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audiovisual
CLÁSSICO

O diamante de Helena
Por Fernando Masini


Cena de "Vida de Menina", de Helena Solberg
Divulgação

A diretora Helena Solberg conta como adaptou para o cinema os diários da menina Helena Morley

“Escrevo tudo neste caderno que é meu confidente e amigo único.” Assim Helena Morley, pseudônimo da autora Alice Dayrell Brant, à época com apenas 14 anos, filha de pai inglês, descreve sua relação com o diário que redigiu em Diamantina (MG) durante os anos de 1893 até 1895. Uma fonte deleitosa de casos familiares, intrigas domésticas e superstições cotidianas, narrada com a inocência e a espontaneidade da menina que buscava apenas “construir seus castelos” e passar o tempo numa cidade provinciana onde pouco acontecia.

Seus relatos deram origem ao livro “Minha vida de menina”, publicado pela primeira vez no Brasil em 1942. A obra chamou a atenção de grandes escritores como Guimarães Rosa e encantou a americana Elizabeth Bishop durante o tempo em que a poeta viveu em Ouro Preto. Ela foi a responsável pela tradução do diário para a língua inglesa. Sessenta anos mais tarde, a diretora Helena Solberg resolveu filmar a experiência adolescente de Helena Morley.

“A capacidade de empatia que ela gera em nós por ser tão aberta em admitir suas fraquezas e suas falhas é o que nos faz rir de nós mesmos, porque nos reconhecemos nas suas imperfeições e incoerências”, diz a diretora sobre a decisão de adaptar o diário para o cinema. O filme “Vida de menina”, em cartaz em São Paulo e com estréia prevista para o dia 28 de outubro no Rio de Janeiro, levou seis prêmios no Festival de Gramado de 2004, incluindo o de melhor filme.

Foi rodado em Diamantina, nos mesmos lugares por onde Alice Dayrell passou: a escola onde ela estudou, a chácara da avó, as lavras onde o pai garimpava em busca de diamantes. Para a diretora, o maior desafio foi peneirar os inúmeros acontecimentos contados no diário a fim de montar o roteiro definitivo. “Fizemos cerca de 12 versões do roteiro. Evitei as complicações de um enredo e apostei mais na complexidade dos dilemas interiores dos personagens. Procurei manter o olhar, o ponto de vista da menina”, conta na entrevista abaixo.

“Vida de menina” é o primeiro longa-metragem de ficção dirigido por Helena Solberg. Antes, ela havia trabalhado em projetos para canais de televisão como a HBO e o português RTP. Em 1994, dirigiu “Carmem Miranda: banana is my business”, um documentário com inserções de ficção que conta a carreira da atriz e cantora brasileira e o seu sucesso nos EUA.

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Antes de “Vida de menina”, você trabalhou com documentários e filmes para televisão. O que muda no processo de criação com o seu primeiro longa de ficção para cinema?

Helena Solberg: São dois processos inteiramente diferentes. No documentário, o diretor elege a realidade que quer examinar, o assunto que lhe parece instigante, no qual gostaria de se aprofundar. Mesmo que tenha idéias que são suas, ou seja opiniões, acho que tem que ter uma imensa disponibilidade de ser transformado pelos fatos que, aos poucos, vão se desdobrando à sua frente.

Muitas vezes um personagem novo joga uma luz inesperada que pode dar um ângulo novo à história. Você está pisando em matéria viva; as coisas estão em movimento. Ao retornar para a sala de edição inicia-se um outro processo, de juntar um quebra-cabeça, que é o momento mais rico do documentário, a busca da estrutura. Geralmente no documentário trabalhamos com equipes pequenas que permitem uma intimidade maior para evitar interferências, constrangimentos.

A fase fundamental da ficção para mim antecede a filmagem. Acredito em roteiro bem amarrado nem que seja para desrespeitá-lo se for necessário. O momento da filmagem não deveria ser o momento das grandes dúvidas, enquanto uma equipe de 70 pessoas, mais os atores e os extras, esperam que você resolva uma crise existencial. As pressões da produção são enormes e você tem que responder a elas. Você tem como que uma orquestra nas mãos e ela tem de ser conduzida com uma imensa habilidade para chegar ao fim da sinfonia.


Você disse que para adaptar o diário de Helena Morley teve de “ler entrelinhas e descobrir o que ela não queria que eu soubesse”. O que foi descoberto nesse processo?

