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três palavras

Arthur Omar


"O esplendor dos contrários", trabalho de Arthur Omar

1. Congo

A palavra “Congo”, para mim, é um conceito, não um país. Um conceito secreto, só meu, que eu uso para facilitar o processo de pensamento. O local mais confuso da África de hoje me dispara, com seu nome, um cadeia de associações mentais poderosas e, às vezes, até minha postura corporal muda. O Congo das coisas.

Pelo menos uma vez por dia, isto é, quase com a mesma freqüência com que rezo a Ave Maria, esta uma outra obsessão minha, eu me lembro da palavra “Congo”, e alguma coisa é qualificada com ela.

Descobrir o Congo de um determinado tema que estou estudando, chegar ao Congo. Congo é para mim, a imagem da origem, ou melhor, de um tempo anterior à origem, quando não se pode mais remontar atrás e as explicações mudam de tom. Tudo tem seu Congo, quando a sua identidade ainda não estava formada, e as forças componentes se entrechocavam, sem ter o que seria o seu futuro pela frente.

Congo é estar na nascente, com as fontes dispersas, antes de se fundirem para formar um rio. Congo é a vida dos elementos, o lugar onde os arquétipos estão separados e podem ter o sentido alterado, os átomos ainda não formaram moléculas. Congo é a reunião das possibilidades, a partir de motores inesperados. Brutal, grave, terrestre, cores primárias, águas profundas, personagens de pedra, os choques.

Quando, por exemplo, escuto um escritor contando como saiu da província, chegou no Rio de Janeiro para tentar a vida, e daí surgiu sua obra, seus encontros, suas idéias, uma biografia, tudo bem explicado, cheio de causas e encadeamentos, ou quando leio sobre o Bispo do Rosário que teria tido uma noite mítica em que recebeu ordens de Deus para realizar uma tarefa, e tudo teria começado ali, não dou o menor crédito a essas histórias. Estão omitindo o Congo dessas trajetórias, está faltando Congo aí.

Talvez jamais se chegue ao Congo. Uso o conceito para entender esse jogo de origens e aludir a algo que não posso conhecer.

Curiosamente, meu primeiro filme, de 1972, se chamou “Congo”. Eu pesquisava sobre Congos e Moçambiques, me apaixonei pelo Congo, o país, terra da mítica rainha Ginga, e fiz um filme experimental todo com letreiros, sem mostrar quase nenhuma imagem. Fico me perguntando por que fiz esse filme. Discussão antropológica, desconstrução da linguagem, desejo de radicalidade absoluta?

Abandonei totalmente essa vertente aberta pelo filme “Congo” e, de alguma forma, ele se tornou o meu próprio Congo.


2. Silêncio

Nunca convivi bem com a noção silêncio, quando John Cage veio nos dizer que o silêncio não existe, e tudo seria som. Cage queria trazer o som para dentro do silêncio. Todos os intervalos, inclusive os musicais, estariam preenchidos por sons, vindos de todos os cantos da nossa atenção.

Ao ouvir uma música, teríamos que ouvir simultaneamente todos os sons vizinhos, inclusive os sons não-musicais, que envolvem aquela situação. Ruídos, respirações, buzinas longínquas. Para isso, teríamos que proceder a uma divisão da atenção em dois planos, o dentro e o fora, o principal e o secundário, e dar a todos o mesmo valor.

Ouvido de uma maneira correta, tudo seria música, inclusive o silêncio. O silêncio não existe, pois quando a música pára, o som do mundo continua. E a audição também, o concerto pulou a janela e ocupou o planeta. Global groove...

Por mais zen que isso pareça, por mais deliciosamente corruptor da juventude experimental que isso tenha sido durante quatro décadas, não podemos negar que o problema de Cage era originário da sala de concerto. Sua definição de silêncio é feita sob medida para explodir a situação de concerto. Se o seu problema fosse outro, por exemplo, dormir, que é o meu, sua solução para o silêncio teria sido outra.

Para mim, o silêncio é um recipiente, uma grande bacia e dentro dele os sons vêm se depositar. O silêncio é o pedestal do som. Nenhum som liquida o silêncio. O silêncio permanece intacto, porque não é definido pelas vibrações sonoras mais fracas, ou quase imperceptíveis como queria Cage, mas por se constituir num nível da minha experiência auditiva que caminha junto com os sons, por baixo deles, e não se confunde com eles.

