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estante

Zeca Camargo

1. "Everything is illuminated", de Jonathan Safran Foer

A história mais original que li nos últimos anos. Um cara vai procurar, na Ucrânia, alguém que pode ter salvado sua família na Segunda Guerra. Seu guia aprendeu a falar inglês com ajuda de dicionários. Suas frases são hilariantemente brilhantes e de tradução truncada (o título do livro, por exemplo, quer dizer, "tudo está explicado"), o que pode explicar (mas não justificar) a ausência de uma edição em português. Mas não é só isso: a história de amor dos antepassados do narrador é das mais apaixonantes e enlouquecidas que já encontrei.


2. "Reparação", de Ian McEwan

Se não fosse pela trama quase previsível e ainda assim surpreendente, pelas frases originais ou ainda pelas vívidas descrições de cenas na melhor tradição de Jane Austen, "Reparação" mereceria entrar nessa lista, nem que fosse apenas pelo capítulo no qual a dona da casa, presa a sua cama devido a uma enxaqueca, descreve tudo que está acontecendo sem sair do quarto, com a luz apagada.


3. "Amor para sempre", de Ian McEwan

Duas indicações de Ian McEwan? Pode parecer exagero, mas como não mencionar o primeiro capítulo desse livro, que descreve um acidente de balão, quando vários homens saltam para segurar a corda de seu cesto, que contém uma criança? A cena, que já não é banal, ganha ares de um épico, numa narrativa que encontrei primeiro sob a forma de um conto publicado na "New Yorker". Nem seria necessário escrever mais nada depois disso, mas McEwan ainda oferece, depois do incidente, o requinte de uma brilhante história de obsessão.


4. "O talentoso senhor Ripley", de Patricia Highsmith

Tenho de confessar que vi o filme (a adaptação mais recente, com Jude Law) antes de me interessar em ler o livro. Não demorou mais de alguns capítulos para eu me arrepender de não ter encontrado Highsmith antes. Já reli o primeiro Ripley (e as suas continuações) uma boa dezena de vezes -e minha fixação é tão forte que esse é o único livro que eu já ousei comprar também em CD -e ouvi inteirinho!


5. "Um equilíbrio delicado", de Rohinton Minstry

A melhor saga indiana contemporânea. Um daqueles retratos grandes, amplos, que mostra a fragilidade dos conflitos com os quais convive uma cultura como a indiana. Uma dinâmica interpretação de cotidianos caóticos (todas as seqüências nas favelas e na inesperadamente hierárquica sociedade dos mendigos) e tradições imaculadas, que ultrapassaram os clichês de uma mera novela que tem a Índia como cenário.


6. "A ocasião", de Juan Jose Saer

As frases longas e rebuscadas, ao contrário de tornar essa história simples num mero bibelô, acabam sendo o verdadeiro motivo de fascinação na escrita de Saer. Imagens poderosas de uma Argentina ainda sendo colonizada se intercalam com um conflito tênue entre pessoas cujo forte não é a comunicação -mas como eles falam!... Um livro curto, capaz de fazer você se arrepender de ter tido vontade de absorvê-lo tão rápido.


7. "Headlong", de Michael Frayn

Recém-lançado, com um outro livro ("Espiões") ainda espera ser descoberto no Brasil. Dono de uma obra extensa (e brilhante), Frayn (que também é um aclamado autor teatral, com sucessos recentes como "Copenhagen" e "Democracy") constrói histórias delirantes, ao mesmo tempo desesperadoras e engraçadíssimas. Como a de "Headlong" (inédito no Brasil), em que o personagem principal acredita ter descoberto um Bruegel perdido e se envolve em situações cada vez mais constrangedoras para provar que está certo. Um "pastelão" dos mais sofisticados.


8. "Desonra", de J.M. Coetzee

A história de um professor que cai em desgraça depois de ter um caso com aluna é contada da maneira mais seca possível. Mas nada é mais devastador nessa novela que o tom direto de Coetzee. Para mim, essa é sua trama mais eficiente, mais simples, mais triste, mais amarga e degradante. Quando o professor diz, já quase no final do livro, que quer ser esquecido e viver abandonado como um cachorro, no lugar de ser resgatado com compaixão, seu primeiro impulso é preparar o pé para um chute -sem dó, como o universo que você acabou de conhecer com esse autor.


9. "O livro das ilusões", de Paul Auster

Quando o leitor já tinha perdido as esperanças de que Auster pudesse vir com uma trama novamente fresca e enigmática, surge este livro para fazer justiça não só à reputação do escritor, mas também ao título. Você entra literalmente num jogo de espelhos até perder a resistência e não se importar mais se o que está acontecendo é ou não verdade. A prova final de que o prazer de um romance está muitas vezes apenas em se soltar numa trama.


10. "Maximum city", de Suketu Metha

Este é um livro de não-ficção, mas com um assunto tão absurdo e com uma escrita tão elaborada, que a sensação é a de que se está diante de uma novela "dickensiana". O autor, Suketu Metha, um indiano que saiu jovem de Bombaim (atual Mumbai), voltou para lá depois de casado, disposto a reencontrar suas raízes. Fez mais do que isso: escreveu a biografia definitiva da cidade, vibrante, assustadora, podre, grandiosa, polifônica, pretensiosa, desgraçada e sedutora. Com seus gângsteres, suas atrizes, seus conflitos e suas soluções para problemas modernos, a cidade é reconstruída em retratos fascinantes.

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Zeca Camargo
É jornalista, autor de "A fantástica volta ao mundo" (ed. Globo).

 
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