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três palavras

Janice Caiafa

1. Ouro

Os metais podem assumir divervas formas, cada um com seu tempo de fusão, combinando-se em ligas, transformando-se. O ouro, embora possa ser associado com o objeto de luxo, tem antes de tudo uma inserção nessa linha de variação da matéria que o metal desenvolve. Deleuze e Guattari apontam que a ourivesaria foi a arte bárbara ou nômade por excelência. Quando eles dizem que a arma se encontra numa relação essencial com as jóias, lembro-me de um sultão poeta que inscrevia seus versos na superfície de uma espada, criando uma jóia-arma e um texto-objeto, anti-significante, ornamental. A jóia existe também associada a uma história de empreendimentos nômades, formando um tesouro móvel, ornando, por exemplo, a ponta de uma flecha.

A palavra "ouro" traz todas essas ressonâncias para o seu emprego poético. Usei-a para o título de meu último livro de poemas por essa força, por ser possível com ela produzir diversos aparecimentos poéticos na vizinhança com a sua concretude -o metal, o lastro, o veio aurífero-, sem metáfora. Assim, o ouro da pelagem de meu gato Savory, o brilho do sol na pedra gótica na Catedral de Rouen de Monet, a luz preciosa de uma vida, os fios de cabelo de uma menina -podem ser tomados em toda a sua literalidade, como ouro.

Claro que isto também depende do contexto do poema, que precisa investir na materialidade da palavra. Alguns desses aparecimentos se colocaram antes, e outros depois da descoberta de "ouro" para o título, e a palavra veio para criar a ressonância, mas de forma que cada momento conservasse a sua singularidade e a sua concretude. Daí também o uso dela apenas, da palavra ouro sozinha -por sua simplicidade, concisão, autorizando uma poética sóbria.

Apesar das adaptações que sofreu, a palavra ouro, tomada poeticamente, readquire grande força. Podemos falar em jóia, em tesouro, sem as reverberações mais frívolas, ligadas à exploração e à desigualdade. Usada assim simples, produz uma surpresa. Traz uma experiência poética imediata, transferível para a vida. Metalurgia clandestina.


2. Bichano

Parece-me uma forma muito adequada de referir-se ao gato, e de dirigir-se a ele. Bichano acolhe bem o gato, indicando a proximidade que se tem com ele, e que é muito especial. Dirigida ao gato, é uma interpelação carinhosa, aconchegante, que nos coloca na sua intimidade, para nossa sorte. É como acomodar o gato em nosso colo.

Ao mesmo tempo, contém "bicho", indicando essa alteridade que o animal é para nós, e que o gato conserva intacta no seu afeto. É a nossa intimidade com um bicho. O gato, por mais que se adapte com prazer a nosso convívio, guarda esse aspecto selvagem e atraente, algo que resiste. Há, em conexão com isto, um outro efeito da palavra bichano. "Bicho", expressão muitas vezes depreciada entre os humanos, está aí numa formulação afetiva, o que pode levar as pessoas a reavaliá-la e a talvez acolher a alteridade que ela indica. Os gatos, com seu afeto benfazejo e selvagem, são mesmo bichanos.


3. Enxamear

Enxamear é encher, povoar em grande número, como as abelhas fazem. Provocar uma inundação ao comparecer em grande número evoca as grandes passeatas de protesto e de afirmação, as tomadas de posição, as invasões dos pequenos contra o poderio dos grandes. Só os pequenos podem formar enxame. É preciso ser ou tornar-se uma abelha, um mosquito para fazer enxame e nuvem. Enxamear me parece uma atividade coletiva de transformação por irrupção, arrojo, ímpeto.

Nesse desdobramento de enxamear que sugiro aqui, deve haver também muita solidão. Porque o grande número é impulsionado por uma contestação, uma recusa, uma determinação contra o estabelecido, uma diferença. Enxamear parece indicar que um gesto pequeno e local, um gesto dos pequenos, pode adquirir uma enorme força.

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Janice Caiafa

É antropóloga, poeta e professora da Escola de Comunicação da UFRJ. Publicou, entre outros, "Jornadas Urbanas" (Editora FGV), "Nosso século XXI" (Relume Dumará) e "Ouro" (7Letras).



 
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