Cage achava que, a qualquer momento, no meio do silêncio havia o som em ação. Eu vivo a experiência oposta. No meio do som, no meio do ruído, no substrato dos heavy metals, no coração selvagem do cruzamento da avenida Copacabana com rua Santa Clara, com britadeiras ligadas furando o asfalto, o silêncio está lá. Intocável. Totalmente "silencioso". Porque o silêncio não se mede por meios físicos. É simplesmente um outro modo da percepção. Para isso temos que concentrar a atenção nele, livres dos sons que estão à volta. Quanto maior o nível de ruído ou de música em nossos ouvidos, maior é o contraste com o silêncio, e mais o silêncio se destaca.

Dessa forma, surge o sono paradoxal, determinado pelo ambiente ruidoso. Coloco o explosivo CD “Ascension”, de John Coltrane, me instalo no pedestal de silêncio que o sustenta e me preparo para dormir. Fico aninhado no silêncio que me aparece por trás da barreira sonora projetada pelas caixas de som, que agora se tornam caixas de silêncio. Se estiver com dificuldade, peço a alguém para aumentar o volume, que não estou conseguindo dormir. Então, o silêncio se torna mais profundo. Mas há que aprender a fazer isso.


3. Êxtase

A palavra “êxtase” é um componente fundamental do que eu faço. Ela é repetida não só por mim, como por todos que escrevem sobre o meu trabalho. Conceito central. A palavra “êxtase” é um prisma através do qual eu posso decompor a percepção, a relação com o outro, o instante. Único problema: produz no ouvinte uma adesão muito rápida, que por vezes torna a compreensão insuficiente.

A base é a seguinte: o êxtase não acontece apenas em momentos extáticos privilegiados, nem apenas a seres privilegiados. Todos nós somos capazes de êxtase, e estamos vivendo êxtases praticamente o todo momento, o potencial é o mesmo para todos. O problema é como experimentar isso conscientemente.

Êxtases são partículas, infinitesimais e brevíssimas, que circulam como fagulhas no interior da nossa mente, elétrons, microobjetos que orbitam os grandes vazios e quase nunca chegam à consciência porque são breves demais e não podem ser pensados nem lembrados.

Quando a consciência, que é uma rede, lança suas malhas para pescar o êxtase dentro dos nossos oceanos, o êxtase, por ser tão microscópico, tão fugaz, próximo do zero, passa pelas malhas da rede e se perde. A rede colhe apenas objetos grandes, verdadeiros tubarões mentais, como lembranças, auto-imagens, fantasias, conceitos.

Mas podemos ter sido Budas por um instante, ou experimentado o sabor de açafrão de um raciocínio de Einstein, ou ter sido repórteres na Grécia clássica por um dia, ou coisas ainda sem nome, estados superiores, mas nunca saberemos, porque a rede da nossa consciência é aberta demais para capturá-los. No entanto, estão sempre lá, em plena ocorrência, ao mesmo tempo, porque no inconsciente não existe o tempo.

Desconhecer o próprio êxtase é uma espécie de tragédia invisível, comum a todo ser humano, e da qual jamais seremos heróis. Em ocasiões muito especiais, o êxtase vaza para a consciência, e a partícula transcendental atinge a nossa percepção sensorial como um meteoro. É um acontecimento pessoal. A cultura conhece.

Arthur Omar

É artista plástico, fotógrafo e diretor de cinema. Retrospectivas de sua obra foram realizadas no MoMA (Museu de Arte Moderna), em Nova York, em 1999, e no Centro Cultural Banco do Brasil, no Rio e em São Paulo, em 2001. Na Bienal de São Paulo apresentou a instalação fotográfica "Antropologia da Face Gloriosa", em 1997; em 2002, foi destaque da Bienal com a série "Viagem ao Afeganistão". Publicou os livros "Antropologia da Face Gloriosa", "O Zen e a Arte Gloriosa da Fotografia" e A Lógica do Êxtase", entre outros.  Realizou os filmes "Triste Trópico", "Sonhos e Histórias de Fantasmas", "Atos do Diamante" e "Pânico Sutil", entre outros. Em março, participa da exposição "Brasil Indígena", em Paris. Em abril, apresenta a instalação "Dervixxx", na exposição "Corpos Virtuais", que inaugura o Instituto Telemar, no Rio de Janeiro.



 
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