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prosa.poesia
OBJETIVISMO

Séries discretas
Por Ruy Vasconcelos

Poesia refinada e minimalista do norte-americano George Oppen merece ser descoberta pelos brasileiros

Ainda um ilustre desconhecido no Brasil, o poeta norte-americano George Oppen vem recebendo, nos últimos anos, uma atenção crescente nos Estados Unidos, com sua linguagem refinada e minimalista, atravessada por referências à filosofia e na qual convivem Heidegger, Simone Weil, Wittgenstein e San Juan de la Cruz. Em 1990, sua “Correspondência escolhida” (“Selected letters”) foi editada por Rachel Blau DuPlessis. Em 2002, saíram seus “New collected poems” (Nova poesia completa) e, no ano seguinte, uma edição de “Selected poems” (Poemas escolhidos), com introdução do também poeta Robert Creeley.

George Oppen nasceu em New Rochelle (NY), em 1908, de uma família, relativamente abastada, de emigrantes judeus-alsacianos. Sua mãe sofreu um colapso nervoso e suicidou-se quando ele tinha quatro anos. Seu pai contraiu segundas núpcias em 1918 e, neste mesmo ano, a família mudou-se para San Francisco, onde o pai abriu uma lucrativa cadeia de cinemas.

Apesar da prosperidade da família, Oppen estudou em escolas públicas na Califórnia. Em 1926, matriculou-se no Agriculture College, no Oregon. Na escola, irá conhecer Mary Colby, sua companheira de toda uma vida, de onde os dois serão expulsos por violarem o toque de recolher do dormitório feminino, quando de seu primeiro encontro. A história do casal está relatada em “Meaning a life: an autobiography (Significando uma vida: uma autobiografia, 1978), escrita por Mary.

Após breve estadia em San Francisco, quando ajudou nos negócios do pai, Oppen decide não retornar à universidade e abdicar das comodidades com as quais seu pai lhe acenava. Em 1927, o jovem casal muda-se para Nova York, oficializando o seu casamento em Dallas, depois de uma jornada de caronas e algum improviso de costa a costa, que antecipa em 20 anos muito das sagas beats -mais pela precariedade que pelo propósito.

Uma vez em Nova York, os Oppen travam contato com dois poetas que, a exemplo de William Carlos Williams, pretendiam escamar o imagismo poundiano das contrafações da “diluidora” Amy Lowell: Louis Zukofsky e Charles Resnikoff. Das discussões em torno dessa proposta surge a semente do futuro movimento objetivista, termo pioneiramente empregado por Zukofski em dois ensaios -“Program Objectivist, 1931” e “Sincerity and Objetification”- enxertados na prestigiosa revista “Poetry”, que Zukofski editou para (e contra) Harriet Monroe.

Em 1929, os Oppen estabelecem-se na França, onde fundam a TO publishers -germe da futura Objectivist Press. A idéia visionária, mas mal recebida pelos livreiros americanos, que se recusaram a estocar as brochuras, era a de tiragens baratas em “paperback”. Por essa época encontram Ezra Pound em Rapallo, na Itália.

O casal retorna aos Estados Unidos em 1933. No ano seguinte, pela Objectivist Press, que chegou a publicar trabalhos de Williams e Pound, Oppen lança seu primeiro livro, “Discrete series” (Séries discretas), no qual já trabalhava desde antes da partida para a Europa.

O título, Oppen toma de empréstimo do jargão da matemática. Uma série discreta é aquela “em que cada termo é empiricamente justificado, ao invés de derivado do termo precedente; é o que a expressão significa para um matemático”, informa o autor. Ele acrescenta: “Pensei tarde demais –com 30 anos de atraso- que a guarda deveria trazer a inscrição 14, 28, 32, 42, que compõem uma série discreta: o nome das estações do metrô do East Side (de Nova York)”.

Durante os anos da Depressão, o casal Oppen opta pelo engajamento político, filiando-se ao Partido Comunista. Data daí o silêncio que Oppen manterá pelos próximos 24 anos. Na seqüência, ele trabalha como cortador de tecidos numa fábrica até 1942, quando é convocado para o exército. Mobilizado para o front europeu, é ferido gravemente por estilhaços de granada na Alsácia, pouco antes do fim da guerra.

Devido a suas atividades sindicais de esquerda, cai então na mira do FBI e decide mudar-se, em 1950, para a Cidade do México, onde gerencia uma pequena fábrica de móveis em sociedade com um empresário local. Nesse ínterim, ele e a mulher têm seus passaportes cassados e ficam impossibilitados de voltar legalmente para seu país.

Os Oppen retornam aos Estados Unidos oito anos depois, após a sanha macarthista, fixando-se inicialmente em Nova York e definitivamente em San Francisco. Por essa época, Oppen pronuncia-se sobre questões candentes dos anos 60, como o racismo e a Guerra do Vietnã. O casal Oppen costumava, então, passar os meses de verão em Deer Island, no Maine, onde com freqüência recebiam jovens escritores, como Ted Enslin, Rachel Blau DuPlessis, e John Taggart, entre outros. Quando os sintomas do mal de Alzheimer começaram a dificultar a mobilidade de George, a família cessou com as viagens.

O segundo livro de Oppen, “The materials” (Os materiais) aparece em 1962, seguido de “This in which” (Nisso em que, 1965); “Of being numerous” (De sermos numerosos, 1968) -que lhe valeu o prêmio Pulitzer; “Seascape: Needle’s eye” (Marinha: olho d’agulha, 1972); “Myth of the blaze” (Mito da chama, 1975); e “Primitive” (Primitivo, editado por Mary Oppen em 1978).

Após um lento deslace de memória e razão provocado pelo Alzheimer, Oppen morreu em 1984, aos 77 anos.

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Leviatã

Poema de George Oppen
Tradução de Ruy Vasconcelos


A verdade é também sua busca:
Como a felicidade, e não prevalecerá.

Mesmo o verso começa a erodir
No ácido. Busca, busca;

Vento move brando,
Em redemunho, muito frio.

Que devemos dizer?
Em fala comum -

Ora precisamos falar. Não estou mais seguro das palavras,
A mola do mundo. O que é inexplicável,

A “preponderância dos objetos”. O céu esplende
Diariamente com essa predominância

E nos tornamos o presente.

Ora precisamos falar. Medo
É medo. Mas nos abandonamos um ao outro.


Leviathan

Truth also is the pursuit of it:
Like happiness, and will not stand.

Even the verse begins to eat away
In the acid. Pursuit, pursuit;

A wind moves a little,
Moving in a circle, very cold.

How shall we say?
In ordinary discourse -

We must talk now. I am no longer sure of the words,
The clockwork of the world. What is inexplicable

Is the “preponderance of the objects”. The sky lights
Daily with that predominance

And we have become the present.

We must talk now. Fear
Is fear. But we abandon one another.

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Ruy Vasconcelos
É tradutor, roteirista e professor da Universidade de Fortaleza (Unifor).

 
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