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estante

Jeanne Marie Gagnebin

1. Briefwechsel 1928-1940, de Theodor W. Adorno e Walter Benjamin (Suhrkamp, Frankfurt/Main, 1994; trad. francesa: “Correspondance”, La Fabrique Editions, Paris, 2002).

A correspondência completa entre Adorno e Benjamin, cuja tradução brasileira deve ser publicada em breve, lança uma luz por vezes fria sobre a vida desses dois pensadores e suas relações de amizade e, simultaneamente, de concorrência. Chamam atenção tanto o intenso debate teórico-estético (sobre Kierkegaard, Bloch, Kafka, Baudelaire, o fim da "aura", entre outros) quanto a ausência quase total de uma discussão mais elaborada sobre os acontecimentos políticos que ambos autores presenciaram desde 1923, quando se conheceram, até 1940, quando Benjamin se suicida.

Mais precisamente (sigo aqui as indicações de Enzo Traverso no seu prefácio à edição francesa): enquanto Benjamin vive no exílio em Paris desde 1933, no limiar da miséria, e percebe cedo a dramática novidade da repressão nazista, Adorno estuda em Oxford até 1938 e viaja ainda à Alemanha para visitar a família; a partir de sua emigração para os Estados Unidos vive relativamente sem problemas materiais maiores, trabalhando com Horkheimer no Instituto de Pesquisa Social.

Essa situação relativamente privilegiada explica em parte por que somente peceberá a especificidade do nazismo a partir dos anos 40, com a revelação aterradora da existência de Auschwitz. A desigualdade econômica, apesar da condição comum de exílio, explica também, pelo menos parcialmente, a mudança -que cada leitor saberá apreciar- na hierarquia das relações entre ambos correspondentes, certamente amigos, mas também atados por outros liames, institucionais e financeiros. De "mestre" admirado pelo jovem Adorno, Benjamin se transformou quase num bolsista em apuros que teme a censura da "fundação de auxílio", isto é, no caso específico, do Instituto em Nova York que lhe enviava uma bolsa.


2. História da Escola de Frankfurt, de Ralph Wiggershaus (Difel, 2002).

Sobre essa história conturbada, que mescla dificuldades de sobrevivência no exílio, crítica radical da sociedade burguesa e necessidade de um certo tipo de adaptação ao capitalismo para fins de sobrevivência, o livro de Wiggershaus traz um relato apaixonante e muitíssimo bem documentado, erudito mesmo. Escapa assim a um problema comum na literatura secundária sobre os pensadores da Escola de Frankfurt, problema suscitado pelo assombro diante de suas trágicas condições de vida e pela admiração ante sua radicalidade crítica: uma atitude de veneração quase religiosa e o emprego de um tom hagiográfico. O livro de Wiggershaus é excelente e impertinente.


3. Minima Moralia - Reflexões a partir da vida danificada, de Theodor W. Adorno (Ed. Ática, 1992).

Num dos seus mais belos livros, “Minima Moralia”, Adorno tematiza essa condição da vida "danificada", em particular da vida danificada do intelectual exilado que vive num país estrangeiro, se sente incompreendido e injustiçado e tende, por isso, a dar à sua própria existência individual uma importância indevida: "A dimensão privada põe-se em primeiro plano de maneira indevida, febril, vampiresca, exatamente porque ela, a rigor, não existe mais e busca convulsivamente dar provas de vida" (“Minima Moralia”, aforismo 13).

É salutar ler esse livro impiedoso que critica a ilusória possibilidade de liberdade particular e de nobreza individual numa sociedade baseada na exploração e na extinção da autonomia subjetiva -essa leitura ajuda a temperar a perplexidade que cada leitor ressente depois da leitura das cartas trocadas entre Adorno e Benjamin, autores dos quais podia-se talvez esperar mais liberdade e mais nobreza.


4. Ethik nach Auschwitz. Adornos Negative Moralphilosophie, de Gerhard Schweppenhäuser (Argument Verlag, 1993).

Talvez seja esse o melhor livro sobre Adorno; ele foi escrito por um um jovem filosófo, que reconstrói, sem alardes, a relação entre: 1) a reflexão adorniana sobre a "forma de subjetividade" historicamente "condenada" do indivíduo livre -algo que Horkheimer já descreveu em “Eclipse of Reason”-; 2) a persistência simultânea da ideologia da liberdade individual, justamente para acirrar a concorrência entre os sujeitos isolados e solapar as tentativas de resistência solidária; e 3) o compromisso da filosofia adorniana com a memória de Auschwitz, isto é, com a memória desses indivíduos que foram sistematicamente aniquilados.

A partir daí, numa retomada crítica da discussão de Adorno com a filosofia moral de Kant, Hegel e Nietzsche, coloca-se a questão de uma ética tão necessária como problemática, já que não pode mais se basear no estabelecimento consensual de normas universais, ideal estraçalhado em Auschwitz de maneira definitiva. Permanece, porém, no seu cruel desnudamento, a questão do sofrimento e do intolerável com os quais a ética tem obrigação de se confrontar.

