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audiovisual
MUSEUS

A história sem fim
Por Cecilia Sayad


Rita Hayworth em imagem de "Histoire(s) du Cinéma"
Divulgação

MoMA faz a estréia mundial de “Momentos escolhidos das História(s) do Cinema”, de Jean-Luc Godard

A abertura do novo MoMA (Museu de Arte Moderna), em Nova York, foi celebrada com a estréia mundial de "Moments chosis des Histoire(s) du Cinéma", uma versão em longa-metragem (84 min) da longa série de oito episódios e cerca de cinco horas que Jean-Luc Godard fez originalmente para a televisão francesa, intitulada "Histoire(s) du Cinéma".

O MoMA ampliado custou US$ 425 milhões e praticamente duplicou sua área para cerca de 58.528 m2. O japonês Yoshio Tanigushi, autor do projeto arquitetônico, anexou um novo prédio de seis andares, construiu um átrio, aumentou o pé direito e ampliou as janelas do museu para obter maior iluminação natural.

Os episódios da série foram esparramados ao longo de 11 anos: o primeiro data de 1989, e o último é de 1998. "Moments Choisis" (momentos escolhidos) constitui uma montagem de imagens cinematográficas, pinturas e fotografias combinadas com diálogos de filmes, trilhas sonoras, peças musicais e narrações em voz-over de Godard e atores. O objetivo é esboçar uma tentativa de historicizar um século de cinema, sempre chamando a atenção para a impossibilidade de tal projeto.

O título do filme de Godard revela um ato de renúncia por parte do diretor, que deixa de fora muito do que, para ele, constitui uma tentativa de compilar a história do cinema. Ou, como sugere o título original, as várias histórias (estética, política, econômica) dos vários cinemas (norte-americano, francês, italiano, alemão, soviético etc.)

O longa-metragem de Godard poderia ser visto como um inventário de imagens e sons que visa recuperar e arquivar os mesmos em um nova organização -palavra que, em se tratando de Godard, deve sempre ecoar os prefixos des (organização) e re (organização). Colocando em forma de colagem o que tradicionalmente se organizaria como cronologia, "Moments choisis" sugere que, mais do que historiador, Godard é curador (e orquestrador) das imagens que compõem seu filme.

Afinal, em sua(s) história(s) do cinema, a organização do que se vê na tela é ditada não por aquela tentativa de forjar linearidade que caracteriza textos históricos, mas por uma lógica associativa, muitas vezes acentuada pelas relações rítmicas e gráficas que existem entre as imagens e textos.

A frase "Você não viu nada em Hiroshima", do filme "Hiroshima, Mon Amour" (de Alain Resnais, 1959), aparece no longa de Godard na forma de intertítulo, para então ser desmembrada: em lugar de Hiroshima lemos, sucessivamente, Sarajevo, depois Leningrado, e assim por diante. No eco da lembrança de um filme são unidos diferentes eventos e temporalidades.

A história do cinema, segundo Godard, é também permeada de relações artificiais. "Se George Stevenes não tivesse sido o primeiro a utilizar o primeiro filme colorido em Auschwitz e Ravensbruck", diz Godard, "Liz Taylor nunca teria encontrado ‘Um Lugar ao Sol’". Por meio de um trocadilho com o título do filme de Stevens, o diretor fabrica uma lógica mais associativa do que causal.

Ao introduzir “Moments choisis” na abertura do museu, o presidente da Gaumont, Nicolas Seydoux, observou que tanto o trabalho de consolidação da filmoteca do MoMA quanto o de confecção de "Histoire(s)", que durou mais de 15 anos, foram obras que demoraram a se consumar. Porém, se a idéia é justificar a escolha do longa de Godard para a abertura do novo museu, o fator que mais aproxima os dois é o caráter inventorial e arquivista de ambos.

Como anuncia o material promocional do Centro Georges Pompidou, em Paris, que mostra "Moments choisis" no final deste ano, o filme pode ser definido como uma "exposição" de imagens cinematográficas, pinturas, música, textos literários e filosóficos. Neste "museu animado" que Godard fabrica, noções de passado estão imbuídas de futuro, e vice-versa.

Quando um museu dedicado à arte moderna e contemporânea como o MoMA adquire a obra de um jovem artista que acaba de explodir no mercado, esta compra significa um investimento futuro: a obra, que já vinha despertando interesse de colecionadores, obterá relevância maior agora que faz parte do acervo de uma instituição de peso.

Ao mesmo tempo, o museu que compra esta obra acaba por historicizá-la: ao incorporá-la ao seu acervo, atribui a ela valor museológico, e o trabalho passa para o domínio da história, que de certa forma é o domínio do passado.

Resta saber até que ponto "Moments choisis" possui caráter museológico. Quanto ao seu impulso historiográfico, nele o poeta substitui o cientista, o artista se funde ao analista, e o investigador é parte do objeto investigado. Godard, como peça-chave na história do cinema, aqui se apresenta como que paralisado diante da (im) possibilidade de se consolidar como personagem de eventos passados: como, por exemplo, ser um dos ícones da Nouvelle Vague. "Examino o meu projeto e ele me parece irrealizável" diz Godard, citando Brecht.

Em "Histoire(s)", a voz do diretor repetia "Uma arte sem futuro", em referência ao ceticismo dos irmãos Lumière em relação ao cinema. Tanto "Moments choisis" como "Histoire(s)" talvez criem um museu de imagens e sons. Mas o projeto de Godard é mais ambicioso: ele deseja projetar o cinema no futuro.

Como nos lembra o diretor, reinterpretando Lumière: "Eles disseram uma arte sem futuro: uma arte do presente, uma arte em sua infância". Godard pretende historicizar uma arte que ainda não saiu das fraldas e que muitas vezes o próprio diretor proclamou morta -no final de "Weekend" lia-se a frase "fim do cinema". Será que Godard acredita que o cinema é uma arte natimorta?

"Moments choisis" mostra que não. Ao recriar cenas de filmes antigos colocando-as em novas relações com outras imagens, Godard as recontextualiza como forma de fazê-las acontecer novamente e de maneira diversa: como forma de fazê-las renascer, ainda que imbuídas de ecos do passado.

Assim, a rosa amarela de "A Bela e a Fera" aparece na tela acompanhada de um texto de Borges, que lhe dá novo significado. E uma homenagem a Hitchcock reinventa imagens de "Rebeca", ao combiná-las com cenas de "Um Corpo que Cai", "Pacto Sinistro", "Psicose".

Em outras palavras, Godard recusa-se a considerar estas imagens como evento consumado, dando-lhes nova vida. Daí talvez o caráter interminável de "Histoire(s)", que encontra em "Moments choisis" seu mais recente desdobramento, mas talvez não o último. Daí a recusa de Godard em botar um ponto final neste que tem se definido um processo para sempre inacabado.

A história do cinema segundo Godard, como não poderia deixar de ser, é aberta, inconclusa e rejuvenescedora.

Cecilia Sayad

É doutoranda em cinema  pela Universidade de Nova York, onde também leciona.



 
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