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três palavras

Marcelo Rezende

1. PanAm

Essa é uma das palavras-conceito mais interessantes do século passado. Fascinante. Quando passou a ser repetida entre as décadas de 30 e 90, não descrevia apenas a Pan American Airways, um dos símbolos do capitalismo norte-americano. Era todo um imaginário que voava nas asas da PanAm: moças de uniforme azul, champagne, o sorriso da pessoa ao lado, negócios pelo mundo, Campari e elegância.

Nos anos 1970, esse ideal do chic esteve no seu apogeu -ainda que se aproximando da decadência com a crise do petróleo. Hoje, é um zumbi nas mãos de revistas como “Wallpaper”. PanAm, com suas imagens e refrões de jingles do passado, nos lembra de maneira incessante um período no qual se acreditava ser possível tudo dar certo.


2. Inevitável

Milhões de pessoas, nas mais diferentes línguas, a repetem todos os dias. Nas duas últimas décadas a palavra se tornou um tipo bizarro de artifício para encerrar toda forma de debate.

Frente ao inevitável, as coisas são o que são, tudo é o que deveria ser. É inevitável que, na economia, as empresas se organizem a partir de grandes fusões. A concentração é inevitável, assim como a pobreza cultural. É inevitável a marcha da história, o mercado comum, o fim do cinema como arte, o desinteresse pelos livros. O que o clichê diz é ser na vida realmente inevitável apenas a morte, mas nem por isso todos se deixam tomar por impulsos suicidas. Ao menos não até agora.


3. Poodle

O pensamento ocidental tem dedicado muito de seu esforço na distinção -ou proximidade- entre o nome e a coisa. Diante de um poodle qualquer dúvida simplesmente desaparece. O caso, definitivamente, faz pensar que as palavras são as coisas: um pequeno animal que é, e tem sido para diferentes gerações, tão fancy para a língua quanto para os olhos.

Um pouco belos, um pouco ridículos diante da travessura de seus donos, que os provocam com os mais impensados arranjos para pêlos. Um poodle é o símbolo de muitas coisas, poucas delas defensáveis, representando um estar no mundo de pessoas atentas apenas ao próprio gosto e nada mais.

É ele o verdadeiro escravo do dinheiro, esperando um exército de libertação que não virá jamais. A palavra, quando usada para ofender aqueles que apenas dizem “sim” perde muito de sua força e significado, porque até mesmo o mais obediente dos cachorros late algumas vezes; mesmo que apenas algumas vezes.

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Marcelo Rezende
É jornalista e escritor, autor do romance "Arno Schmidt" e do ensaio "Ciência do sonho: A imaginação sem fim do diretor Michel Gondry".

 
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