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audiovisual
ORIENTE

Um cinema hiperbólico
Por Cecilia Sayad


O ator Ji-tae Yu em "Old boy"
Divulgação

O filme “Old boy”, a história de uma vingança, consagra o diretor sul-coreano Chan-Wook Park

Comparado a Hitchcock pela precisão e a força de suas imagens e também a Tarantino pela mistura pós-moderna de estilos, o cineasta sul-coreano Chan-wook Park, 42, tem sido centro de atenções da mídia nova-iorquina nos últimos meses. Como aperitivo, antes da estréia comercial de “Old boy” (2004), que aconteceu em março, a Brooklyn Academy of Music (BAM) organizou uma retrospectiva exibindo seus três longas e um de seus curtas. “Old boy” estréia neste mês em São Paulo.

Pertencente à chamada nova onda do cinema sul-coreano, Park trabalha dentro de gêneros populares, especialmente o thriller, o policial, o filme de terror e o filme de ação. É nesse registro que Park se destaca por seu estilo ao mesmo tempo elegante e excessivo, sutil e barroco, contido e melodramático.

Seu primeiro longa, “Joint security area” (“Gongdong Gyeongbi Guyeok JSA”, 2000), foi um dos maiores sucessos de bilheteria do cinema sul-coreano nos últimos tempos, projetando o diretor como talento promissor apesar da recepção pouco entusiasmada por parte da crítica especializada. “Sympathy for Mr. Vengeance” (“Boksuneun Naeui Geos”, 2002), por outro lado, agradou menos às platéias do que à crítica, que desta vez exaltou Park como um dos mais interessantes diretores da nova geração. “Old boy” finalmente condecorou o diretor com sucesso tanto de crítica quanto de público.

Desde o boom que deslanchou a produção de filmes na Coréia do Sul no início dos anos 90, o cinema do país vem ganhando cada vez mais destaque na mídia ocidental. Tanto a revista norte-americana “Film Comment” quanto os “Cahiers du Cinéma” dedicaram uma sessão ao cinema sul-coreano entre o final de 2004 e o início deste ano.

Nova York sedia desde 2000 um festival anual com as produções da Coréia do Sul. O Lincoln Center, também em Nova York, promoveu uma retrospectiva com cerca de 40 filmes no final do ano passado, enquanto em Paris a Cinemateca Francesa organizou uma mostra com cerca de 50 filmes entre janeiro e fevereiro. Finalmente, Cannes 2004 deu a “Old boy” o Grande Prêmio do Júri, presidido por Quentin Tarantino.

A comparação com Hitchcock é válida na medida em que o cinema de Park, como o do diretor britânico, compõe-se de cenas que em si constituem pequenas obras-primas, tornando-se memoráveis independentemente do contexto.

No segmento dedicado ao mestre do suspense em “Histoire (s) du cinéma”, Jean-Luc Godard comenta, com relação a “Sombra de uma Dúvida”, que poucos se lembram por que Teresa Wright continua apaixonada por seu tio Charlie (Joseph Cotten), mas ninguém se esquece das imagens de partituras de música. Os filmes de Park, cujo enredo é quase sempre rocambolesco, são também marcados por imagens que se destacam da trama, tão poderosas que adquirem valor em si mesmas.

Em “Sympathy for Mr. Vengeance”, a imagem de uma menina se afogando e gritando por socorro em segundo plano, enquanto em close-up seu potencial salvador, surdo e mudo, permanece indiferente, é mais memorável do que a tortuosa série de eventos que levam ao afogamento. Não é à toa que, como declarou em entrevista, Park decidiu fazer cinema depois de assistir “Um corpo que cai”, um dos roteiros mais conturbados da obra de Hitchcock e, de todos os filmes do mestre, um dos que possui as mais memoráveis imagens.

Não que o enredo, tanto para Hitchcock quanto para Park, seja irrelevante. Muito pelo contrário, “Sympathy” e “Old boy” possuem trama elaborada, cheia de reviravoltas e surpresas. O primeiro narra as frustradas tentativas de um rapaz surdo-mudo para salvar sua irmã, que necessita de um transplante. Após ser enganado pelo mercado negro de transplantes de órgãos, o herói se une à namorada para sequestrar a filha de seu ex-patrão, um industrial amargurado e indiferente às necessidades de seus funcionários.

O sequestro, último recurso para o surdo-mudo, é executado com cuidado, procurando não ferir nem assustar a criança, mas toma rumos inesperados e acaba em tragédia. O filme então muda nosso foco de identificação, à la “Psicose”. No longa de Hitchcock, a morte da heroína (Janet Leigh) depois de apenas 30 minutos de filme transforma o assassino (Anthony Perkins) em protagonista. Em “Sympathy”, o sonhador e bem-intencionado herói passa a ser vilão na metade do filme, e a figura do pai desesperado começa a também ganhar a simpatia do público, que fica dividido enquanto sequestrador e pai se embrenham num ciclo sangrento de atos de revanche.

Vingança é também o motor de “Old boy”, em que um homem casado e com uma filha pequena é aprisionado por 15 anos sem saber por quê, sendo ainda por cima acusado de assassinar sua própria mulher. Uma vez liberado desta situação kafkiana, e agora sem família, o protagonista sai em busca do motivo de tal prisão, sedento de vingança por tantos anos de reclusão.

O excesso, em Park, se deve em grande medida ao tom melodramático que dita as ações dos personagens, sempre movidos pela paixão -de irmão para irmã no caso do surdo-mudo, de pai para filha na sangrenta vingança do ex-patrão, e em “Old boy”, cuja história é melhor não revelar para o espectador. Mas é na corporalidade que marcam as cenas de violência de seus filmes que o diretor se revela como um dos mais hiperbólicos realizadores do cinema comercial. Com que frequência, afinal, assistimos na tela alguém devorar um polvo vivo?

O uso da “split-screen” (tela dividida ao meio) à la Brian De Palma, o tema da vingança e a violência desenfreada geraram comparações com Tarantino, por sua vez influenciado pelo cinema de terror italiano -por Lucio Fulci, Mario Bava, Dario Argento. Mas, enquanto a violência de Tarantino tem caráter paródico, Park não nos poupa de seu conteúdo trágico. E, se na tradição italiana banhos de sangue e tortura explícita viram espetáculo, afastando-nos temporariamente da narrativa, em Park o mesmo despudor adquire tons mais sombrios. Afinal, os personagens do diretor sul-coreano são muito mais humanizados do que os de Tarantino e seus antecessores italianos.

Ainda que extremamente estilizadas, e mesmo investindo no impacto de imagens cuidadosamente orquestradas e ações coreografadas, as tramas de Park colocam grande ênfase nas motivações psicológicas, na complexidade de caráter. Daí a visceralidade de seu cinema, que une a fisicalidade dos filmes de artes marciais de Hong Kong com os impasses morais do mais sofisticado cinema de autor.

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Cecilia Sayad

É doutoranda em cinema  pela Universidade de Nova York.



 
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