Solberg: Não me referia a grandes descobertas, mas sim a uma leitura perspicaz e profunda. Uma adolescente escrevendo tem lá suas artimanhas, e tratando-se de uma Helena Morley, de uma esperteza extraordinária, não podemos deixar de pensar no que deve ter censurado.

Além do fato de que muitas vezes ela lia o diário para os familiares e devia ter consciência do que podia ou não ser dito. Também é possível sentir as tensões familiares que deviam causar muita ansiedade na menina. A veia cômica parece às vezes uma necessidade para dar uma espécie de final feliz para cada episódio. Para mim, mais importante do que as histórias em si são as suas observações e conclusões sobre a vida.


Quando você leu o diário pela primeira vez? O que lhe encantou e foi fator determinante para resolver filmá-lo?

Solberg: Definitivamente a escrita como uma forma de construir um personagem que é você mesmo foi o que mais me atraiu. E que personagem! A capacidade de empatia que ela gera em nós por ser tão aberta em admitir suas fraquezas e suas falhas é o que nos faz rir de nós mesmos, porque nos reconhecemos nas suas imperfeições e incoerências. Só li o diário, por acaso, por volta do ano 2000.


Por indicação de alguém?

Solberg: A correspondência da Bishop (Elizabeth Bishop, poeta americana cujas cartas foram publicadas em “Uma arte: as cartas de Elizabeth Bishop”) foi publicada nessa época e há coisas maravilhosas nas cartas que ela escreveu para seus amigos descrevendo o Brasil. Fiquei curiosa sobre sua trajetória e isso provavelmente me levou também ao diário.


Como foi o processo de alinhavar as histórias e criar o roteiro? Parece que houve mais de dez versões para se chegar ao roteiro definitivo…

Solberg: Estabelecemos um diálogo muito livre, e seguimos os caminhos mais loucos na adaptação, no sentido de abrir todas as portas. Fizemos cerca de 12 versões do roteiro. Atravessamos os estágios de maior fidelidade à infidelidade total ao texto. Nosso maior desafio foi preservar o olhar da menina -optamos pela fidelidade ao espírito da personagem, mais até que aos fatos narrados.

O diário é muito denso, tem muitos personagens e episódios. No fundo, acho que todo roteiro é original, no sentido de que representa uma leitura sobre um determinado material. Depois de percorrermos vários caminhos, o roteiro final preservou o essencial que me saltou aos olhos na primeira leitura. Na verdade, o que está na tela é o resultado de diversos olhares: o olhar de Alice Dayrell filtrado pelo olhar de três Helenas: a personagem Helena Morley, a diretora e a roteirista.

Evitei as complicações de um enredo e apostei mais na complexidade dos dilemas interiores dos personagens. Procurei manter o olhar, o ponto de vista da menina. Era ela que devia nos conduzir. Tivemos dúvidas sobre o uso da voz off, se iria criar um distanciamento ou nos remeteria à escrita como queríamos.


Alguns “casos” foram filmados e depois descartados na montagem final? Certos personagens pitorescos do livro ficaram de fora do filme: é o caso do ladrão que vira cupim e do seu Zeca, balconista da mercearia aberta por Alexandre, que sofria de gases.

Solberg: O caso do ladrão que vira cupim está no filme. É uma das entradas no diário que a Helena lê na sala de aula.


Não foi difícil manter a fluência e a evolução da narrativa, tendo em vista que o diário tem um tom espontâneo e inúmeras situações e personagens?


Solberg:
Foi muitíssimo complicado, um desafio, conservar esse tom do diário entre o casual e despretensioso, mas cheio de nuances. Não foi à toa que se tornou um livro "cult" para toda uma geração que se perguntou: onde essa menina aprendeu a escrever assim? Não se trata só do que conta, mas de como ela conta.


Ao assistir ao filme e ler o livro, parece-me um tanto paradoxal o fato de uma menina tão expansiva e rebelde como Helena contentar-se e viver “dando risadas” numa cidade provinciana que pouco lhe oferecia. O que você pensa a respeito?

Solberg: Sim, como falei, acho que existem perguntas que nunca serão respondidas sobre esse diário e isso é parte do seu mistério e do seu encanto. Na verdade há um ditado que diz mais ou menos assim: a província é o lugar da onde você quer desesperadamente sair e depois, no resto da vida, o lugar que você passa relembrando e querendo voltar. Veja o caso de James Joyce com Dublin.


