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Vilma Arêas

Esta lista privilegia autores nacionais de qualidade, que considerei pouco discutidos entre nós (e muita gente sobrou).


1. Bolha de luzes, de João Inácio Padilha (Companhia das Letras, 1998)

Treze contos clássicos, no melhor sentido da palavra: excelentes, com conhecimento do ofício e da tradição, e ao mesmo tempo altamente imaginativos, como o solilóquio de Borges transformado em personagem em “Memorial do esquecimento”, falando a uma Maria Kodama adormecida, ou o conto “Viagens e viajantes na história da literatura”, quando um personagem nos revela que Machado de Assis, assim como Fernando Pessoa, perdia-se em sonhos diante de navios. “Viajamos todos -disse o mestre- mesmo quando não saimos do lugar.” A surpresa que sentimos com esses textos talvez venha do brilho dessas bolhas, que quando estouram “num clarão efêmero e mudo” se transformam incessantemente, desafiando a fantasia do leitor.


2. O mandril, de Zulmira Ribeiro Tavares (Brasiliense, 1988)

Livro que jamais envelhece, cheio de vivacidade e inteligência em seus textos curtos e variados: anotações, poemas, reflexões, críticas. Há uma recusa à sentimentalidade fácil, ironia brincalhona -quase sempre perversa- e um leque de questões à escolha de quem lê. O ofício de Zulmira passa rente à prestidigitação, magicamente fazendo saltar personagens e cenários inesperados: anjos com sexo super-sensível guardado em copo de vidro e gelo picado, lençóis que crescem como claras em neve, uma índia engolida pelo vetê, lágrimas de zircônia, agonias e delírios de uma velha senhora, mulher preta diante da cauda azul do mar etc. Estimulante, feroz e muito engraçado. Merece uma nova edição.


3. O motor da luz, de José Almino (Editora 34, 1994)

Julgo que este é o nosso melhor livro de memórias e exílio a partir do golpe de 1964: realismo transfigurado pela subjetividade atormentada das pessoas de esquerda, que não conseguiram optar pela luta aberta contra a ditadura. Como de saída avisa João Moura Jr., na orelha do volume, “este não é um livro para se ler na condução”. Incomoda e nos convida a rever traços fortes da sociedade brasileira. De acordo com a melhor ficção da contemporaneidade, não se fixa burocraticamente num gênero. Os fragmentos delineiam um mosaico a que podemos chamar de crônicas, contos ou memória. Na verdade é tudo isso. Mas diz respeito a nós, conforme sugere o título da tradução francesa que acaba de sair: “Les nôtres”.


4. Cais e história dos ossos, de Alberto Martins (Editora 34, 2002 e 2005)

Cito os dois, embora aparentemente um seja de prosa e outro de poesia, mas ambos possuem alta tensão, que é o que aproxima ou separa esses dois gêneros. É que um livro se lê com o outro, e ambos contam uma história pessoal e coletiva de modo seco e ao mesmo tempo sinuoso, como se acompanhassem as virtualidades da água em sua perene variação: doce ou salina, transparente ou lodosa, contornando topografias e as idades do homem -infância e velhice, vida e morte. Livros enxutos e muito bonitos, ilustrados com gravuras do autor.


5. Questionário, de Cadão Volpato (Iluminuras, 2005)

É muito curioso este livro do Cadão e vale a pena conferir. Os personagens são muitos e desde logo convocados a responder também a muitas perguntas: “o que fez no sábado?”, “como foi a passagem dele pela IV Internacional?”, “como é você?”, “já matou alguém?” etc. Girando em ciranda os personagens respondem, e a partir dessas respostas quebradas uma história contínua se organiza, sem temer o banal, a violência política ou a efemeridade de um mundo de relações ameaçadas ou rompidas. Há muita melancolia, mas um grande frescor banha essas páginas e nos faz querer ler mais.


