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três palavras

Rodrigo Garcia Lopes

1. Morte

Palavra latina, ladina, essa é de matar, essa é de morrer. A palavra paira em minha mente-corpo desde a morte de meu pai, em fevereiro, palavra que, curiosamente, vem de “Febrùa”, ritual ou festa da expiação, que ocorria a cada dia 15 daquele mês: “februarus”. Mais a morte de tudo o que é vivo, respostas sem perguntas, e o que é a morte, e por que estamos vivos. E a morte em vida, a pior das mortes. O morrer antes do morrer. Existe morte após a vida? Vida, uma unidade de terapia intensiva. Morte do amor, palavras amortecidas. Luto, a luta para superar uma ausência. E a palavra que vive quando dita. Seu nome no pó da estrada.


2. Poesia

Essa me persegue todo dia. Termo que dispara flechas simultâneas, cada uma numa direção, a um dizer preciso como as espadas de um filme chinês. Necessidade vital, poesia instrumento de visão, prazer & liberdade & ação, de resistência à imbecilidade, à superficialidade, à violência. A arte de estar vivo, poesia coisa viva para os vivos, “faísca que sai do papel”. Índex de transcendência, viagem que se faz aqui. Estamos em estado permanente de linguagem.


3. Moderno

Moderno é outra palavra recorrente. Com a morte do “post-mortem ismo”, pós-11 de Setembro, moderno voltou à moda. De “modernus”, ou seja “modo”, ou seja “agora mesmo”, ou seja o que acontece neste momento, enquanto você está lendo isto, por exemplo (e por isso todos somos modernos neste momento). Hodierno: a “consciência da consciência”. Um dia seremos hojernos.

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Rodrigo Garcia Lopes
É poeta, tradutor, autor de "Nômada" (Ed. Lamparina), entre outros, e editor da revista "Coyote".

 
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