5. Infância em Berlim por volta de 1900, de W. Benjamin, in “Obras escolhidas II” (Ed. Brasiliense, 1987).

Costuma-se lembrar a vida de W. Benjamin a partir de seu trágico suicídio, na fronteira dos Pirineus entre a França e a Espanha, em setembro de 1940. Se não conseguiu fugir para a Espanha e para os Estados Unidos, Benjamin, escapou, graças à sua morte voluntária, à deportação num campo de concentração, lugar histórico específico da extinção dos indivíduos, como aponta Adorno. De maneira mais amena, mas, no entanto, igualmente lúcida, Benjamin também ressalta o desmoronamento do indivíduo livre, essa figura privilegiada da ideologia burguesa; e isso através do gênero literário que, tradicionalmente, se consagra à evocação da vida privada: a autobiografia, em particular as lembranças de infância.

A grandeza do curto texto “Infância em Berlim por volta de 1900” está em que na voz da criança que ali toma a palavra sempre ressoam não só a voz do adulto crítico exilado, mas também a experiência histórica (Erfahrung) mais ampla das revoltas e dos desejos coletivos, em particular dos pobres e do proletariado urbano; também ressoam as estratégias de proteção e de manutenção dos seus privilégios por parte da classe dominante, à qual pertence o narrador.

Assim, Benjamin não nos revela as lembranças e os segredos de um menino mimado e sensível, mas, pelo contrário, mesmo quando fala de si, desconstrói essa ilusão sentimental de clausura pela implosão tranqüila da narrativa autobiográfica, fragmentada numa série de quadros, de imagens exemplares sobre constelações socio-históricas prestes a desmoronar. Assim também, desfaz as expectativas do leitor, e isso justamente num gênero que floresce até hoje (autobiografia, memórias etc.) para satisfazer sua curiosidade por vivências (Erlebnisse) e segredos íntimos: em suma, um gênero que conforta o leitor na sua fantasia -tão útil ao consumismo em vigor!- da preciosa importância da existência individual, embora seja ela fadada à mediocridade e à repetição.

Podem ficar sossegados! Benjamin não escreve nenhum panfleto sociológico, nenhuma denúncia militante. O texto flui, cheio de atenção pelos detalhes de um cotidiano cuja fragilidade histórica ali se revela, justamente graças ao cuidado e à precisão paciente, quase terna, da evocação.

6. Enfance et histoire - Destruction de l’expérience et origine de l’histoire, de Giorgio Agamben (Payot, 1989, primeira edição em italiano Einaudi, 1978).

Eis um dos primeiros livros desse filósofo italiano, certamente um dos mais instigantes pensadores contemporâneos. Agamben dirigiu a tradução de vários textos de W. Benjamin em italiano e, por assim dizer, continua num gesto ou num movimento de pensamento análogo. A saber: tentar pensar novas formas de linguagem e de história a partir do fim da experiência tradicional, isto é, do fim das narrativas e das normas tradicionais.

Em vez de engrossar a queixa sobre a falta de valores de nossa contemporaneidade, pergunta pelas possibilidades históricas de invenção de outras formas de convivência e de comunicação humanas. E fica atento, à espreita, diria Deleuze (cujos cursos ressoam no pensamento de Agamben), de outras potências de vida.

Nesse contexto, a noção de infância desempenha um papel essencial; não para idealizar a condição infantil, mas porque a elaboração da linguagem humana somente se torna possível a partir de sua falta constitutiva e originária na in-fância: isto é, segundo a etimologia da palavra latina, na não-fala, esse território que todos seres humanos devem atravessar para chegar à linguagem.


7. Os anéis de Saturno, de Winfried Georg Sebald (ed. Record, 2002).

Por fim, uma obra literária que retoma esse laço entre fragilidade e devir. Sebald nos convida a um longo passeio a pé, um relato de viagem pela costa oriental da Inglaterra, uma região nada turística, pouco povoada. Ruínas calcinadas, dunas, "cerrado", restos de construções industriais desativadas, portos em decadência, casas solitárias.

Os passos do caminhante esbarram em vestígios de histórias, acontecimentos coletivos e privados, histórias de palácios, de reinos findos, de viagens e de massacres, de triunfos e de derrotas, histórias que pertencem ao passado, mas que permanecem, como soterradas, nas linhas da paisagem. Neste livro também, o eu do narrador se despoja de si mesmo para melhor condensar, na atenção ímpar a vozes ausentes, aos mortos e aos derrotados, a memória de desaparecidos que a escritura reinventa.

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Jeanne Marie Gagnebin
É professora de filosofia na PUC/SP e de teoria literária na Unicamp, autora, entre outros, de "História e Narração em Walter Benjamin" (Perspectiva, 1994) e de "Sete Aulas sobre Linguagem, Memória e História" (Imago, 1997).

 
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