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três palavras

Xico Sá

1. Pornografia

No que concerne à arte de amar, à moda Bataille & Sade, não à modinha de Ovídio _muito profilático. Boca suja e libertária, língua, cunilingus. Chupar manga e sorver milho cozido como pedagogia formadora do sexo oral para mocinhas e mancebos. Pornodevoções. Aos teus pés, a submissão ocasional contra o politicamente correto, contra a divisão de tarefas, a favor do escravo na alcova, por uma nova erótica, sempre, e em todos os sentidos. Uma erótica sempre acima da econômica. A pornografia contra o novo papa, a pornografia como hóstia consagrada, a pornografia como nossos jardins mais secretos.


2. Boemia

O flâneur está vivo. No pé-sujo, no botequim, mesmo no botequim que mimetiza visualmente a velha guarda, na esquina. O boêmio não sucumbiu à violência urbana, até porque todo boêmio é de alguma forma bandido. O boêmio está menos literário mas não obrigatoriamente menos romântico. Isso não é um defeito. O contrário do operário, na nova ordem, é o boêmio desempregado. O garçom como psicanalista das massas bêbadas. A cachaça como remate populista dos tristes trópicos, o chute na bunda de Saturno, a queda como alegoria do nosso direito atávico ao berço esplêndido, a celebração da sarjeta.


3. Ressaca

Na auto-flagelação do homem-inseto, nos relhos morais contra o próprio lombo, eis a ressaca do esclarecimento... A ressaca contra o capital, mais-valia metafísica. A rebordosa amorosa. O homem como um intervalo de ressacas íntimas ou públicas. Ressaca, a memória possível, o flash-back do declínio e da prosódia sem regulamento. O canalha em busca do "engov" ético.

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Xico Sá
É escritor e jornalista, autor de "A divina comédia da fama" (Objetiva) e "Modos de macho e modinhas de fêmea" (Record).

 
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