6. Literatura marginal, org. Ferréz (Agir, 2005)

Esta antologia foi minha grande descoberta do ano passado, embora o projeto tivesse sido premiado pela APCA em 2003. Sabemos que o sucesso de Paulo Lins gerou entre nós uma avalanche de livros sobre marginais, meninos de rua, favelados etc. Mas, se comparamos tais livros com esta antologia, percebemos imediatamente a diferença ou a falsidade do tom de quem quer acertar na mosca (talvez de ouro), escrevendo o politicamente correto. O próprio prefácio faz a denúncia, citando João Antônio: “ E vocês não sabem escrever essas coisas. Não podem sentir certas emoções, como o ouvido humano não percebe ultra-sons”. Pois bem, a força, a veracidade, o despudor, que dispensa orgulhosamente a ajuda dos anjos piedosos, e a competência dos textos, entusiasmam. Imperdível o conto de Erton Moraes, uma conversa entre uma mosca-varejeira, um sapo vegetariano e um espermatozoide chamado Espermatofreud. É demais!


7. Taquara rachada, de Dora Ribeiro (7 Letras, 2002)

Acompanho desde o início, desde “Bicho do mato”, o trabalho desta poetisa (insisto no termo) de Mato Grosso e que hoje mora em Lisboa. Tem um livro inédito. Copio aqui “Meu cinema”:

o plano está bastante
inclinado
e nós estamos lá
simples e
molhados

(há ovelhas à volta
e as árvores são
esculturas feitas de
ventania)

O chão
olha debaixo
da minha saia

e você vê ali
o céu descoberto

eu finjo distração
e morro por segundos
nos seus braços.


8. A idéia e o figurado, de Gilda de Mello e Souza (Duas Cidades/Editora 34, 2005)

Introduzindo o livro, Augusto Massi tem razão ao afirmar que ele “nos permite situar Gilda de Mello e Souza no quadro da crítica brasileira (...). Passou ao largo das especializações, buscando contemplar todas as manifestações artísticas: literatura, música, teatro, moda, cinema e pintura”. Também por isso acho que a obra não pode faltar em qualquer estante de literatura. É difícil escolher, dentre todos, o ensaio mais instigante: se aqueles da primeira parte, dedicados a Mário de Andrade, se o notável “Macedo, Alencar, Machado e as roupas”, quando Gilda pecorre o caminho do erotismo nos três autores a partir das vestimentas de suas personagens, se o último, um dos meus preferidos, sobre Fred Astaire, o grande bailarino da vida moderna, onde a percepção é extremamente fina e ousada, surpreendendo o leitor. Uma obra para ficar.


9. Bartleby, o escrivão - Uma história de Wall Street, de Herman Melville, tradução de Irene Hirsh, posfácio de Modesto Carone (Cosacnaify, 2005)

Livro que se lê em uma ou duas horas, mas que se relê o resto da vida É a biografia impossível do personagem-escrivão, pois que dele quase nada se sabe, mas este “nada” fisga o leitor. Em 1944, Jorge Luis Borges traduziu o livrinho, aproximando-o ao outro livro do autor, “Moby Dick”. Mais que isso, afirma Carone em seu posfácio, o mestre latino-americano pondera que o idioma tranquilo aplicado a “uma matéria atroz parece prefigurar Kafka”, isto é, “Bartleby” definiu um gênero que no século seguinte seria reinventado por Kafka. Apesar desse “nada” da vida do escrivão, ele comove e se insere numa longa lista de personagens tragicômicos emblemáticos da modernidade.


10. Caro Michele, de Natalia Ginzburg, tradução de Federico Mengozzi (Paz e Terra, 1986)

Devo confessar que releio este livro todos os anos, e com a mesma emoção, desde que foi publicado pela Einaudi em 1973. Autora marcada pelo fascismo e pela guerra, todos os seus livros versam sobre histórias de família. O que é notável em seu estilo é sua aparente simplicidade que esconde uma complexidade adivinhada no impacto que ele nos causa, sem que saibamos por quê. Pois não há rebuscamento, figuras de estilo ou sofisticação aparente. Muito menos escândalo, ao gosto da contemporaneidade. Assim, neste livro, a dispersão familiar, a crueldade, a mesquinhez, o desencontro amoroso, o homossexualismo -tão maltratado na arte de hoje, que não encontra o tom para falar do tema- porejam das linhas silenciosamente, sem alarde e sem fugir do nervo da questão. Um grande -breve!- livro.

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Vilma Arêas
É professora de literatura brasileira na Universidade Estadual de Campinas e autora, entre outros livros, de "Clarice Lispector com a Ponta dos Dedos" e "Trouxa Frouxa" (Companhia das Letras).

 
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