-vis// inútil natureza”; ou ainda “secreto/ e tênue, teu canto/ envenena fantasmas/ e o que amas”; ou ainda “Jamais desfrutarei suas primícias:/ todo encanto/ vem de não penetrar// seu jardim/ de delitos e delícias”). Em “Demissão do poeta”, ele é ainda mais explícito:

Quem dera não ser poeta:

resistir
fisicamente
à sedução do papel.

Silenciar.

Matar a sede
noutra bica.

Deleitar o exílio
sonambúlico de um travesseiro

(mas

a janela permanece aberta,

não cessa

a visitação
perpétua
de musas,
estrelas,
insetos).


“Prosa”, como lembra o próprio autor, reúne poemas de 1988 a 2001, ou seja, são poemas dos seus anos de formação poética. Eduardo começou a escrever poesia ainda na adolescência, porém, como diz, “eram antes tentativas de fazer letras de música do que de fazer propriamente poemas”.

Foi somente em 1988, quando completou 15 anos, que começou a escrever “algo mais próximo de poesia, textos pensados desde o início como independentes de uma música que viria ou não”. “É uma data que eu registrei (um pouco ironicamente)”, comenta Eduardo, “na página de abertura da última seção do meu primeiro livro, seção que reúne os poemas mais antigos e que forma uma espécie de livro dentro do livro, quase um apêndice -que, no entanto, é integralmente ‘Prosa’, até pelo muito que há nela de insuficiente e derivativo: trata-se, afinal, de um primeiro livro, e como tal, antes de tudo, uma espécie de testemunho de minha formação. Há ali, nesta seção, pelo menos um poema cuja primeira versão -claro que muito diferente da configuração final- eu consigo remontar ao ano de 88”.

Nestes poemas, era patente a influência da poesia concreta, como reconhece Eduardo: “O fato decisivo para que eu me decidisse a escrever poesia foi a descoberta, lá pelos 16 ou 17 anos, da poesia concreta. Para mim, a poesia concreta foi uma disciplina -uma ‘matemática severa’, para lembrar uma expressão de Lautréamont que eu antepus, em epígrafe, a esta última seção do ‘Prosa’- pela qual eu tive de passar para que, partindo daquela experiência inicial com textos que me pareciam frouxos, palavrosos, pudesse fazer algo digno de ser considerado poesia. Gosto de pensar que, se é possível uma analogia entre a escrita de poesia e o bater de um coração (coração que, não por acaso, é uma metáfora central da poesia do Ocidente), a poesia concreta -não só para mim, acredito que mesmo para os próprios concretistas, Augusto de Campos, Haroldo de Campos, Décio Pignatari- funcionou como a sístole que precede a diástole, uma contração imprescindível antes de uma nova expansão”.

Eduardo nasceu em Porto Alegre, em 7 de junho de 1973 e veio para São Paulo em 2001. Primogênito de uma família de classe média (seu pai foi delegado e atualmente é advogado, e sua mãe é dona de casa), ele conta que guarda da infância duas imagens muito fortes: “A casa dos Sterzi, em Porto Alegre, e na cada vez mais vaga reminiscência da decadente praia de Tramandaí, no litoral norte do Rio Grande do Sul, onde se reunia, todos os verões, meu universo familiar mais amplo, os Henke, isto é, a grande família formada pelas famílias dos irmãos de minha avó, com seus filhos e netos, sempre sob o olhar germânico do meu bisavô, que era um patriarca à moda antiga. Quando ele morreu, no início da década de 80, esta grande família começou acabar”.

Na adolescência, estudou no Colégio Anchieta, uma dos mais tradicionais de Porto Alegre. Quando terminou o segundo grau, resolveu seguir na contramão dos seus amigos de sala -descartou as carreiras tradicionais, como direito, medicina e engenharia, “para as quais os alunos do Anchieta estavam como que predestinados”- e foi fazer jornalismo da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Chegou a trabalhar no “Zero Hora”, como repórter e editor-assistente do “Segundo Caderno”, sempre cuidando da editoria de Livros, ao lado dos jornalistas Jerônimo Teixeira e do poeta e jornalista Leandro Sarmatz (ambos também vieram para São Paulo, onde moram hoje em dia).

 
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