No livro, Carolina, a mãe de Helena, parece uma pessoa mais alegre. A própria Helena escreve no diário: “Mamãe é como nós. É dela que puxamos esse riso solto”. Já, no filme, a personagem aparece com uma feição mais sofrida, principalmente pela ausência do marido.

Solberg: Helena tem uma visão da mãe como alguém que acredita que a vida é feita de sofrimentos. Mantivemos o olhar e o ponto de vista da menina sempre. Carolina só está contente quando o marido volta das lavras e é seu amor por ele que a diferencia das outras mulheres da família.

Seu casamento foi um casamento de amor e não "acertado" pela família. Helena vê isso como um modelo para si mesma. Não acho que no filme ela está triste, e sim saudosa e sobrecarregada com os afazeres de casa. Acho que se isola porque, tendo vindo de uma casa abastada, agora vive uma situação econômica da qual se envergonha.


É bastante sintomática a forte presença feminina no enredo. A avó tem uma relação umbilical com Helena; e Carolina é a presença do adulto na casa, já que o pai está sempre fora, nas lavras. Até que ponto é um filme contado e dirigido sob o ponto de vista de mulheres?

Solberg: Acho que esse universo feminino está no diário. Assim mesmo existem dois personagens masculinos fortes que causou impacto nela também: o professor Teodomiro e seu pai -e alguns inimigos que a atormentam, que são o tio Geraldo e o padre Neves. Mais uma vez, repito que o olhar que segui foi o da menina e que a sua relação com a avó é certamente a relação mais importante de sua adolescência. É o seu modelo, e ela torna-se, como Teodora, uma matriarca, como pude averiguar nas entrevistas que fiz com membros da família.


Quem você entrevistou da família?

Solberg: A família é muito especial. Ficamos muito amigos. Entrevistei todos que estavam disponíveis. Mas toda a vivência deles com Alice Caldeira Brant (que usou o pseudônimo Helena Morley no seu diário) obviamente era bem posterior aos anos 1893 e 1895, que são os anos em que a menina escreveu, dos 13 aos 15 anos.

Foi fascinante ouvir os testemunhos da sua vida já como mulher adulta. Ela teve cinco filhos. Continuou a ser uma pessoa imprevisível, absolutamente irreverente e que reunia à sua volta todo um círculo de admiradores. Sua filha Sarita tem hoje 90 anos e está muito lúcida. Eduardo Almeida Reis, neto de Alice, é também um escritor. Sua bisneta Ana Cristina é colunista do jornal “O Globo”. Avó e neta, acho que elas têm definitivamente um humor como o de Morley.

Decidi me ater ao diário, pois a vida posterior de Alice daria um outro filme. O nome verdadeiro de Leontino, o primo-irmão com quem ela se casou, era Augusto Mario Caldeira Brant. A família viveu um tempo em Belo Horizonte antes de se mudar para o Rio de Janeiro. Augusto Mario foi presidente do Banco do Brasil.

Durante a ditadura de Getúlio, moraram na França e depois em Buenos Aires. No Rio de Janeiro, moraram em uma mansão na Lagoa que hoje não existe mais e, em seu lugar, há um prédio que se chama Helena Morley.


O filme foi rodado em Diamantina exatamente nos lugares por onde Alice Brant passou sua vida? A Escola Normal, a sua casa, o mercado do Motta, esses prédios ainda existem?

Solberg: Está tudo lá. A Escola Normal é hoje a prefeitura, e tivemos que negociar para usar o seu exterior. O interior da sala de aula foi filmado em outra escola que estava em melhores condições. O Motta refizemos inteiro. A casa dos Morleys foi recriada em um vilarejo chamado Curralinho. A chácara de Teodora continua existindo, mas foi toda modificada no interior pela família que hoje mora lá. Optamos pela casa de Chica da Silva (escrava que viveu em Diamantina no século 18), que hoje é um museu e sede do Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional).


Logo na abertura do filme os caracteres iniciais situam o espectador em tempo e espaço. Depois há poucas referências que buscam contextualizar os acontecimentos. Foi uma opção deliberada?

Solberg: A abertura do filme é o piquenique no Biribiri, onde os personagens principais estão todos presentes. A chave do filme está praticamente aí. As relações familiares e o diamante como uma metáfora central.

 
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